imagem: eu hoje, depois de correr meia hora

Daqui a pouco explico a imagem. Ela tem a ver com “de onde veio a ideia para esse post”

Então, essa semana organizaram um panelaço enquanto o Eduardo Cunha falava.

O protesto por panelaço é… bem, todo protesto é válido e um direito inalienável, mas… Na minha opinião panelaço é uma tolice que incomoda mais as pessoas que querem ler, ouvir música, assistir uma série ou simplesmente dormir mais cedo do que o alvo do protesto.

Estava pensando nisso enquanto corria hoje, porque, desde que nós humanos paramos de ter que caçar a comida, passamos a ter que correr atrás de nada para tentar ter um pouco de saúde. Só que correr é muito, muito chato (pelo menos para mim) e a saída é ficar pensando. Pronto, está explicada a foto que ilustra o post. Juro que não farei mais isso com vocês 😉

Pois eu estava pensando no funcionamento memético do panelaço.

Ele tem a vantagem de fazer poucos parecerem muitos e, se você se sente uma peça isolada no grande quadro da humanidade (lamento, mas essa é a realidade), dez vizinhos fazendo panelaço na sua vizinhança te dão a sensação (totalmente ilusória) de que você faz parte de uma legião.

Isso pode ser bom para a auto-estima, mas alimentar qualquer coisa com ilusão quase sempre acaba tendo efeito contrário.

Quando aquela meia dúzia de paneleiros descobre que seus esforços reais no dia a dia são inócuos a ilusão de poder se desfaz e a desesperança se instala.

Pior do que isso. A ilusão de poder chega também aos “adversários”. Por exemplo, se uma centena de pessoas batem panela contra a democracia podem dar a impressão para os que são a favor do sistema democrático que centenas de milhares de pessoas estão se organizando e isso pode causar uma reação contrária imediata.

Quando o grupo de paneleiros é muito menor do que o grupo de opositores o resultado é desastroso para o primeiro grupo.

A mesma coisa acontece com as gangues online.

Recentemente tivemos dois bons exemplos. O primeiro foi um ataque aparentemente coordenado contra a propaganda de dia dos namorados do Boticário, essa aqui:

Homofóbicos atacaram o vídeo com “deslikes” chamando a atenção do grupo muito maior a favor dos direitos individuais que reverteram a situação chegando hoje (um mês depois do lançamento do vídeo) a 200 mil “likes” acima dos “deslikes”. Além disso o vídeo atingiu 3,5 milhões de visualizações quando normalmente raramente chegam a 200 mil. O segundo vídeo mais assistido do canal é seis meses mais antigo e tem metade das visualizações.

Um outro exemplo foi o ataque, também aparentemente coordenado, a Maria Júlia, jornalista da Globo, feito por cerca de 50 pessoas que despertaram a reação de milhares de pessoas e ainda levaram um dos maiores jornais do país a rotulá-los de criminosos racistas.

Esse dispositivo memético é fascinante e pode nos oferecer uma hipótese para o mecanismo através do qual ideias obsoletas, mas apoiadas por fortes emoções e até impulsos religiosos (as duas coisas tem a capacidade de limitar nossa capacidade de julgamento) acabam sendo suplantadas ao longo da hitória:

O mecanismo da morte de um meme obsoleto

  1. Conforme os meios de comunicação se desenvolvem, atendendo a necessidade natural humana de se sentir ouvido, ideias que favorecem poucos e desfavorecem muitos vão se enfraquecendo
  2. Depois que a ideia perde um percentual crítico (vou sugerir algo em torno de 18%) do apoio geral fica claro para o grupo minoritário que ela está perdendo espaço
  3. A reação natural (e irrefletida) é procurar fazer o máximo barulho a favor da ideia em declínio
  4. O barulho produzido tem dois efeitos: estimula questionamentos lógicos (e menos influenciados pela emoção) e desperta a atenção da maioria prejudicada pela ideia em declínio para a existência de grupos organizados a favor dela
  5. Em pouco tempo a ideia em declínio passa a ser vista como uma ideia obsoleta ou até negativa e, pior, defendida por um grupo supostamente poderoso que precisa ser detido
  6. A sociedade ecoa as novas ideias que combatem e substituem a que agora está em franco processo de “cerco” e “congelamento”

Lembre-se que isso é uma hipótese para parte do fenômeno da transição entre paradigmas.

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