Imagem: MadFranko008

Em The Wall, do Pink Floyd, os professores assediam os alunos com o mesmo discurso sexualmente estereotipado semelhante à ideologia de gênero dos conservadores modernos: homem não escreve poesia, mulheres são frágeis. A imagem acima é do filme e a escolhi por entender que representa bem os “valentões” online: agridem para esconder sua fragilidade.

A Eletronic Frontier Foundation fez um vasto artigo sobre o assédio moral se preocupando em lembrar que a restrição da liberdade de expressão não é um caminho para garantir uma Internet menos tóxica e procura apresentar algumas ideias mais efetivas como empoderamento dos usuários, garantia de anonimato e aplicação de leis já consolidadas como as de calúnia e difamação.

No entanto creio que temos que voltar uns passos e pensar no que é realmente assédio, o que é debate e também o que é reação de auto-defesa.

Há poucos dias, no aniversário de um amigo, me perguntaram sobre a agressividade de quem se defende de preconceito e observei que, quando somos sistematicamente e estruturalmente atacadas por alguma característica física ou comportamental estabelecendo uma relação perversa da sociedade contra nós, a reação é uma necessidade de sobrevivência, de não aceitar os rótulos, de não engolir a agressão.

O que é assédio moral?

O assédio moral é um ataque à pessoa.

Não importa se ela se sente ferida ou não. Também não se trata de nos tornarmos resistentes às agressões, em primeiro lugar que é uma perversidade impor que toda a sociedade seja capaz de de defender de sociopatas, em parte foi por isso que criamos sociedades e uma civilização com leis e o leviatã público que permite que cada um participe da sociedade sem precisar ser excelente em todas as suas qualidades.

Se uma ou mais pessoas começam a tentar diminuir, enquadrar ou rotular outra por suas características físicas, comportamento, cultura ou crenças estamos diante de uma situação de assédio moral.

“Ah! Mas eu brinco assim com as pessoas com quem convivo, o mundo tá chato”

Pois é. As interações humanas são complexas e realmente existe esse jogo em que pessoas amigas se deixam colocar em uma situação inferior em concessão para outra se sentir melhor. Isso é bem abordado em um dos capítulos de A Realidade em Jogo, de Jane McGonigal.

No entanto o ponto chave dessa interação está no equilíbrio, em uma pessoa saber até onde ir na brincadeira mostrando que conhece e respeita os limites da outra além de se colocar depois na posição oposta.

Online o assédio sempre diminui a Internet, estigmatiza mais o perverso que sua vítima, afinal, mesmo que seja entre amigos, é um espaço público, a Internet é uma realidade em si, como a Terra, por isso inclusive sempre me refiro a ela como nome próprio, Internet.

Em tempo: sentir-se ofendido pelas características e culturas alheias não é uma forma de ser vítima de assédio e sim uma desculpa para assediar moralmente os alvos dos próprios preconceitos.

Como lidar com o assédio moral online?

O artigo da EFF pinta um quadro bem triste e, infelizmente, real: nossos juristas não entendem a Internet. Nossos políticos também não e ainda por cima muitas vezes estão entre os principais assediadores, tanto uns dos outros, quanto da sociedade. Seja diretamente, seja por seus simpatizantes.

Vemos portanto tanto as leis, quanto os esforços políticos pervertendo as medidas contra o assédio moral online, muitas vezes até favorecendo os assediadores e prejudicando a sociedade em geral que, além de sofrer assédio, se vê constrangida a se levantar em defesa dos seus direitos.

Nesse sentido concordo com o artigo da EFF quanto ao empoderamento da sociedade que pode ser expontâneo, mas deve conquistar também aliados no governo, na mídia e no legislativo.

Também tendo a concordar com a propagação de leis “offline” como as que punem calúnia, injúria e difamação apesar de termos que entender que a Internet é um espaço diferente do espaço físico, no mínimo por sua permanência já que o que transita por ela provavelmente transitará para sempre ao contrário de palavras que se esvaem no vento em frações de segundos.

No entanto prefiro pensar no longo prazo, na construção de uma sociedade que entenda o assédio e a perversidade como um sintoma do medo, da dificuldade de se ajustar a uma era de mudança de paradigma.

Quando começamos a ver o assediador como uma vítima da própria insegurança ou até de uma cultura de assédio que também o fez de vítima (em geral por um núcleo familiar perverso) percebemos que, ainda que não faça sentido ser complacente com a perversidade, mudamos a receptividade da sociedade para as atitudes perversas.

Hoje é comum ver até mesmo as vítimas de assédio considerarem que estão diante de demonstrações de força.

Ainda há poucos dias, em reação a uma propaganda da Gillette, vi até mulheres afirmando coisas como, se os homens não fossem perversos não haveria soldados para enfrentar os nazistas no dia D. Confunde-se a perversidade, que geralmente está profundamente cravada em inseguranças e fraquezas, como sintoma de força.

A propaganda, aliás, procura propor justamente essa mudança de viés que estou sugerindo e está no meio de uma guerra de likes com mais de 25 milhões de visualizações e dislikes chegando a 1,3 milhões e likes se aproximando de 700 mil. Diante dos 25 milhões de visualizações me parece que ela está agradando muito mais do que desagradando, vá lá participar da guerra fugaz se quiser:

Esse tipo de guerra, aliás, também é uma forma de assédio moral online, trata-se de um ataque de 1,3 milhões de pessoas contra o modelo de homem que não é estuprador, misógino, perverso.

Mas isso nos leva a um tópico final:

Assédio moral online é só psicológico?

Já foi. Nos primeiros dias dos blogs eu já escrevia e naturalmente sofria ataques aqui ou ali, sempre limitados tentativas de encontrar inseguranças minhas como a voz, o formato do nariz, estar gordo para me fazer sofrer e parar de escrever.

De 2008 em diante, aproximadamente, houve uma escala da violência chegando ao doxing, por exemplo, que consiste em levantar os dados pessoais da vítima e espalhá-los pela rede estimulando admiradores a realmente ameaçar fisicamente as pessoas.

Essa estratégia, aliás, era usada pela que eu acho que foi o primeiro grupo online a ser dissolvido pelo hospedeiro, uma comunidade no Orkut que se propunha a “caçar comunistas”.

Decidi não abordar esses desdobramentos porque não vou considerar nem mesmo o “incômodo” do assédio psicológico como aceitável, então as ameaças ainda mais extremas são naturalmente inaceitáveis e provavelmente questão penal, como aliás tem acontecido, por exemplo, com a prisão de um assediador da Escreva Lola, escreva.

É necessário deixar registrado nesse post que o assédio moral online é a porta de entrada para crimes maiores, mas não me aprofundarei aqui neles.

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