Imagem: Doug Linstedt

A gente se acostumou com a promessa de revoluções, e somos hipnotizados por nossa mente para considerar que o mundo é estável.

Calma, não seja uma pessoa afobada! Garanto que essa rapidíssima introdução é necessária, certo?

Desde a década de 90 ouvimos que a Internet muda tudo e tal e panz, então isso não é mais novidade e a maioria das vezes que vemos uma notícia ou mesmo observamos algo no mundo esquecemos que esse processo mal começou, que diversas áreas ainda permanecem praticamente intocadas como a política (combate à corrupção e transparência não são nem 1% das mudanças que estão a caminho, pode anotar) e, claro, a educação.

Mas as mudanças, além de inevitáveis, estão em curso. Mesmo que muitas vezes nem percebamos isso.

Esse não é um post sobre escola

Provavelmente você chegou aqui por uma pesquisa no Google, então devo avisar que sou um tipo de antropólogo que aplica as ideias da evolução genética e memética além de mitologia para explicar como e porquê nossa civilização está mudando conforme se transforma de uma civilização industrial para uma digital (ou cognitiva se preferir).

Então não estou falando em currículo escolar e sim em modelos de aprendizado que incluem, mas não se limitam à escola.

Escola não é importante?

Escola é importantíssima, vital aliás, mas assim como a grande corporação e os “corpos políticos” são estruturas cimentadas que se enfrentam muito atrito contra as mudanças.

Veja que não ignoro os esforços e conquistas fantásticos que vários educadores no Brasil e no mundo tem conseguido, mas creio que a maioria deles (de vocês se você é uma dessas pessoas – te admiro demais-) concordará que é uma luta difícil, provavelmente a dificuldade em implementar mudanças é maior do que a de projetá-las.

Infelizmente a escola faz ainda o papel de atrito às mudanças e há razões meméticas para isso. Basicamente estruturas tradicionais como religiões, ensino, política e mídia tem o papel de lagos informacionais que se modificam lentamente garantindo que o ecossistema cultural e social não se desgoverne. Espero escrever mais sobre isso algum dia.

A propósito a transformação da escola (não a Universidade que sempre teve essa vocação) em espaço de mobilização social, política e de debate da própria escola é um fenômeno que já faz parte da revolução do ensino.

Mudanças que já estão aí

Já vemos países passando a agrupar os estudantes por interesse e conhecimento em vez de por idade e mudanças na estrutura curricular que, em vez de ensinar as matérias desconectadas (Matemática, História, Filosofia, Química) adotam uma abordagem mais realista em que várias áreas do conhecimento são necessárias para resolver uma questão.

Também vemos sistemas de ensino à distância proliferando com estruturas tradicionais ou já usando as abordagens acima e outras iniciativas de ensino à distância como canais no Youtube.

É possível fazer uma longa lista de mudanças, mas a maioria se encaixará nos dois cenários acima, mas considero que não são parte da revolução no aprendizado que está a caminho. Vejo mais como exercícios ou “ondas de choque” ainda que sejam vitais para a estrutura atual do ensino.

O aprendizado por modelo memético

As mudanças que temos visto nas últimas décadas envolvem pessoas trabalhando de novas formas (crowdsourcing, organização horizontal), máquinas trabalhando para pessoas (machine learning, IA) e trabalho colaborativo entre inteligência humana e de máquina (Watson e diagnóstico de câncer, composições musicais). Podemos incluir também a proliferação de “startups” que no caso do conhecimento se manifestam através de sistemas ou conteúdo disruptivo produzido por uma pessoa ou um grupo pequeno de visionários.

Claro que nem todas essas iniciativas são válidas ou mesmo boas e essa é uma característica central (que as pessoas que estudam abordagens como metodologias ágeis de desenvolvimento de sistemas ou Startups Exutas reconhecerão com facilidade): A sociedade memética evolui de maneira muito semelhante à dos organismos orgânicos.

Isso vale para as organizações da sociedade que vemos em fenômenos como a primavera árabe, Occupy (em 2011) e os protestos de 2013 no Brasil e certamente será notado na revolução da educação.

Caso 1: This Will Revolutionize Education – Derek Muller – Veritasium

Depois de mostrar como a aplicação de novas tecnologias (na ordem de 1920 até hoje: cinema, rádio, Televisão, computadores, multimídia) à estrutura educacional existente não implica em revolução, mas apenas em evolução do ensino (e mesmo assim em alguns casos uma tecnologia mais antiga é mais eficiente) ele aponta que a revolução ocorre na forma como o estudante processa o conhecimento e nas formas de interação social ao redor do aprendizado.

Em outros vídeos ele defende a hipótese de que demonstrar que nosso senso comum falha diante de certas questões é mais eficiente do que simplesmente ensinar como um determinado fenômeno acontece.

Essa é uma mudança revolucionária de pensamento pois nossa evolução nos levou a confiar em nossa intuição e senso comum, mas para entender o mundo precisamos ir contra esses instintos e duvidar de nós mesmos, questionar justamente as ideias que nos parecem mais razoáveis.

Trata-se de trocar o chão sólido por areia movediça, ou seja, abraçar uma realidade líquida quando nossos instintos nos chamam a acreditar que o Universo é estático, infinito.

Caso 2:How a Math Algorithm Could Educate the Whole World

Trata-se de um sistema que aparentemente envolve o trabalho de inteligência de máquina para ajustar o teste, exercício e orientação dos estudantes de acordo com seus conhecimentos que pode, por si, representar uma ruptura no ensino, não substituindo professores, não se assuste, isso não acontecerá, mas atendendo onde há vácuo, ou seja, onde não há professores ou em fases ou momentos em que eles ainda não não necessários.

No entanto o ponto realmente disruptivo está na ideia de inverter a estrutura do estudo começando pelo “teste” que não será classificatório, mas qualitativo (testes que aprovam ou reprovam deviam ser abandonados imediatamente) seguindo para o “dever de casa” e depois para o estudo com um tutor-máquina, uma IA ou sistema cognitivo.

Lembre-se que a evolução se dá em grande parte por tentativa e erro. Podemos ter muitas críticas a projetos como esses, mas pense nos desdobramentos e até no significado útil das falhas que mostram caminhos que não funcionam antes que os experimentemos em massa com altos custos e consequências.

Na evolução não existe erro. Toda experimentação tem uma importância.

Casos 3 e 4: Colaboração humanos/máquina e “startups” de ensino

Ainda não tenho casos para citar nessas categorias, mas eles certamente já existem e imagino que surgirão de ambientes como a Khan Academy, mas acho mais importante nesse ponto destacar um fator essencial para qualquer revolução: energia. Precisa haver alimento abundante para que organismos possam se desenvolver.

No caso do ensino o alimento não não humanos sedentos de conhecimento pois a verdade é que não é de conhecimento que temos fome e sim de estímulo cognitivo que pode ser facilmente nutrido por entretenimento com praticamente zero impacto educativo (nada é “zero educativo”).

O alimento é capital e consumo pois, queiramos ou não, vivemos em um capitalismo consumista (e francamente tenho fortes questionamentos de que isso é ruim em vez de ser apenas mal direcionado).

Esse alimento deve se tornar cada vez mais abundante conforme os assistentes digitais como o do Google, da Apple, da Amazon só para citar algumas das empresas mais poderosas do planeta, se desenvolvam e as equipes dessas empresas percebam que interagir com o aprendizado humano não só é vantajoso, mas essencial para seu desenvolvimento.

Além disso estamos em uma inversão de paradigma… Bem, na verdade estamos assistindo uma infinidade de inversões, mas no âmbito cognitivo temos especificamente o fato de que uma sociedade ignorante é ruim para os negócios da maioria dos pilares da economia moderna e esses pilares mal iniciaram seu crescimento.

Quanto mais a indústria digital e cognitiva se torna a base da economia pior é a miséria material que vem da deficiência educacional.

Já vemos grandes iniciativas contra os fatores de miséria vindo de nomes como Bill Gates e Zuckberg e veremos cada vez mais.

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