Imagem: Chris Lawton

Aproveitei um artigo bem extenso e interessante sobre o autoritarismo nos EUA para estender o assunto: The rise of American Authoritariarism.

Esse post inteiro poderia ser resumido com um título assim:

Nem autoritarismo, nem conservadorismo ou mesmo polarização direita x esquerda: a crise política no século XXI está no instinto de auto-preservação

Mas desde John Milton não se faz mais títulos deste tamanho, não é?

Em todo caso seria necessário traçar o raciocínio até chegar ao resumo, então vamos lá.

Espera, o que é autoritarismo?

É um sistema político não democrático em que a população aceita seguir cegamente uma autoridade ou pequena elite.

Normalmente não há partidos políticos e nem votações para escolher a liderança do governo.

Então o artigo que me inspirou é uma porcaria? Afinal, por mais pessimistas que sejamos, é difícil imaginar que EUA, UK, França ou mesmo Brasil possam migrar de um sistema democrático para um totalitário (e não venha com aquele mimimi infantil de “melhor autoritário que essa falsa democracia” porque não temos mais 11 anos, né?).

Realmente… Por outro lado isso não quer dizer que não existam grupos políticos que demonstram ambições totalitárias e parcelas da sociedade que os apoiem (não apenas gente imatura).

Vimos nas manifestações de 2015 pedidos de fim da democracia com uma frequência um tanto assustadora.

É fácil entender porque grupos políticos-corporativos-midiáticos teriam aspirações totalitárias, não é? Imagino que seja desnecessário refletir sobre isso, mas e as pessoas? Porque cidadãos seriam contra seus próprios direitos?

Lembra do Leviatã?

Quando sentimos que estamos sendo cercados por ameaças muito maiores que a nossa capacidade de reação é natural que pensemos em ceder nossa liberdade a uma liderança organizada e poderosa.

E, como você me verá dizer muitas vezes, todos nós (todos mesmo… Bem, menos os afortunados capazes de se alienar do mundo por vontade própria) estamos assustados com uma onda de mudanças que parece tirada do filme Interstellar: I N C O M E N S U R Á V E L.

Quase sem perceber cedemos o poder para aspirantes a totalitários tanto conservadores quanto progressistas.

Vamos dizer então que Totalitarismo é uma forma de poder em que a população, sentindo-se ameaçada por algo além das suas capacidades individuais, cede o poder para um grupo restrito.

Ah! Claro que os que cedem o poder acreditam ingenuamente que o grupo a quem eles dão poder tem as mesmas aspirações que eles, mas raramente totalitários tem aspirações outras que o poder em si.

E se precisarmos impedir as mudanças?

Antes de qualquer coisa temos que nos perguntar: e se o medo da mudança for justificado? E se um mundo com menos fronteiras culturais, mais liberdades individuais, mais diversificado, flexível, adaptável e curioso for ruim? E se as sociedades que sobreviverão forem as que protegerem sua cultura e modo de vida? A propósito o que é “sobreviver” nesse contexto? É claro que não se trata de morte real, mas morte cultural: Toda cultura está fadada a se transformar tanto que “deixa de existir” mas até esse século a transição era entre gerações e agora parecem acontecer mais de uma vez para cada geração.

Vamos assumir que a mudança de paradigma pode ser evitada e vamos pensar rapidamente se evitá-la poderia ser o melhor para nós. Fechar as fronteiras econômicas e culturais a fim de garantir a continuação dos modelos que prevaleceram até agora: famílias com dois filhos e meio, o mesmo emprego até a aposentadoria, vidas tranquilas sem sobrecarga de informações, dois gêneros com comportamentos bem definidos…

Vamos abstrair também que esse modelo sempre foi uma ilusão.

Em toda a história da humanidade quase sempre a diversidade genética e cultural garantiu o sucesso de grupos sociais que se tornam mais resilientes, adaptáveis e criativos.

Fechar a sociedade conduz à estagnação e a outra extinção pior do que a transformação social e cultural. Não precisa ser fã de distopias para perceber isso.

Logo… Não. Nós não queremos evitar as mudanças, impedir a diversidade genética e memética. Podemos no máximo procurar a transição de forma controlada, procurando criar postos de trabalho e definir um número percentual de imigrantes a receber anualmente, por exemplo.

Além disso um sistema totalitário não seria o leviatã capaz de nos proteger de mudanças mudanças.

Medindo o autoritarismo

Existe uma fórmula para medir o autoritarismo. Quatro perguntas sobre o que é mais importante para formar uma criança:

  • Independência ou respeito pelos mais velhos
  • Obediência ou autoconfiança
  • Ser atenciosa ou bem comportada
  • Curiosidade ou bons modos

Mas poderia ser também: você prefere ordem ou progresso?

É… Pois é… Ordem e Progresso infelizmente não andam juntos na mesma frase no mundo real, ainda que não custe nada tentar manter um pouco de ordem enquanto progredimos.

Nesse ponto é que discordo mais intensamente do texto e volto ao que tenho dito há já bastante tempo: As duas forças principais moldando nossas posições políticas são o desejo de estabilidade ou de mudança. Não é o totalitarismo que temos que entender e sim a dinâmica do nosso processo de mudança.

Como muda a sociedade?

… No embate entre direita e esquerda.

Só que não existe direita e esquerda há um bom tempo (não, direita não é homofobia teocrática e esquerda não é ditadura gay ateísta).

Direita e esquerda hoje são apenas etiquetas que nos ajudam a agrupar pessoas entre as que não gostam muito da ideia de mudanças e as que anseiam por elas.

Então nossa civilização se desenvolve através do equilíbrio entre o desejo e o medo de mudanças.

Devemos resistir a tentação de separar as pessoas de acordo com essas duas naturezas pois elas estão em todos nós e até atuam de maneira de certa forma autônoma em nossa cultura quando ideias se propagam em interagem entre si.

Essa é uma enorme simplificação, claro, mas é importante perceber que o autoritarismo não é uma coisa em si, não é uma natureza das pessoas e sim um reflexo do medo diante de mudanças muito intensas.

A pessoa mais apaixonada por mudanças ainda terá um limite a partir do qual ela se tornará “conservadora” e até apoiará um totalitarismo para impedir as mudanças.

O instrumento do totalitarismo surge, como já disse, quando sentimos que certas coisas não podem mudar, mas percebemos que não temos força individualmente.

Lembrando que, como já disse mais acima, pode haver o totalitarismo pela mudança: “A diversidade de gêneros não pode deixar de avançar. Não quero que a tendência moderna de diversidade de gênero mude para a não aceitação dessa diversidade”.

Esse totalitarismo “de esquerda” já pode ser percebido em vários grupos considerados radicais pró-mudanças.

Hipóteses sobre o avanço do totalitarismo contra diversidade

Desde a primavera árabe, o Occupy em 2011, as mobilizações em 2013 no Brasil ficou bem claro que as classes políticas falharam em se conectar à população.

Por isso vemos Trump e outros surgindo “do nada” como diz o artigo sobre o autoritarismo nos EUA. Surgem do nada porque os que são conhecidos há tempos estão desmoralizados, principalmente os de esquerda que não perceberam sequer que esquerda agora significa o apoio à diversidade, incluindo a diversidade no processo político através de democracia direta (youtube).

E temos o problema da mídia que, leniente, também perde respeito velozmente.

Por que a mídia é leniente?

“A mídia é golpista” surge sem reflexão sempre que perguntamos sobre o viés dos grandes grupos de mídia, no entanto minha hipótese tem sido e continua sendo outra.

Certo, mídia, anunciantes, políticos, organizações religiosas e crime organizado vem prevaricando há muito tempo e esse pode ser um fator “golpista”, não negarei esse aspecto, mas duvido que seja apenas ele e até mesmo que seja o principal.

Produção de massa tem como primeiro objetivo atingir a massa (duh! Não diga!).

Se você está pensando que massa = plebe ignara, pare e pense melhor. Massa somos todos nós. Massa é atrair a atenção de cultos e incultos, ricos e pobres, conservadores e progressistas, ateus e religiosos.

A mídia jornalística procurará seguir as ansiedades que prevalecem pois notícia é falar de ansiedade (felizmente ou infelizmente) desde tempos imemoriais.

Quando éramos nômades coletores e caçadores as notícias sobre os predadores certamente eram mais importantes que saber que faria um lindo sol com reflexos dourados na superfície do mar à tarde.

A fórmula é: Aumentam mudanças sociais, culturais etc / aumenta o medo / aumenta necessidade de segurança / mais artigos sobre o perigo das mudanças e a necessidade de estabilidade.

Isso certamente venderá mais.

“Ah! Mas livros e cinema pop são a favor da democracia, das mudanças e de um novo paradigma!”

São mesmo? Isso é tema para outro post e já andei comentando aqui mesmo (busque por Jogos Vorazes, Divergente ou distopia). Mas vamos dar pelo menos uma satisfação, né? A fantasia alimenta nossos sonhos que podem ser o oposto da nossa experiência cotidiana e, além disso, talvez não sejam tão democráticos e pró-mudanças assim.

Resumindo

Quando mudamos de paradigma dificilmente identificamos claramente o que muda, o que deixa de existir, o que surgirá.

O senso comum, que emana do paradigma antigo e certamente é falho, aponta para barbárie, intolerância, totalitarismo, conservadorismo e outros bem familiares para nós.

No entanto talvez a chave seja ver tudo isso como sintomas do nosso medo diante das mudanças que vem ocorrendo.

Para sentir a intensidade das mudanças basta pensar na diversidade de gênero de 30 anos para cá. O que era desconhecido e hoje já é cotidiano para muitos de nós.

Nesse contexto até os mais progressistas entre nós começam a procurar coisas que reduzam o ritmo das mudanças e as respostas no paradigma anterior caminho pelo totalitarismo e autoritarismo que, repentinamente, parecem mais simpáticos.

O medo das mudanças no entanto não muda o fato de que a diversidade cultural garante vantagem competitiva para as sociedades que souberem abraçar as mudanças além da própria estrutura econômica moderna cada vez mais globalizada tornar a dissolução de fronteiras praticamente inevitável.

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