Frequentemente nos apressamos a anunciar que 1984 é o manual do totalitarista, que estamos vivendo hoje o que foi previsto em 1948 e que, assim como lá, o domínio foi estabelecido.

Tive que reler para colocar a obra de Orwell ao lado da nossa realidade, mas lembrava que era a obra mais angustiante e deprimente que tinha lido até hoje porque era assustadoramente realista, mas sem qualquer esperança de saída.

Ah! Claro que esse post conterá spoilers. A obra tem mais de 70 anos, mas é gentil avisar e me sinto impelido a ser ainda mais gentil depois de uma leitura como essa.

Mesmo sendo uma leitura bem desagradável sugiro que você leia para construir sua própria percepção dela, mas vou resumir procurando ser o mais sintético possível.

Em 1984 vemos um partido totalitarista autodenominado socialista estabelecer uma nova forma de poder que se baseia primeiro na supressão do pensamento, depois na vigilância ostensiva e finalmente no medo. O mundo se divide em três super nações intercontinentais que estão em guerra constante em suas bordas basicamente com o intuito tácito de manter a indústria consumista a todo vapor a despeito da miséria das suas populações. A história se passa onde era a Inglaterra, parte da super nação Oceania. Essa nação está estruturada em proletas, que é a camada mais numerosa e mantida à parte da política em uma alienação livre; membros do partido externo, que são similares a funcionários públicos e membros do partido interno, que tem relativas regalias em termos de conforto, mas, junto com os membros do partido externo, certamente estão muito mais presos mentalmente pelo chamado duplipensar (um tipo de esquizofrenia em que a verdade é mais fluida que a memória) do que o proletariado. Acima de todos existe o Grande Irmão, que provavelmente nem existe, mais sobre isso mais adiante.

Esse é o cenário em que Winston se rebela contra o apagamento do passado e o controle absoluto do partido sobre corpos e pensamentos, mas é uma revolta egoísta e não comunitária. Mesmo quando ele se aproxima da resistência (só existe uma e isso é importante) há pouca intenção de fazer o bem comum e muito mais a satisfação de ir contra o controle do partido.

Demora pouco para descobrirmos que a resistência é uma invenção do partido que serve para localizar divergentes para destruir seus espíritos e colocá-los em conformidade com o duplipensar de corpo, mente e alma. A resistência, como no filme Matrix, é parte do sistema de controle e, desconfio, serve também para controlar os divergentes que conseguem se manter anônimos pela esperança da resistência um dia restabelecer o capitalismo (apesar de Orwell ser socialista o capitalismo é retratado no livro como melhor e isso dá assunto para boas reflexões antropológicas e sociais).

O ponto que acho mais útil para nós hoje, segunda década do século XXI, é o papel da resistência na manutenção do estado totalitário pois tenho pensado que é exatamente o que temos feito ao tentar resistir à ascensão do fascismo, da pós verdade, do vigilantismo digital etc.

É até uma questão evolutiva: a pressão que não mata um organismo o faz se adaptar para absorver aquela ameaça tornando-se mais forte que ela ou até mesmo tornando-a positiva para sua sobrevivência.

Veja o terraplanismo, por exemplo, que está entre as bases da maioria das teorias da conspiração que estabelecem um verdadeiro duplipensar nos tempos modernos.

Quando ele retomou forças há uns 20 anos recebeu ataques de todos os lados que só serviram para aumentar a convicção de quem era cooptado por ele e para atrair mais pessoas que viam nos argumentos contra o terraplanismo manipulações de uma ciência suspeita que na verdade queria lhes negar o direito a fé ou liberdade de pensamento.

Em 2005 eu já falava no crescimento do Fascismo no Brasil em outro blog meu e estou longe de ser um dos primeiros, mas, junto com muitos outros, errei tanto na abordagem que não consegui proteger nem meus parentes e vários deles próximos de mim estão embrenhados nas redes de ódio e dissociação da realidade que se reúnem (hoje) em torno do presidente mais abjeto que esse país já teve por ser explicitamente e orgulhosamente abjeto formando um dos mais potentes exemplos de duplipensar: imoral, anticristão, indisciplinado, violento, corrupto eleito por quem dizia procurar alguém moral, cristão, disciplinado, capaz de promover segurança e honestidade.

A resistência que se levantou em 2013, ecoando as mobilizações do occupy (recomendo o post sobre Castells e o Occupy e esse com comentários sobre o Occupy que fiz ainda em 2011) não foram criadas pela direita, mas foram absorvidas evolutivamente com muita eficiência como sugeri mais acima. Desde então e ainda hoje a resistência ao fascismo não o tem enfraquecido substancialmente.

Mesmo com mais de 600 mil mortes (quando a realidade mostra que países menos preparados e mais populosos que o nosso tiveram poucas perdas, inclusive econômicas), 1/3 da população passando fome ou em insegurança alimentar, a corrupção atingindo níveis diversas vezes maiores do que qualquer período recente, abusos indescritíveis dos recursos públicos que se esvaem em orçamentos secretos, a destruição do futuro da energia e do agronegócio no país pela destruição da Amazônia, o genocídio dos povos indígenas… A lista é extensa demais para um post só. Mesmo com tudo isso o governo continua mantendo perto de 30% das intenções de votos quando 10% seria muito!

Me parece claro que a resistência ao fascismo, se não estiver sendo ineficaz, está recrudescendo o controle sobre quem foi cooptado pelas redes de medo, ódio e pós-verdade e creio que 1984 tem muito a nos dizer sobre o que está acontecendo.

Infelizmente Orwell não nos deixou muitas pistas em seu livro do caminho para exercer de fato uma resistência. Ele nos deixa apenas a esperança do controle do partido ter apenas umas três décadas e estar ainda longe de estabelecer o controle completo substituindo a língua comum pela novilingua (uma redução extrema do idioma para destruir qualquer possibilidade de pensamento crítico), um processo que ainda deveria custar outras 7 décadas.

Na verdade talvez esteja aí a sugestão de Orwell: cultivar a comunicação rica de um idioma vivo em que palavras novas são criadas (como LGBTQIA+, pronomes neutros, pós-verdade…) em vez de subtraídas.

Além disso vejo a esperança da mudança mais em quem está à margem do que em quem está envolvido em reagir ao sistema se rendendo à narrativa colocada por ele… Aliás, nesse aspecto o sistema moderno parece estar se saindo muito bem no controle da resistência que é levada a gastar forças preciosas para contrapor ideias absurdas criadas pelo sistema ficando sem forças, ou tempo, para propor caminhos de mudança: “destrua o capitalismo!!” sem “Construa…” só causa rejeição à resistência, não lhe parece?

E aqui volto ao Grande Irmão, que certamente não existe na realidade de 1984 sendo provavelmente uma alegoria ao que os membros do partido interno consideram que devem servir, exatamente como os capitalistas modernos cujas famílias com alguma frequência se dissolvem para fora dos círculos internos, mas logo surgem outras para conduzir o mundo de acordo com os desígnios do Grande irm… digo, do capitalismo…

Foto ilustrativa por Kev Seto on Unsplash

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