Imagem: Denis Bayer

Pretendia escrever esse artigo deixando para falar do acontecimento que o estimulou apenas no final pois não o vejo como o evento central e sim como uma história pessoal que despertou uma série de reações que são, elas sim, eventos dignos de análise.

Para o caso de você estar lendo isso muito tempo depois: estou falando da sequência iniciada com uma mulher branca sendo repreendida por uma mulher negra por estar usando um turbante, símbolo escolhido por vários coletivos negros como uma das representações da cultura e identidade negra no Brasil. O fato da mulher branca estar usando o turbante para cobrir a cabeça sem cabelos por conta do tratamento de câncer, na minha opinião é um fator que dispara emoções que dificultam ainda mais uma abordagem racional e sugiro que você o abstraia.

Existe uma razão para a escolha da imagem que ilustra o post, vá seguindo que você a entenderá logo (mas acho bem possível que você já tenha pescado).

Ah! Claro, eu sei o que é ser vítima de preconceito, mas não sei o que é ser vítima de preconceito o tempo todo e não achar uma base cultural onde possa me apoiar para suportar a discriminação porque não sou nem negro, nem mulher e não carrego claramente na minha aparência as qualidades que me tornam alvo de preconceito (nerd e ateu basicamente). Isso é importante porque significa que preciso me esforçar muito mais para entender os aspectos e desdobramentos do caso.

Certo, mas eu não pretendia começar falando de turbante e muito menos de duas pessoas discutindo na rua a respeito das suas posições e direitos culturais, mas tive que fazer assim para mostrar claramente o primeiro ponto que torna essa série de acontecimentos interessante.

O ponto é:

Uma dezena de questões foram reduzidas a apenas uma criando uma pasta de ideias totalmente desconexa e levando até a afirmações como “o movimento negro corre o risco de virar uma caricatura” quando não houve movimento negro envolvido e sim duas pessoas que pertencem a duas subculturas que convivem em conflito, uma discriminando, outra sendo discriminada.

Vamos decompor as várias questões?

  1. Uma mulher branca decide cobrir sua cabeça com um turbante na luta por manter sua auto-estima em uma sociedade machista e enfrentando uma das doenças mais debilitantes psicologicamente;
  2. Uma mulher negra reage ao que vê como um esvaziamento da sua cultura pelo uso de um símbolo da sua cultura por alguém da cultura que discrimina sua cultura há séculos;
  3. Mulher branca reclama online que foi hostilizada por uma mulher negra por ter usado um símbolo adotado por grupos de ativismo da cultura negra;
  4. A mídia e os fluxos em redes sociais predominantemente condenaram a audácia da negra (que inevitavelmente nos lembra de Rosa Parks e daqueles dois ou três negros que sentaram em um bar de brancos no século passado nos EUA. Algum dia houve uma luta cultural negra no Brasil?)
  5. Quase toda mulher negra é constrangida quase todo dia por sua cor, cabelo ou cultura por pessoas brancas… Ah! Espera, isso praticamente não foi lembrado durante a sequência de eventos, ignore esse item. Ignore…
  6. A ideia de apropriação cultural (um tanto em desuso academicamente desde o século passado) foi questionada a ponto de ser, levianamente ao meu ver, considerada inexistente: cultura é de todos e “vai ter branca de turbante sim!”
  7. Uma coisa é uma cultura dominante absorver uma cultura discriminada, outra é uma cultura tentando se estabelecer em reação à discriminação assimilar ou resignificar símbolos.

Acho que isso não esgota, mas dá uma boa noção de que não podemos tratar todas essas coisas como se fossem uma só.

A única realmente crítica me parece ser a flagrante demonstração do racismo da nossa sociedade pelo tratamento diferenciado para o constrangimento dos negros (não lembro de um “flame” na mídia ou online por um branco ter sido agressivo com um negro, você lembra?) e dos brancos.

Como disse mais acima é inevitável associar a Rosa Parks, a negra que se atreveu a sentar num banco para brancos no ônibus (ou num ônibus para brancos). Pode-se dizer que o caso aqui é o contrário, mas a questão é a mesma: a audácia de um negro pedir direito.

Está certo ou errado um indivíduo abordar outro na rua coagindo-o como se a questão do preconceito fosse culpa de cada indivíduo?

Em primeiro lugar isso não tem nada a ver com a questão coletiva do preconceito. Em segundo lugar mesmo essa questão nós não podemos analisar apressadamente.

O enfrentamento não é desejável pois leva a questão para o âmbito pessoal e isso pode criar atritos que, em vez de acelerar a redução dos preconceitos, venha a colaborar para aumentar a tensão, o medo e, consequentemente, o preconceito.

Todavia… Bem, é como a questão de “todo homem ser um estuprador em potencial”. Não se pode mudar isso mudando as mulheres. São os homens que precisam mudar coletivamente para, quando for raro um homem ser uma ameaça para uma mulher, deixarem de ser percebidos assim por elas. Do mesmo jeito, não podemos esperar que os negros maltratados, espezinhados, partidos em dois entre o Estado e o crime agressivos que disputam poder em suas comunidades sejam dóceis.

A agressividade de indivíduos (não só negros, aliás, mas também pobres, o que no Brasil geralmente é a mesma coisa) não pode ser tratada pela repressão dos negros e sim pela redução do preconceito em todos os níveis.

Isso me leva a lembrar de um vídeo que fiz sobre mais uma dessas “cartas abertas à sociedade” escritas por algum leigo dizendo que a culpa da corrupção é do povo. O que digo que não, que ela é sistêmica.

Mas é claro que cada indivíduo deve ter uma responsabilidade com a honestidade. Cada branco deve procurar se colocar no lugar dos negros e respeitar os símbolos que eles escolherem (calma, sei que tem um ponto aqui, espere o próximo parágrafo), todo homem deve ter consciência que a maioria dos seus semelhantes é agressivo contra as mulheres, todo negro ou negra tem algum (e quero amenizar mesmo) compromisso em escolher sua cultura e a forma de defendê-la.

Isso nos traz para a questão da escolha dos símbolos. O turbante é um deles e, lamento pela ignorância, eu não sabia até essa semana!

No entanto esse símbolo não é escolhido pelos negros. Nem mesmo é escolhido pelo movimento negro visto que não há um movimento negro, mas centenas e talvez milhões de negros que não se alinham a nenhum desses movimentos (mas cada indivíduo deve ser visto como um movimento em si).

Qual é, portanto, a legitimidade dos símbolos escolhidos?

Tenho uma resposta para isso: não é da minha conta.

No papel de branco que não admite fazer parte de preconceitos o meu papel é respeitar.

Oh! Que desagradável! Em alguns lugares não posso me dizer feminista e sim pro-feminista senão acabo levando bronca, ficando constrangido. É… Acontece, mas o constrangimento é medíocre comparado com aquele de quem aprendeu desde de criança a ter vergonha de si mesmo.

Se reconheço que um determinado elemento está sendo usado pela cultura negra para firmar sua identidade evito usá-lo. Se sou repreendido (nunca aconteceu por ser homem e usar naturalmente poucos itens decorativos) por usar um símbolo que eu não sabia ser negro pedirei desculpas pois não cabe a mim perguntar “Ah! Mas todos os negros concordam com você, neguinho abusado?”. No entanto também não posso repreender o branco ou branca que se ofende pois é muito difícil para o dominante ser repreendido pelo dominado.

Ah! Mas posso criticar muito seriamente quando a sociedade dominante usa um episódio entre duas pessoas para fazer um grande teatro do preconceito nacional. Isso foi (está sendo) muito mais constrangedor.

Mas claro que não posso terminar assim, existe a questão da cultura ser ou não de todo mundo e isso nos leva para a kombi 😉

Onde está a cultura hippie e os hippies?

Vale lembrar também (dá uma olhada em Câmara Cascudo na biblioteca do seu bairro) como os colonizadores elevaram Tupã a um deus maior e desmoralizaram o deus principal de cada tribo apropriando-se da religiosidade deles e, assim, anulando suas identidades.

Uma coletividade sem cultura é uma coletividade sem identidade, ela se dissolve e, mais cruel ainda, as pessoas dessa coletividade que são vítimas de discriminação não tem onde apoiar os pés, onde gravar os dedos para não serem sugadas para o desespero e colapso da auto-estima.

São numerosos os casos de grupos indígenas que são exterminados pelo álcool e pelo suicídio em grande parte pelo apagamento das suas culturas.

Os negros brasileiros não tem uma cultura atávica porque seus avós e bisavós foram tirados das suas culturas, misturados no Brasil e submetidos a diversas formas de apagamento cultural.

Talvez um dia brancos e negros possam compartilhar uma única cultura no Brasil, mas antes disso os negros precisam (e precisam não porque estou dizendo, mas porque eles decidiram) construir uma identidade e cultura, aliás, identidades e culturas próprias que devemos aprender não a tolerar ou mesmo respeitar, mas a admirar.

Evidentemente que nem sempre um branco usando cultura de negro é uma agressão, mas deve ser uma preocupação nossa, dos brancos, refletir sobre esse uso.

Me parece que ignorei nesse texto ideias como “mas então não posso me apropriar do hot dog?” porque… Bem, eu deixei de seguir no FB pessoas que seguiam essa linha de falácia que devia ser um claro absurdo que dispensa explicação. Você sabe, né? Até esbarrei nisso lá em cima, na diferença entre o uso de uma símbolo por duas culturas similares; de uma discriminada por uma dominante; de uma dominante por uma discriminada.

Uma boa reflexão que pode ajudar com o conceito de apropriação cultural: Pizza, sushi, kung fu são italianos, japoneses e chinês, é óbvio, certo? E Acarajé, feijoada, congado e até capoeira? São vistos como cultura de todos, tirada de uma forma ou de outra dos negros, da sua identidade.

Ah! Uma última coisa (mentira, vou acabar acrescentando mais a esse post): o turbante na cabeça da negra é diferente do mesmo turbante na cabeça de um indiano e de uma branca. São símbolos diferentes e espero que saibamos, brancos e negros (porque os indianos não tem nada com isso) entender isso.

Links:

  • https://theintercept.com/2017/02/15/na-polemica-sobre-turbantes-e-a-branquitude-que-nao-quer-assumir-seu-racismo/
  • http://azmina.com.br/2016/04/apropriacao-cultural-e-um-problema-do-sistema-nao-de-individuos/
  • http://m.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2017/02/1859197-movimento-negro-corre-risco-de-virar-caricatura.shtml
  • Apropriação cultural existe? Pode branca de turbante? (vídeo)

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