Imagem: Zach Guinta

A leitura do artigo-crônica A barbárie de um país em que as palavras já não dizem me inspiraram a abordar esse assunto.

Antes um breve comentário sobre o artigo.

O texto é pesado, até um pouco conformista pois não nos aponta para horizontes mais claros e sim para as nuvens de tempestade que parecem nos cercar. Ele também pode nos dar a impressão de que o fenômeno é apenas brasileiro, no entanto a palavra é moldada com arte tornando a leitura até sedutora e o problema da perda de significado da linguagem é uma chave importante para vermos nosso tempo.

Direto ao assunto: Todos nós já nos acostumamos à ideia de que vivemos uma transição de paradigmas, mas nos esquecemos da profundidade disso.

Quando um paradigma se torna obsoleto e outro é construído o que acontece é algo que deveria ser comparado a uma extinção em massa.

Um dia a Terra foi dominada por dinossauros. Foram 165 milhões de anos (nós, homo sapiens, só existimos há 200 mil) em que a vida mamífera era quase inviável. Então veio uma mudança de paradigma e os dinossauros viraram galinhas.

Tá sentindo o tamanho da guinada?

Você conhece algum descendente de faraós?

Nas mudanças de paradigma culturais (que eu gostaria de chamar de meméticas) as transformações não são nas formas, mas nas expressões.

“Mas eu sempre disse lista negra e isso não tem nada a ver com preconceito étnico”, lamento, as palavras continuam, entretanto os significados se tornam estranhos, desconfortáveis e esse é apenas um dos aspectos que temos percebido melhor e que se estende pelas questões de representatividade em filmes e livros. Podemos achar que é exagero, eu mesmo passei por isso ao comentar o filme como eu era antes de você, mas não é.

Esses dias estive conversando sobre a questão dos refugiados e logo vem a questão da “religião errada” deles (e nem percebemos que a nossa é igualmente “errada”).

Em parte isso também é um efeito da transição que implica no colapso do antigo e na reconstrução a caminho do novo.

As linguagens das religiões perderam seu significado. As palavras são as mesmas, mas o sentido se perdeu a tal ponto que escolhe-se as interpretações sem qualquer compromisso com os textos originais e ignora-se partes inteiras dos livros que deveriam ser sagrados.

Pela perda do significado das palavras perde-se o significado dos sentimentos e passamos a lamentar a falta de empatia ao mesmo tempo que falhamos em ter empatia. Confundimos empatia com a compaixão com o semelhante, que se aproxima mais do egoísmo. Pena também não é compaixão, muito menos empatia e ela, a empatia, está na base de toda sociedade civilizada.

Até ontem, na metade do século passado, vizinhança era a nossa cidade, quando muito nosso país e era por essas pessoas que nutríamos alguma identificação e, por vezes, empatia.

O novo paradigma parece exigir o fim dos muros e a construção de pontes. Nossa vizinhança é a Terra, mas nossas palavras não estão preparadas para abraçar ao mesmo tempo muçulmanos, ateus, cristãos, espíritas, wiccas…

Não se precipite! Contenha por um segundo o impulso de gritar uma das palavras irmãs de “fraternidade” pois elas também tiveram seu significado transformado, obscurecido pelo colapso que marca o fim do paradigma que nos moldou nos últimos… quatro? cinco mil anos?

Já paro para pensar nas proporções da transição de paradigmas atual?

Normalmente a comparamos com aquela que deu fim ao feudalismo e cresceu junto com o protestantismo e a prensa do Gutenberg, mas daquela vez se mantiveram as fronteiras culturais, mudaram os poderes, mas manteve-se a estrutura de poder. Certamente temos que ir mais longe em busca da última vez que vivemos mudanças tão profundas, ou pelo menos um projeto de mudanças tão profundas, pois pode ser que o próximo paradigma não seja tão diferente assim.

Tenho defendido que o quadro que temos diante de nós potencialmente pode ser mais parecido com a revolução cognitiva ocorrida entre 70 e 40 mil anos atrás e que marcou nosso afastamento definitivo do mundo natural em direção a uma civilização. Estaríamos, portanto, a caminho de construir um novo modelo de civilização.

No entanto as estruturas de poder eram quase inexistentes até uns 13 mil anos e hoje a resistência a mudanças é muito maior. Não a nossa resistência individual, mas a resistência dos sistemas construídos.

Um sistema religioso não mudará alegremente, um sistema político não será capaz de preparar a transição para outro (e nem verá isso com simpatia), um sistema econômico usará todos os seus recursos para continuar viável.

Mas as palavras perderam seu significado e sua força. Apenas o discurso violento, fisicamente violento, consegue impor algum impacto, todavia a violência não constrói. A violência nos exaure. Por quanto tempo esse discurso e a violência das polícias serão capazes de conter os ventos de mudança?

A reconquista do significado das palavras deverá ser grande parte da história desse século.

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