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O que será do Brasil agora?

Em meio à dita polarização o que eu vejo é uma unidade: uns temem pela implantação de uma ditadura comunista e outros um fascismo de direita.

O medo e a dissonância cognitiva são essencialmente os mesmos.

Mas, alto lá! Se vou seguir por esse caminho num momento em que amizades e até laços familiares se enfraquecem no contronto entre esses dois grupos preciso deixar claro onde quero ir e o que pretendo com esse post.

Estamos com medo. Estamos todos com medo, incluindo eu, e o que eu quero com esse artigo é buscar um caminho para nos desvencilharmos do medo e fazer uma análise coerente, racional e o mais próxima possível da realidade.

Por exemplo, seu pai ou mãe que vota no candidato que você considera ditador (e você pode se ver nessa situação independente do cantidado que pretende tentar impedir de se eleger) é uma pessoa má? Uma comunista? Uma fascista?

Você pode pensar que não é assim, que é indiscutível que o candidato comunista é ditador ou que o candidato conservador é fascista. Sim. Dependendo do seu viés o óbvio será isso ou aquilo.

Esse viés não é uma fator genético ao qual você está preso ou presa, é um fator cultural e, principalmente, depende de como você tem se alimentado de informações e emoções.

Sei que até aqui parece que estou dizendo que não faz qualquer diferença entre o comunismo e a direita, no entanto sequer vejo essa dicotomia na humanidade contemporânea, vejo sim um cabo de guerra entre audaciosos que desejam mudança e precavidos que temem o caos. Continue acompanhando o texto antes de julgar pois, até o final realmente serei obrigado a colocar que um está mais certo que o outro, no entanto precisamos seguir um caminho para chegar até lá.

Além do nosso viés poder mudar mudar ao longo do tempo também somos capazes de abrigar vieses contaditórios.

Podemos adorar a cultura pop que está repleta de diversidade e empoderamento das minorias e maiorias discriminadas, mas rejeitar violentamente um determinado estereótipo discriminado. Também podemos achar lindo o discurso de Gandhi e interpelar violentamente quem vemos como opositores, como ameaças. Podemos achar ridícula a teoria da conspiração dos outros e não perceber a nossa própria.

Estamos sendo manipulados pelo medo…

Percebam, todos queremos a mesma coisa: um país com menos violência, menos bagunça, menos enganação dos governantes e da mídia contra nós, pessoas do povo.

Essa manipulação, no entanto, não é feita por um grupo, e aqui lamento ter que jogar em vocês um papo memético, uma coisa meio Guy Debord: somos manipulados pelo velho paradigma, por uma mente coletiva inconsciente formada por todos nós… Estranho, eu sei, disse que lamentava… Vou dar um exemplo.

Teve o experimento de aprisionamento de Stanford que colocou universitários para viver os papéis de presidiários e de carcereiros e acabou virando um tipo de Batalha Real ou Senhor das Moscas.

O que acontece é que, mesmo que tenhamos mais audácia e desejo de mudar, ainda temos alguma precaução em nós, assim como, mesmo que sejamos mais pela precaução, temos desejo de mudança. Percebe que os vieses convivem em nós, apenas variando na escala?

Quando vem uma grande ameaça de transformação ou de manutenção de um sistema que está ruim nos sentimos e reagimos mais ou menos da mesma forma.

“Ah! Mas os que defendem o __________ são muito mais agressivos que nós!”

Infelizmente tenho que lhes dar essa notícia, por mais incrível que lhe pareça as pessoas que estão no outro lado do seu expectro realmente te acham tão agressiva quanto você as acha.

Mas… Chegou a hora de dizer que tem um lado do expectro que está “errado”, entretanto por errado não quero dizer que são demônios encarnados, mas apenas que estão em desvantagem argumentativa e isso os leva a realmente produzir argumentos um pouco piores que os do outro lado do expectro (um pouco porque humanos e humanas assustados são muito bons em desenvolver linhas de pensamento bem absurdas!)

Vivemos uma transição de paradigma. Todo mundo sabe disso, mas quase todo mundo parece subestimar o significado disso e, menos ainda, mensurar a extensão dela.

Vou jogar logo a mudança mais disruptiva: viés fluido.

Tem também uma democracia mais direta e menos representativa, trocar tolerar as diversidades por percebê-las como uma riqueza da humanidade, igualdade de gêneros e raças e muitos etecéteras.

Mas o viés fluido é mais impactante pois nos acena para uma sociedade sem estereótipos em que já não é mais possível entender uma pessoa, grupo, sociedade ou cultura por suas características superficiais. Só para pegar leve nos exemplos já que acho que vim pegando meio pesado até aqui, vamos lembrar que uma menininha bonitinha e líder de torcida pode ser a guerreira escolhida caça vampiros.

Pego esse exemplo justamente para mostrar que a quebra de estereótipos não é nova (e esse nem é um dos exemplos mais antigos) e que é inevitável.

E o que isso tem a ver com a política e com o meteoro que não chega?

Bem, o meteoro é porque, por mais que lhe pareça que o mundo vai acabar porque um ditador foi eleito aqui ou em outro país e peça para chegar logo o meteoro isso não vai acontecer, o mundo não vai acabar… Bem, se vier o meteoro vai complicar bastante… Já passamos por pior que isso e o desejo que a humanidade acabe porque é perversa é justamente o tipo de dissociação cognitiva que nos une a todos, que nos leva a ver apenas o mal no outro e nos cega para o fato de que eles são exatamente como nós.

Aliás comecei a pensar nas linhas gerais desse post vendo essa fala do TED que traz nossa atenção de volta para a humanidade como uma única tribo viajando em uma pequena nave espacial. Vale a pena assistir.

A sociedade fluida e a quebra dos estereótipos estão aqui porque estamos nos estereotipando e isso leva ao erro, nos leva a não entender a outra pessoa.

Vejo cada vez mais gente dizendo que “a essa altura não tem mais desculpa para não ver que o candidato dela é horrível”. É a mesma coisa que a pessoa está pensando de volta, com sinceridade.

Sim, os candidatos “cuidadosos” terão grandes dificuldades de encontrar argumentos no meio de uma das maiores transições de paradigma que nossa espécie já viveu. Além disso… Melhor abrir outro parágrafo.

O pesamento “cuidadoso” está em crise faz muito tempo, afinal como conservar um sistema baseado em crenças que estão sendo negadas pelos fatos e pela reestruturação da sociedade? O conservadorismo e a direita acabaram reunindo em torno de si o viés cuidadoso, mas mergulhando em fundamentalismos religiosos que violam a liberdade religiosa, a negação da realidade (como a mudança climática) e se agarrando a estereótipos obsoletos.

Esse é um grande problema pois precisamos nos equilibrar as transformações para que não ocorram rápido demais e a falta de bases para sustentar o “cuidado” nos coloca em uma situação de desintegração da união social. Nos tornamos vítimas fáceis de políticos e corporações gananciosas.

Enfim… Continuo afirmando que não vejo o risco de interrupção da democracia no Brasil ou mesmo na maioria dos outros países na Terra, muito embora a eleição de candidatos conservadores seja um problema, um atrazo que pode se multiplicar por mais de uma década mesmo que dure apenas um mandato pois alimentamos a polarização entre nós e a cura disso é demorada.

Enfim (2)… Talvez esse seja o processo natural de amadurecimento das sociedades. Pode ser que rejeitemos o radicalismo a que os “cuidadosos” se viram levados a adotar nas eleições, pode ser que o abracemos. Seja como for teremos que amadurecer muito, desenvolver mais empatia, entender melhor as pessoas próximas por mais que elas pareçam ser o nosso oposto.

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