Imagem: London Scout

Aos 18 anos saí da casa dos meus pais por incompatibilidades ideológicas com meu pai.

Hoje se fala da polarização direita/esquerda, mas foi basicamente essa diferença ideológica que me levou a buscar independência há 32 anos: meu pai era coxinha, sexista, elitista e eu era petralha muito embora não soubesse da existência do PT hehehe.

Ainda hoje só encontro com meu pai poucas vezes por ano, mas afinal, é meu pai. Temos mais do que genes em comum e me parece que uma das características da maturidade é o respeito, carinho e empatia por nossas origens.

Pois semana passada estive com meu pai e comentei que jogo World of Warcraft (tive que explicar o que era e como era).

Sorrindo como pais que nos consideram eternas crianças ele perguntou se isso não era meio infantil.

Sorri de volta comentando que a gente não sabe bem o que é infantil ou adulto, não é mesmo?

Por carinho não aprofundei o tema, mas, veja bem, considero meu pai uma pessoa muito infantil, a propósito considero infantis muitos dos adultos na minha faixa de idade (50 anos).

Adultos e crianças jogam, adultos e crianças contam piadas, adultos e crianças tem responsabilidades, adultos e crianças se divertem.

Tenho minha opinião que começa com a hipótese da estagnação aos 24 anos. Explico.

Tenho a impressão que a muitas pessoas deixam de mudar (e de amadurecer) por volta dos 24 anos quando já definiram suas carreiras profissionais, perfis sexuais, ambições, famílias.

Mas atenção! Um jovem de 24 anos vai a boates assim como adultos de 50. Não se trata do movimento externo e sim da forma como lidamos com as coisas.

O processo de amadurecimento, na minha opinião, deve continuar enquanto estamos vivos.

Mas, espere, então temos três conceitos: criança, adulto e amadurecimento.

Adulto é a criança que amadureceu, certo?

Nas pesquisas para escrever esse post passei pela ideia de “neotenia psicológica”, que foi criada por um pesquisador em 2006 em um texto escrito em duas horas (menos que o tempo para fazer um post como esse que você está lendo agora). O pesquisador em si enveredou mais tarde por uma linha tortuosa de raciocínio que o levou de ateu a teísta porque os ateus reproduziriam menos que os teístas… Motivo bem estranho para crer em deuses. Enfim…

A ideia era que os adultos modernos estão preservando a flexibilidade, adaptabilidade e curiosidade infantis e isso seria imaturo.

Concordo que os adultos da minha infância eram mais “cimentados” e tinham muito menos flexibilidade, adaptabilidade (que são mais ou menos a mesma coisa, certo?) e curiosidade que os adultos modernos, mas será que amadurecer é morrer para os processos de transformação e capacidade de se interessar pelo mundo?

Há tempos li O corpo fala, de Pierre Weil e ele fala, se não me falha a memória (cupins comeram o livro), em sete níveis de consciência sendo que o penúltimo seria um tipo de equilíbrio controlado da nossa mente, corpo e consciência (ou alma) e o sétimo seria uma harmonia natural.

Nesse sentido o amadurecimento poderia ser visto como o crescente equilíbrio sobre nossas emoções e consciência e um adulto seria alguém que já conseguiu não ser controlado por nenhuma delas como o orgulho ou o medo.

Quando vemos pessoas com mais de 30 anos brigando fisicamente ou discutindo violentamente para impor sua opinião, seu ego aos outros fica bem claro que são imaturas.

Raquel Santos reuniu algumas definições acadêmicas sobre maturidade que resumo abaixo:

  1. Física: mole, né? Biologicamente desenvolvido. Ocorre entre os 18 e 20 e poucos anos
  2. Social: Autonomia, responsabilidade conosco e com os outros, não fugir de responsabilidades (Ih! vai pegar muita gente!), respeito aos direitos dos outros (sim, inclusive a religiosidade, cultura, sexualidade), senso comunitário
  3. Intelectual: capacidade de pensamento abstrato, consciência temporal (não planejar o futuro seria imaturo), consciência espacial (tipo nosso lugar no Universo), diminuição do fantasiar (no sentido de fugir da realidade, creio), capacidade de concentração por mais tempo e linguagem rica e complexa
  4. Emocional: conhecer e equilibrar as próprias emoções, ter empatia com as emoções dos outros (mudei um pouco a descrição desse item)

Nota-se que o amadurecimento emocional é o menos entendido, não acha?

Nota-se também que maturidade é algo que muitos de nós não tem além de ser um processo permanente, principalmente no aspecto emocional.

A maturidade intelectual também exige trabalho permanente porque nosso conhecimento do espaço e do tempo está se expandindo todo o tempo desde que desenvolvemos o método científico para explorá-los.

Seja como for, se ser adulto é ser maduro, nada tem a ver com deixar de jogar World of Warcraft, de scifi, histórias distópicas com adolescentes ou fazer cosplay.

Ser adulto também não parece ter nada a ver com manter uma imagem de seriedade, niilismo, pessimismo, rigidez.

Ser adulto é não correr atrás do sexo como se a outra pessoa fosse apenas um objeto para o seu desejo, é ouvir problemas que lhe parecem tolos e se colocar no lugar daquela pessoa entendendo sua dimensão, é assumir quando comete um erro, é agir responsavelmente em sua vida e no mundo no sentido de construir uma sociedade cada vez mais justa, uma civilização que mantenha em vez de destruir o meio ambiente.

E, na hora do cansaço, você pode assistir Xena ou jogar Pokemon sem peso na consciência… Bem… Se você for mesmo uma pessoa madura não terá peso na consciência por gostar de lazer infantil. Terá por outras razões e saberá administrá-las.

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