Imagem: FB Napoleônico (é uma regra geral)

Pensei muito no título desse post e decidi por um meramente descritivo, mas é necessário deixar claro que o meu viés, para efeitos práticos, é alinhado a uma abordagem humanista de esquerda que me leva a ser mais crítico com essas manifestações.

Para ser o mais imparcial possível vou contar com o método científico evitando falácias. Aliás é preocupante ver como até analistas tem se deixado levar por elas, sendo uma das mais comuns em casos de manifestações populares, a anedótica.

Por exemplo, se visse uma família saindo da manifestação de Uber ou algumas pessoas com cartazes lamentando que a Dilma não foi morta na ditadura eu teria que resistir à tentação (ditada pelo meu viés) de estender esses exemplos anedóticos ao grupo todo.

Vamos então ao que observei na orla de Copacabana hoje:

  • Tanta gente ou mais do que em 15 de março. Estou vendo relatos de que eram apenas 5 mil pessoas, mas duvido muito desse número. Seja como for não é um movimento em declínio.
  • Havia um fluxo constante de pessoas chegando e saindo, mas os ônibus estavam vazios. Também não vi movimento intenso no Metrô. Seria ótimo ter uma pesquisa sobre as regiões de onde os manifestantes vieram pois a impressão é de que a grande maioria era local da zona sul.
  • A quantidade de camisas e adesivos deixava a impressão de que houve um investimento considerável na mobilização ou que alguém estava faturando bastante vendendo essas coisas para os manifestantes
  • Os discursos predominantes nos caminhões de som marcavam um claro viés conservador com foco em militarização da polícia, referências a religião e intenso foco no PT
  • Adesivos e camisas também se concentravam no PT

O que observei confirma várias análises que temos visto desde o começo do ano que sugerem que essas mobilizações são bem horizontais restringindo-se às classes economicamente mais altas (o que não exclui, claro, uma presença de outras classes) e claramente partidárias ao atacarem apenas um partido por praticamente apenas um motivo, a corrupção (quando esse é um problema comum e não é o pior nem do PT, nem de outros partidos).

Uma curiosidade notada em outras manifestações: a grande quantidade de pessoas mais velhas e poucos jovens.

Vamos ao que eu acho

Já abordei o ponto mais crítico por alto em Panelaço e Gangues Online: Essas manifestações podem estar favorecendo o PT e desfavorecendo os partidos que se colocam à direita do espectro político.

Explicando.

Se a população em geral tem essa percepção de que o movimento é horizontal (e a baixa adesão de outras camadas da sociedade sugere que é o caso) e alinhado a uma política de governo que explora essa população então podemos ver uma reação contrária às causas defendidas.

A imagem que se forma é que estamos diante de duas opções:

  1. Eleger o PT que rouba (como os outros) e irrita a camada elitista
  2. Cair em uma ditadura de direita (militar ou não) que governa para empresas e ricos explorando as classes médias e trabalhadores

Não estou dizendo que essas são as opções reais (não vejo sustentabilidade para a segunda) ou que “as massas” estão pensando assim, ainda que as evidências me façam supor que sim. Só veremos realmente nas urnas, apesar de haver ainda muitos outros fatores que podem (e vão) interferir. Já chegarei a eles.

Mesmo que as manifestações de direita venham a enfraquecer a direita é claro que são um ótimo sinal.

Em primeiro lugar é uma fatia da sociedade que sempre se alienou (transporte público ruim? Compro carro. Saúde pública ruim? Pago plano) e agora se mobiliza, vai para as ruas e, ainda que não tenha se esforçado para construir reivindicações mais concretas do que “Não à corrupção” (aliás isso foi bem abordado pelo Alex de Castro em O Problema com o Movimento Anti-Corrupção em 2011) está no sentido certo.

Mobilização gera diálogo e diálogo alimenta o desenvolvimento das ideias. Assim vivem os Memes.

Tenho a impressão de que esse desenvolvimento está sendo muito lento. Talvez por uma característica da evolução que foi bem abordada na Scientific American de agosto/15 sobre a relação da hipersocialização da nossa espécie com o nosso sucesso: ideias que se mantém muito horizontais tem menos vantagem competitivas, assim como acontece com gens. Além disso o ambiente hostil favorece o desenvolvimento da hipersocialização. Poucos ambientes tem sido mais hostis para o humanismo do que a política ocidental nas últimas décadas.

Aliás esse ponto precisa de um post específico que está a caminho. Lamento por largá-lo aqui sem uma análise mais profunda.

Vamos para outra questão longe dessa.

“Mas eu não fui lá para nada disso”

Essa é outra falácia, na verdade ainda é a falácia anedótica. Não importa para que você foi lá, o resultado é que sua presença deu força para o argumento comum daquela conglomeração.

Qual era o argumento comum?

Por exemplo, se uma das demandas principais era o pedido de renúncia ou impeachment da Dilma, então um dos argumentos é a interrupção do regime democrático pois 5, 10 ou mesmo 500 mil pessoas em Copacabana num belo domingo de sol não é justificativa para interromper um governo eleito.

E o futuro?

Para que esse post tenha qualquer valor ele tem que sobreviver a um falseamento, ou seja, temos que fazer previsões a partir dele e ver se elas se concretizam.

A parte difícil disso é que há muitos fatores.

O meu impulso tem sido considerar que o PT conseguirá sua reeleição em virtude da imagem negativa que essas manifestações constroem para as alternativas ao PT.

No entanto já vimos que as campanhas eleitorais tem assumido um viés mais à esquerda para se aproximar do viés que parece a caminho de predominar nesse século (seja aqui ou em outros países).

Por outro lado o PT está longe de ser um partido de esquerda atualmente. Suas alianças e proximidade de agronegócios ou do projeto de Internet do Zuckberg são fortes evidências e a sociedade pode estar percebendo isso.

Então o que podemos esperar para o futuro se as análises desse post estiverem corretas é um retorno da popularidade do PT conforme fique cada vez mais claro que a corrupção é um denominador comum e falhe-se em provar o envolvimento do Lula e da Dilma nos esquemas.

Os partidos e políticos que assumirem um viés claramente à direita ou forem associados a essas manifestações pagarão um preço nas urnas das próximas eleições.

Isso significa que vermos um Senado e Câmara menos à direita? Duvido. O voto das urnas não é soberano na construção dessas casas e há diversas formas de currais eleitorais que devem garantir a permanência do esquema atual.

Gostaria muito de ver a possibilidade de um governo realmente de esquerda favorecido pelo fenômeno descrito aqui, mas o máximo que consigo supor é que teremos alguns resultados surpreendentes nas próximas eleições com um terceiro lugar “azarão” dentro da disputa política.

Agora é esperar e observar.

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