Imagem: Cazé Arte

Por que estranha? Porque não a entendo? Porque não tem explicação?

Não. Estranha porque devemos manter um olhar de estranheza sobre ela e… bem, porque todos temos pessoas próximas agindo e pensando estranhamente por causa ou em torno da política como falei no post O Meteoro e as Eleições no Brasil em 2018.

Por mais que nos cause perplexidade o que está acontecendo tem uma história e agora vou falar tanto dessa história quanto dos meus erros.

É um tanto irônico que alguém que alerta desde 2005 para o crescimento de um pensamento de matriz fascista no Brasil tenha subestimado o que está acontecendo esse ano.

Não me defenderei, o objetivo aqui é procurar traçar uma gênese e citarei onde acho que estavam meus erros apenas para esclarecer melhor as cadeias de pensamento que nos trouxeram aqui.

Digo cadeias de pensamento porque considero que eles (sistemas meméticos e memes) são o que define as consequências de um fato, de um acontecimento.

Por exemplo, considero que as grandes manifestações de 2013 foram acontecimentos espontâneos populares de caráter democrático, mas plantaram as sementes para uma mobilização anti-democrática.

O mesmo ocorreu com o #EleNão que foi espontâneo, humanista e democrático, mas aumentou o número de pessoas atraídas justamente pelo pensamento, pelo sistema memético oposto.

Vale aqui um colchetes…

[Falando estritamente não seriam dois polos, dois vieses políticos ou morais se opondo, está mais duas formas de lidar com a descrença na organização social atual e o medo. A atração não é tão ideológica quando emocional]

Tô me citando “a mim mesmo” 🙂

O que estamos testemunhando, então, não é a disputa entre partidos, grupos políticos ou econômicos, mas uma busca por um novo sistema de pensamento social e político. Algo que inevitavelmente aconteceria visto que estamos em uma das maiores transições de paradigma da nossa história, comparável ao desenvolvimento do agricultura, ou até mais importante que isso.

Podemos buscar os primeiros sinais dessa mudança de paradigma no occupy de 2011, nos Indignados na Espanha no final da década de 90 no século passado, mas a verdade é que a transformação de cultura, de sistemas de pensamento é um processo em constante desenvolvimento e poderíamos achar “afloramentos” do que vemos hoje voltando séculos.

O mesmo acontece com o fantasma do Fascismo.

Muito embora nós venhamos chamando o que está acontecendo de crescimento do pensamento fascista provavelmente é mais correto reservar essa palavra para o que aconteceu até metade do século passado e buscar um novo nome como “nacionalismo democrático liberal”:

“O que há de novo, em todo o mundo, é um novo poder de direita nacionalista e xenófobo. É o que Orbán (Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, um dos expoentes desse movimento na Europa) classificou de política nacionalista democrática iliberal.”

Emilio Gentile é um dos maiores especialistas em fascismo – BBC News Brasil

Por outro lado, no mesmo artigo outro pensador importante, Domenico de Masi, observa que o discurso de Bolsonaro é de inspiração fascista.

O que ocorre, na minha opinião é…

Em primeiro lugar todo sistema de pensamento tem origens e o “nacionalismo democrático liberal” em suas várias manifestações herda suas bases do fascismo.

Em segundo, e último, lugar há algo mais profundo que produz esses sistemas de pensamento, uma forma natural de resposta dos humanos a períodos de intensa transição de paradigma. Ao medo da falta de chão enquanto as instituições anteriores se desfazem e outras ainda não assumiram seus lugares. E por instituição não me refiro apenas a estruturas políticas, econômicas ou mesmo sociais, me refiro, no quadro atual, às próprias “instituições” íntimas de orientação de gênero e posicionamento maniqueísta em algum ponto dos espectros sociais.

Então o que isso significa na prática?

Até aqui procurei fundamentar os processos do pensamento sobre os quais nossa espécie constrói identidade e estruturas sociais, culturais e as ferramentas que tornam essas estruturas possíveis (como economia, política e religião).

Na prática o que estou dizendo é que não estamos diante de nenhuma conspiração capitalista, comunista, nazi-fascista ou qualquer “ista” que seja, muito embora, claro, formem-se grupos para procurar favorecer seus interesses ou simplesmente suas ideologias (sistemas de pensamento, se preferir).

O que estamos testemunhando é um processo histórico e inevitável de transformação conforme vamos amadurecendo como espécie.

Ultimamente tenho comparado à adolescência e realmente a humanidade está bem parecida com um adolescente. Faça suas comparações.

Se você é adolescente não se ofenda! Estou falando que esse é um período em que estamos nos distanciando da identidade que formamos ao lado das pessoas que nos criaram desde criança e buscando uma identidade composta por outras influências e que é um período também marcado por variações de humor e de hormônios, não necessariamente nessa ordem (adoro vcs adolescentes! A história da humanidade é uma permantente adolescência).

A humanidade não é conduzida por uma supra-consciência que entende e define nossos rumos, ela é um tipo de mente coletiva, parecida com as mobilizações do Occupy e de 2013, que vai se transformando meio caoticamente conforme vão se formando sensos comuns.

A maior força de organização dessa mente coletiva, dentro da minha abordagem memética, é o ambiente mais propício para a evolução de ideias.

Totalitarismos, autocracias, teocracias são venenosos para a diversidade de ideias que é essencial para a evolução delas e por isso a humanidade sempre conseguiu diluir esses sistemas caminhando para o gradual empoderamento de cada indivíduo (aliás a origem da palavra indivíduo é interessante, googla aí!).

O que temos na prática, então, é a proximidade do ponto de mutação nas estruturas políticas nos levando a atual fragilidade que nos torna suscetíveis a promessas de ordem, de austeridade, que nos livrem da insegurança de um tecido social em intensa transformação que, do nosso ponto de vista, é um tecido social em intensa deteriorização.

Fica pior ainda quando não é apenas o tecido social, mas o  próprio “tecido” da nossa mente em uma era fluida e sem estereótipos, mas esse assunto dá outros posts… Digamos apenas que nos sentimos internamente partidos também.

“Roney, você está fugindo do que importa: a Terra se ferrou?”

Serei direto em respeito à capacidade das pessoas de lidar com as próprias emoções.

A curto e médio prazo não vejo como não “nos ferrarmos” no sentido de minorias e grupos discriminados serem alvo de violência.

Essas minorias e estereótipos discriminados são as que representam transformação e diversidade. O mundo está em transformação, essa transformação parece perigosa e nos assusta, quem representa transformação deve ser o culpado. Esse é o pensamento (não chamarei de raciocínio).

Até pouco tempo achei que dois anos do Brasil mergulhando no pensamento obsoleto do paradigma anterior ou do governo Trump e de outros políticos similares, seriam o bastante para percebermos coletivamente que abraçar a transformação é o melhor caminho.

Errei já em uma premissa básica: estamos retornando ao velho paradigma por medo e por ódio, entretanto o remédio para isso é a razão e a empatia, que só acontecem quando o medo e o ódio se aliviam.

Começo a crer que boa parte do planeta pode passar por uma década ou mais nesse caminho.

Além disso subestimei a capacidade das estruturas antigas (capitalistas materiais) e superestimei a das novas (capitalistas digitais).

Ainda estou pensando nos detalhes sobre isso, mas é possível que o novo capitalismo ainda não tenha a coordenação conquistada pelo velho em séculos de desenvolvimento e/ou tenha a tendência de investir seus esforços em sociedades que já estão mais adiante na transição para o capitalismo cognitivo e digital.

O problema é que uma década ou duas é muito tempo por causa de uma pressão externa: a mudança climática.

Aqui vou fugir do assunto e deixar uma última reflexão.

Um minuto para meia noite…

Na guerra fria criou-se essa metáfora, um relógio que marcaria a proximidade e possibilidade da aniquilação nuclear da vida no planeta. Quando ele marcasse meia noite estariam reunidos os fatores que nos levariam a uma guerra ou catástrofe nuclear definitiva.

O último relatório do IPCC (órgão internacional que estuda o clima) afirma que temos 12 anos para impedir que o acquecimento global chegue a 2º no fim do século.

Se ultrapassar 1,5º calcula-se que a mudança climática sairá de controle.

O que estamos vivendo hoje, a formação de uma ideologia contra a diversidade que levará, no mínimo, a grandes transtornos para negros, mulheres, LGBTI+, religiões etc e no máximo a violências muito piores do que as que já estamos vendo no Brasil é terrível, muito terrível.

Além disso essa violência e mergulho na ignorância e no preconceito nos atrasa na tomada de medidas vitais para deter o aquecimento global pois o mesmo sistema de pensamento que persegue a diversidade humana, nega as transformações e com elas a mudança climática.

Com isso, já vemos nos EUA e a promessa no Brasil é a mesma, elegem-se governos que declaram abertamente que abandonarão as medidas necessárias para reduzir nossos danos ao meio ambiente.

Nem mesmo reduzir os danos… Quando já deveríamos estar empenhados em revertê-los.

Apenas para não terminar com uma mensagem de desespero, ao menos até onde tenho percebido as pesquisas científicas e tecnológicas necessárias para deter e reverter nossos danos ambientais parecem estar sendo desenvolvidas em velocidade suficiente.

Resta-nos tentar impedir os governos mais irresponsáveis de executar seus planos de desmatamento e de poluição descontrolada.

Share This

Compartilhe!

Mande para suas redes sociais