Imagem: Representação artística da colisão que produziu a Lua e mudou totalmente nosso sistema permitindo o surgimento da vida mais tarde – Softpedia

O papel do Meme de Carbono é olhar abaixo da superfície dos eventos históricos em busca das fontes culturais e sociais que geram esses eventos.

O artigo Donald Trump Losing by a Landslide Would Heal the Nation de Cody Cain na Time desenha uma história da tática política do partido republicando que nos é bem familiar: em vez do enfrentamento ideológico usam de articulação política para criar ou intensificar crises que atingem a população a fim de deteriorar a imagem do governo vigente.

Quem vem acompanhando atentamente os últimos anos no Brasil percebe um mecanismo muito parecido, piorado pelo fato de que ainda sobrevivem em nossas instituições ramos do poder (ou poderes) estabelecido durante as décadas de ditatura. Sobre esse último ponto sugiro dar uma lida em Númeroo Zero, de Umberto Eco (link para minha resenha).

Se não analisamos as fontes dessas estratégias corremos o risco de considerar que a falha é da “maldade” dos republicanos, das pessoas de direita, mas essa é uma suposição quase com certeza errada. Basta observar que vemos com frequência alianças das “pessoas de direita” e “pessoas de esquerda”.

O mesmo artigo na Time fala na desestruturação do sistema político à partir dessas táticas de sabotagem do país e demonização do adversário (usando preconceitos e estereótipos) e esse é um bom ponto para começar a entender o fenômeno.

Talvez antes seja bom falar rapidamente sobre a semelhança do que acontece nos EUA e no Brasil.

Duvido que se trate de um mesmo grupo liderando uma grande conspiração global ainda que certamente exista uma dose de observação entre grupos. Me parece muito mais provável um mecanismo parecido com o do fenômeno Occupy: as ideias circulam muito mais livres e velozes conforme a civilização se torna cada vez mais conectada produzindo insights semelhantes em culturas mais ou menos diferentes.

Vamos então à anatomia do jogo político que estamos assistindo lá e cá.

  1. A população cada vez mais conectada e informada à despeito de eventuais falhas dos sistemas educacionais se torna cada vez mais insatisfeita com a estrutura de poder. Soma-se a isso a crescente possibilidade de qualquer um poder ser produtor de conteúdo. Surgem heróis da produção de conteúdo e liberdade de expressão (nem que essa liberdade seja usada para falar palavrão);
  2. Surgem cada vez mais protestos espontâneos pedindo por mudanças na estrutura de poder (do político ao econômico passando pela mídia) que não são adequadamente ouvidos ou atendidos pelas classes políticas e outros setores do poder;
  3. Humanos tem a tendência a se agrupar politicamente em duas polaridades: conservadores e progressistas sendo que os primeiros atualmente se encaixam nos estereótipos de direita e os segundos de esquerda. Os grupos políticos supostamente progressistas (lembre-se que humanos se agrupam por esses dois vieses, mas o sistema é conservador por definição, mesmo para os partidos cuja propaganda é progressista) falham em atender as expectativas da população aumentando a descrença no sistema. A população progressista abandona as urnas;
  4. Com o afastamento dos progressistas das urnas a propaganda política conservadora parece ter sucesso em diversas eleições no planeta criando uma ilusão de força da “direita” e pessoas (políticos) alinhados ao viés que acolhe os esterótipos da direita obtém ânimo e eco no vácuo da parcela progressista que ocupa as ruas físicas e virtuais, mas não sente confiança para ceder poder a políticos de “esquerda” ou porque não confiam neles ou por achar que simplesmente não há caminho no sistema atual para o poder do povo, pelo povo, para o povo;
  5. “Esquerda” e “Direita” são guarda-chuvas que reúnem diversos estereótipos associados a ideologias progressistas ou conservadoras respectivamente, mas essa separação é artificial e o próprio conceito do uso do estereótipo como ferramenta para classificar o mundo está em cheque: a possibilidade do discurso lógico se esvazia. “Direita” e “Esquerda” se reduzem à discussão de estereótipos que não são intrinsecamente nem a esse nem a aquele viés (a esquerda pode ser homofóbica e a direita pode ser ateísta);
  6. O embate ideológico se reduz ao fogo cruzado de falácias, preconceitos e táticas de desestabilização política e econômica para derrubar o inimigo.

É vital lembrar que “amigo” e “inimigo” aqui são dois grupos políticos repletos de interseções entre si e quase nenhuma (aliás, em termos práticos, nenhuma) com o grupo “sociedade”.

Trata-se talvez do ponto máximo da Sociedade do Espetáculo de Guy Debord esteja sendo alcançado e estamos vendo o esgotamento do modelo, mas isso gera grandes desafios.

A voz pública precisa ser ouvida e a sociedade civil desenvolverá cada vez mais formas de se fazer escutar driblando a violência do Estado nas ruas e as restrições à liberdade de expressão online (que ainda estão por vir com certeza).

Cabe às pessoas que ocupam cargos políticos e grupos que elas formam descobrir caminhos para transitar pelo sistema vigente ao mesmo tempo que mostra para a sociedade que está trabalhando na transformação desse sistema, em um momento inicial pode até precisar apelar para um marketing que sugira uma guinada radical no sistema, que espero que não aconteça. Transições suaves sempre são melhores.

O problema estará na resistência e resiliência dos que se beneficiam com a antiga estrutura de poder.

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