Há duas semanas comecei a refletir com os apoiadores do Ecossistema Meme de Carbono sobre as possibilidades de crescimento de uma cultura de consumo menos predatório. Na época o que me fez retomar o assunto foi o artigo A geração que encontrou o sucesso no pedido de demissão, da Ruth Manus.

Existem aí várias reflexões sobre a apologia à simplicidade para aquela mínima parcela da civilização que dispõe de recursos para isso, e quando falo em recursos não me refiro a econômicos, mas a condições culturais e de conexão que abrem a possibilidade de ser livre.

Elementos da nova cultura

No artigo ela fala de pessoas que deixam empregos “nobres” e muito bem pagos para se dedicar a atividades humildes que pagam apenas o suficiente.

Todavia vou extrapolar o universo que ela traçou.

Vivemos uma era de migrações, fenômeno que pode ser detectado também na procura mundial por livros como Essa Terra, de Antônio Torres, escrito na década de 70 no século passado, que envolve os movimentos migratórios no Brasil, mas tem encontrado muita procura ao redor do planeta.

Também vivemos uma diáspora para o continente cibernético. Se antes, para ter uma vida plena devíamos ter um emprego, família e boas roupas ou bom carro, hoje temos que estar conectados online e somos, aliás, provocados a ter opiniões sobre o planeta, a civilização e tudo mais… É… Megatrends 2000 estava bem certo sobre o pensar localmente e agir globalmente assim como no posterior pensar globalmente e agir localmente.

Quem vê esses movimentos mais cedo (ou tem sorte) tem chances de se preparar para as mudanças causadas pela transição de paradigmas. O difícil é identificar as visões “proféticas” 20 ou 30 anos antes delas se concretizarem.

Ah! Temos mais um elemento: o consumo de informação e cultura que não se limita mais à leitura e ao devaneio. Temos a necessidade de vivenciar pessoalmente como mostra o intenso crescimento do turismo no planeta (artigo aleatório em site de Portugal).

Por que isso está acontecendo?

Claro que tenho uma visão memética para o fenômeno e posso usá-la para estabelecer a hipótese de que essa cultura está bem qualificada para prevalecer (mas há obstáculos que deixarei para o final).

Seria uma tolice dizer que “o planeta não suporta mais um capitalismo baseado em consumo de recursos fósseis e de coisas e será viável apenas se adotarmos o consumo de dados, de cultura, de memes”.

Não é assim que funciona. Infelizmente a evolução pode facilmente causar o colapso do sistema. Coisa aliás que pode acontecer conosco como alguns supõe e comentei nesse outro post sobre o próximo apocalipse em 2020.

O que ocorre, em minha humilde suposição, é que nosso cérebro precisa ser alimentado com informação (vídeo do Vsauce sobre privação de estímulos). Quanto mais informação temos disponível, mais informação ele precisa para se satisfazer.

Assim como viciamos em açúcares e gordura por questões evolutivas, nos viciamos em estímulos.

Todavia o consumo de estímulos materiais é muito mais limitado do que o de informação. É difícil comprar e assistir cem DVDs, mas é muito fácil ver 100 filmes ou séries no Netflix (ao menos pedaços de filmes e séries que vamos deixando pela metade). Também é muito mais fácil ter uma assinatura de um Spotfy e saber que há um fluxo virtualmente infinito de estímulos à nossa disposição, agora, por exemplo, me deu vontade de ouvir a trilha de Stranger Things enquanto escrevo e só preciso de alguns segundos para localizá-la lá. Já volto… voltei…

O que estou dizendo é que, por necessidade crescente de estímulos, devemos nos direcionar cada vez mais para estruturas de vida minimalistas que nos ofereçam liberdade, inclusive migratória.

Há um outro fator que é tema para outro post, mas deve ser adiantado aqui: com o colapso do conceito de fronteiras geográficas (assunto um para post futuro) o movimento migratório por fuga, empreendedorismo, jornada pessoal ou projeto humanitário (assunto para um segundo post futuro) será cada vez mais frequente.

Obstáculos…

Que linda e utópica essa visão que apresentei, não acha? Sou mesmo um otimista!

Só que não 😉

O sonho impossível das pessoas comuns já foi o de ser atleta, artista ou empreendedor(a) de sucesso.

Podemos até dizer que vagar pelo mundo online e até offline é muito mais acessível que os anteriores que, por definição, só podem estar ao alcance de uma minoria ínfima.

Mas enquanto estamos mergulhados em sistemas de ensino simplesmente ridículos (vale para o mundo todo, afinal em toda parte vemos um padrão massivo de negação da realidade com “pós-verdades”, falácias e “fatos alternativos”), barreiras culturais ainda mantidas pela intolerância (merecem estudo para verificar se estão diminuindo) e, principalmente, o esmagamento econômico e psicológico da enorme maioria da nossa população.

Sobre esse último ainda tenho motivos para crer que, graças à crescente conexão das camadas mais improváveis, pode mudar rapidamente.

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