Imagem (veja completa no fim do artigo): Instituto Federal de Santa Catarina

Quando compartilhei a imagem no final do artigo sobre diversidade de gênero (tem uns erros como andrógEno em vez de andrógIno. Em 2019 substituí por uma mais precisa) que procura ajudar a entender o que é identidade de gênero, expressão afetiva/sexual, expressão de gênero e sexo biológico alguém replicou com uma notícia “bombástica”: a ideologia de gênero devia ser repensada porque, em 2011 um comediante norueguês teria desmoralizado o NIKK, centro de pesquisas de gênero ligado a vários países nórdicos, expondo sua falta de qualidade científica.

É claro que o termo “ideologia de gênero” imediatamente me causou grande estranhamento. Nunca tinha lido qualquer estudo sobre isso e tive que pesquisar.

O ponto mais importante, claro, é desmontar o argumento falacioso, mas nesse blog faz mais sentido falar sobre o processo de identificação de uma falácia do que discutir o objeto dela, ou seja, não vou defender a diversidade de gênero nesse post, ok? Espero encontrar tempo na agenda para fazer um artigo irmão no Galeria de Espelhos (meu blog pessoal).

Por que o termo “ideologia de gênero” disparou um alarme para mim? Não foi apenas porque não lembro de ter lido nenhum artigo científico sobre isso, foi por:

  1. Não faz sentido atrelar ideologia a características como etnia, sexo ou ser destro. Imagine “ideologia de canhotos”
  2. É quase imediato pensar em “ideologia branca” ou “ideologia ariana”
  3. O post falava nas formas como sexo, gênero e sexualidade se manifestam, como uma discussão sobre ideologia se inseriria em outra sobre identidade? Parece muito com a falácia da ladeira escorregadia: se admitirmos a diversidade de gêneros admitiremos também uma ideologia de gêneros (seja lá o que for isso).

Pesquisando descobri que o termo ideologia de gênero aparentemente só existe entre os seus críticos. É como os moinhos de vento de Dom Quixote: cuidado com o monstro que nós inventamos.

Mas isso também é sinal de outra falácia, que o pessoal de marketing chama de FUD. Cria-se uma falsa afirmação do seu opositor para desbancá-la. Fica mais fácil de usarmos como exemplo a afirmação de que a evolução não existe e a teoria da evolução está errada porque os cientistas que defendem essas coisas afirmam que a vida veio do nada e que a evolução é fruto do acaso (por favor, você sabe que nenhuma ciência afirma essas coisas, certo?).

Como a falácia se instala entre pessoas que realmente gostariam de ter uma visão mais precisa da realidade? Bem, pelo menos prefiro assumir que os meus contatos que ecoaram e concordaram com a tal guerra imaginária contra a ideologia de gênero não estavam sendo intelectualmente desonestos.

Primeiro, claro, uma ou mais pessoas intelectualmente desonestas, talvez com elas mesmas, inventam os monstros a ser combatidos. Talvez até por não ter entendido corretamente o que o outro disse. É muito fácil distorcer totalmente o que ouvimos e lemos desde que estejamos sob jugo de uma forte emoção positiva ou negativa.

Em miúdos: um artigo diz que a nossa identidade e expressão de gênero não são plenamente definidas por nosso sexo biológico e que são definidas por um conjunto de influências culturais, epigenéticas etc. Esse artigo chega a revistas não científicas com a manchete “Você escolhe seu sexo dependendo do meio onde vive”. Pronto. Está criado o monstro assim que alguém que teme uma definição de gênero mais flexível se deparar com essa manchete. Depois disso, se ela ler o artigo, pode facilmente desprezar tudo que enfraqueça o monstro que viu no primeiro momento.

Em uma segunda etapa outras pessoas, que sentem desconforto ou não concordam previamente com definições de gênero e sexualidade mais moldáveis abraçam satisfeitas os moinhos de vento monstruosos que nem mesmo estão lá nesse caso.

Até aqui falei do que pensei antes de pesquisar, mas eu estaria mergulhando no erro também se assumisse tudo sobre a tal ideologia de gênero apenas com base no que ela parece ser.

É claro que pesquisei o termo, recorri a amigos que se mantém atentos a estudos sobre sexualidade e gênero para entender o que é e de onde veio a ideologia de gênero.

Nesse caso, até onde conseguimos pesquisar, a impressão inicial estava correta.

O que é?

Ideologia de Gênero seria a ideia de que orientação, expressão e identidade sexual e de gênero são definidas unicamente por nossa cultura e opção. Além disso pregaria que não existem “coisas de mulher”  e “coisas de homem”.

As pessoas que criaram a Ideologia de Gênero são as que discordam dela e passam a atacar a própria teoria (atribuída aos seus opositores) para defender que cozinhar, cortar cabelo, arrumar a casa são atividades naturalmente femininas e engenharia, ciência, medicina são atividades masculinas.

Poderíamos dizer ironicamente que a vida dos homens era muito sedentária até uns 5 mil anos, mas notei que muitas dessas pessoas também acham que o Universo inteiro só existe há 5 ou 6 mil anos (e esse é um exemplo irônico de falácia ad hominen, ou seja, estou desmoralizando os defensores de uma ideia para prejudicar a ideia. Não façam isso jamais!)

A versão mais popular

Quase todos os artigos que achamos sobre Ideologia de Gênero falavam do colapso do NIKK depois que o comediante Harald Eia fez uma série de documentários.

Bem, o instituto continua existindo e a página sobre ele na Wikipedia nega que ele tenha sofrido mudanças por causa dos documentários (a reestruturação já estaria planejada há anos).

Ao ler os artigos a impressão que temos é que um leigo fez uma série de documentários ruins sobre um instituto ruim e que grupos ansiosos para se colocar contra o objeto de estudo do instituto se aproveitaram da “brecha”.

Navegando pelo instituto em si não achei nenhum sinal da chamada ideologia de gênero. Não tive tempo de assistir os documentários, mas é razoável supor que podem até ser bons e que, simplesmente, oportunistas distorceram a história toda para construir seu FUD.

Por que isso é importante?

Acho que é meio óbvio, né? Nós não gostamos de ser enganados, não devemos gostar também de mentir para nós mesmos, mas me parece que podemos tirar umas ideias mais úteis disso.

A todo momento há grupos de interesse se valendo de recursos desonestos para confundir a nossa razão.

Eles podem estar querendo nos vender sua religião, uma comida que não alimenta, um líquido que não hidrata, sua posição política, seus preconceitos.

E você, o que quer? Ficar à mercê desses ventos ou avaliar conscientemente a realidade?

Para isso temos que aprender a reconhecer falácias e pensamentos retóricos desonestos.

Nesse caso específico é mais sério. Se alguém duvida da evolução pouca coisa ruim pode acontecer, mas se alguém nega aos outros o direito à sua própria identidade então temos o quadro de uma grande perversidade que muitas pessoas não tem como enfrentar e acabam recorrendo até ao extremo do suicídio.

A maioria de nós quer ser agir pelo bem geral e não pelo sofrimento dos outros.

Aqui a imagem completa que ilustra o cabeçalho:

Leituras recomendadas:

Atualizando em 2019: troquei a imagem abaixo que continha erros pela atual imagem de cabeçalho.

Na imagem usa-se hermafrodita no lugar de intersexual, termo mais aceito atualmente.
Fonte: página do Centro Universitário da Universidade de BH no Facebook
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