Em geral não gosto de repetir o mesmo tema seguidamente, mas realmente creio que o fenômeno que estamos assistindo é tão grande, tão complexo e mal compreendido (inclusive por mim) que me sinto obrigado a fazer pelo menos mais dois posts.

Nesse vou reunir opiniões que espalhei no Facebook. Não colocarei os links para elas pois não acho que seria certo com as outras pessoas que se achavam em um espaço mais restrito. Creio que os meus comentários funcionarão mesmo fora do contexto, mas quase todos foram em torno do recente embate entre alunos da USP e a admistração da universidade/polícia.

Para ver um artigo jornalístico bem feito sobre o caso leia O outro lado da USP escrito por Tico Santacruz (cadê os jornalistas, gente?)

“O problema está em pouca gente estar notando que, quando a única forma de interação entre universidade e poder público é a repressão, algo está muito quebrado no Estado, na universidade, na sistema social e, mais provavelmente nos três.
O que estamos vendo são marolas do mesmo fenômeno que passou a chamar atenção na primavera árabe, se estendeu ao ocidente depois do 15 de maio na Espanha (ao meu ver não por coincidência a origem tb da Campus Party), tomou as ruas de Londres onde os jovens também foram reduzidos a vândalos, atravessou o oceano até Wall Street e agora se manifesta no Brasil mais intensamente em Rio e Sampa.
De acordo com os últimos registros que vi o fenômeno já atingiu mais de 1700 cidades no mundo.
Marolas. Se elas são organizadas, ilegais, tem conteúdo ou durarão é irrelevante. Há de se entender o fenômeno como um todo…”

Depois do comentário acima continuou-se a falar da legalidade ou ilegalidade da ação dos alunos da USP então escrevi o seguinte:

“Movimentos de manada não fazem avaliações… Se o poder estabelecido não souber lidar com o que está acontecendo as revoltas e violências serão inevitáveis como já estamos vendo nos EUA onde, mesmo os agrupamentos pacíficos, estão sendo reprimidos com extrema violência.
Não estamos lidando com indivíduos e, quanto maior a presença de violência e menor o diálogo, maiores serão as mobilizações… E potencialmente violentas.
Essas primeiras marolas podem ser reprimidas, mas nossa espécie nunca foi capaz de conter nem o clima, nem as grandes mudanças sociais.
É muito difícil prever o que acontecerá, mas tenho chutado que isso são marolas. As coisas vão acontecer de fato em uns 8 anos… Mas eu, francamente, não esperava que a primavera árabe viria a se estender agora pelo ocidente…
Acalme seu coração, filtre as emoções e preste atenção ao que estou dizendo.
Não estou falando desses jovens, não estou falando do OccuppyWallst. Estou falando de uma gigantesca força que se espalha silenciosamente de sofá em sofá alimentando uma massa critica…”

“A propósito, há ocupações pacificas com debates públicos quase diários sobre ecologia, educação, democracia direta, direitos humanos, filosofia, preconceito de gênero e muito mais que já se estendem por mais de 3 semanas em Sampa e mais de 2 no Rio, mas o que incendiou minha timeline foi a reprovação aos alunos da USP que, supostamente, depredaram o espaço que ocuparam…
Pense bem… Não estamos deixando de ver nosso próprio rabo?
A quem está nas ocupações no Rio, Salvador, Sampa e demais cidades sugiro não ceder à visibilidade fácil do conflito. Esses espaços devem seguir no sentido de devolver o espaço publico à população, as ocupações devem criar um ambiente onde os pais tenham vontade de levar seus filhos.”

“Sabe as ondas? Essas mobilizações são ondas, preste atenção nos ventos e correntes que as formam. Uma ressaca, um tsunami não são bons, não estão certos, não é essa a questão… #OcupaRio #usp”

“Um dos maiores problemas da mídia de massa contemporânea é que, para agradar a todos e ser consumida por um público maior, acaba sendo superficial e sem alma.

Se informar por jornais e telejornais te faz viver em um mundo virtual onde os alunos da USP são maconheiros, o movimento Occuppy é só uma nova onda de hippies desocupados e a primavera árabe é a tardia vitória da democracia representativa.

Um pouco disso tudo, mas tudo isso é muito mais profundo e interligado…”

Comentário deixado no blog do @TomFernandes
Vou reproduzir aqui um pouco do que falei no FB, mas antes quero dizer que gostei muito dessa frase: “Não há nenhum homem mau sequer, a culpa é sempre do sistema, da sociedade, da família, da escola, da TV”

Sim… A geração que hoje está nas universidades não teve vilões e isso explica muito sobre o perfil delas.

No sábado passado falei sobre o fenômeno Occupy (e vejo o caso USP como parte disso) no Café22 e comecei dizendo que poucas vezes falo do que não entendo, e não entendo o que está acontecendo 🙂 Mas é grande demais para ser ignorado.

Em primeiro lugar quando o diálogo entre o poder estabelecido e a universidade fracassa e as situações são reprimidas pela força não estamos diante de uma juventude perdida, estamos de fato diante de um sistema que deixou de funcionar, pois a universidade é o pulmão da sociedade.

Esse é um alerta…

Em segundo lugar os jovens erraram assim como o AcampaSampa e o OcupaRio erraram ao se calar quando um rapaz se vangloriou de poder contar com o poder voluntário desses movimentos para protegê-lo.  Só que…

Esses protestos mais ou menos isolados não são o fenômeno. O fenômeno é um estado de espírito e senso comum que se espalham silenciosamente entre sofás por email, redes sociais online (e offline) e blogs como esse. As pessoas começaram a levantar do sofá.  Se você for a outros agrupamentos que fazem parte desse fenômeno que não se inicia, mas começa a chamar atenção na primavera árabe, aflora na Espanha no 15 de Mayo (não por coincidência o país sede da Campus Party), segue para Londres onde os jovens também foram comparados a arruaceiros (e não se esqueça da França há alguns anos), atravessou o oceando para Wall Street e agora começa a ocupar o Brasil verá que há um mosaico bem complexo de grupos sociais, culturais, políticos e filosóficos.  Nossa mente tem o impulso natural de simplificar o mundo e é fácil reduzir esses agrupamentos a comunistas, hippies, maconheiros, desocupados (a enorme maioria dos que ocupam a Cinelândia trabalha e/ou estuda) e filhinhos do papai. Isso seria um erro.  Estamos diante das marolas de um fenômeno gigantesco… Ainda acho que elas se diluirão no oceano da nossa mente coletiva para resurgir realmente com força em uns 8 anos, mas tudo está acontecendo muito mais rápido e com muito mais consistência do que eu esperava…  Posso estar totalmente errado em tudo que tenho pensado nos últimos anos e tudo isso não passar de um bando de gente mimada. Vamos ver… 🙂

Pronto, acho que isso basta. O resto dos comentários repetem esses ai.

Atualizando em 10/11/11

Diversos sites e alunos felizmente estão sabendo usar a Rede para lançar luz às notícias, infelizmente apenas um site de mídia tradicional (mais ou menos) fez uma boa cobertura. Passo a disponibilizar os links começando por esse:

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