Jéssica Nogueira publicou um artigo interessante no Blogueiras Feministas sobre a novela Babilônia e as mulheres que não queremos ver. Parti desse artigo para tecer alguns comentários.

As mídias de massa são um ótimo dispositivo para medir o o pensamento e moral média de uma sociedade.

Por um lado porque a mídia de massa bem sucedida tem (precisa ter) a capacidade de exibir o que chamará a atenção de mais gente e, ao mesmo tempo, estar à frente de outras já se lançando para o que acha que atrairá mais audiência logo adiante. Se ela fracassar nisso deixa de ser bem sucedida, perde audiência e é superada por outras mídias.

A propósito temos um longo tema a abordar nesse ponto: Se a TV não tomar cuidado será substituída não por outras emissoras, mas por mídias como Netflix e até Youtube. Utópico? Talvez não. Para a geração Z (da virada do milênio, hoje na faixa máxima dos 20 anos) em algumas regiões é online que se encontram os ídolos e memes mais fortes. Vamos deixar isso para outras oportunidades.

O foco aqui é que a TV precisa, ao mesmo tempo, atender a maioria dos espectadores hoje, mas já falando a língua dos próximos.

Novelas como Babilônia são quase um paradoxo por causa disso.

Vivemos uma era de mobilização de fanatismos religiosos para fazer frente a visões mais humanistas que, a princípio, desafiam tradições antigas. Para sermos mais específicos resumo os pontos do post da Jéssica. Em Babilônia vemos mulheres que “não queremos ver”:

  • Um casal de mulheres idosas que, portanto, não servem para o fetiche masculino. São mulheres que vivem para elas mesmas e não como objeto das fantasias de uma sociedade (onde que isso é imoral e anti-religioso é uma questão que as religiões precisam resolver se quiserem continuar sendo “grande mídia”)
  • Uma negra cotista que é competente. Não nega sua origem na favela, mas também não a romantiza. Isso incomoda o elitismo que ainda insiste em reduzir os negros e pobres a uma sub-espécie preguiçosa. Ideia que já foi invalidada há alguns séculos (até os escravos que fizeram as pirâmides, ao que tudo indica, eram negros e altamente qualificados. E talvez mais respeitados que os pobres modernos., mas isso também é assunto para outros posts)
  • Uma mãe negra que segurou a barra sozinha depois que o homem que a engravidou se negou a assumir suas responsabilidades. Essa vai ao âmago do sexismo, da rotulação da mulher. Ela é a protagonista (dizem que meio apagada, mas, pessoalmente, gosto de histórias com protagonistas apagados pois dá espaço a outros personagens, mas isso é assunto para o meu blog pessoal onde falo de literatura)
  • Uma vilã que vive livremente o sexo. Ela de certa forma talvez complete um quarteto com as demais mulheres abrangendo assim boa parte das coisas que são negadas ou policiadas por sexistas.

Há de se levar em consideração que artistas (atores, atrizes, autores) também costumam se identificar mais com um viés humanista que respeite a diversidade humana. Pelo menos nos últimos dois séculos. No entanto temos outros exemplos (de outras mídias) de que esse caráter feminista e social da novela é uma tendência.

A intenção de ajudar a construir uma sociedade mais humana dificilmente ficará à frente dos interesses comerciais em um veículo de mídia de massa. Primeiro vem a busca da audiência, é claro.

Babilônia já começa com o beijo entre duas mulheres deixando claro que não foi um acidente: a novela pretende forçar os limites, talvez imaginando que “já fizemos um beijo gay no fim de uma novela, agora vamos mostrar como somos modernos ao colocar um no primeiro capítulo”.

Alguns artigos apontam que a audiência da novela está baixa.

Mesmo supondo que isso esteja correto eu discordo da Jéssica no ponto que ela supõe o público se recusa a mudar suas visões:

“…se o público não quer mudar suas visões conservadoras e preconceituosas, a TV que mude sua forma de representar o público.”

Detectar as nuances entre os pensamentos individuais e em grupo é uma arte complexa que depende de muitos dados para ser precisa ou de uma grande intuição. Não sei se a minha intuição, guiada por princípios meméticos, é grande, mas o que vejo no público é uma mudança no sentido de tolerar ou até admirar a diversidade humana.

Diversidade é bom para qualquer ambiente evolutivo, inclusive o memético (ou cultural).

Eu seria capaz de apostar que, se a trama não se mostrar muito confusa ou desanimadora, essa novela terminará com grande audiência.

Em um primeiro momento os quatro impactos listados pela Jéssica podem assustar até uma grande parte das pessoas que, se tiverem tempo para pensar, defendem uma sociedade mais humanista.

O problema é que a humanidade ainda se incomoda com diversos direitos e liberdades individuais. Somos filhos dos séculos passados. Nossos pais e nossos avós viveram o século XIX ou muito perto dele.

Creio que a existência de uma novela como Babilônia é um sinal interessante de a que ponto a Globo acha que pode (e deve) arriscar para se manter à frente de outras emissoras e outros meios.

No entanto a mídia de massa jamais poderá forçar todos os limites.

Ainda essa semana eu estava conversando sobre a Academia Brasileira de Letras e a necessidade de termos instituições, mídias ou algum tipo de ambiente onde a arte não pop possa encontrar um meio favorável para se desenvolver servindo de espaço de testes e inspiração para o futuro.

Se queremos uma sociedade mais madura e humana é interessante abraçarmos outras mídias produzindo canais de vídeo nos Youtube da vida, escrevendo livros auto-publicados ou nos organizando em coletivos como o Blogueiras Feministas.

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