Esse post é sobre as manifestações convocadas por Bolsonaro hoje.

O primeiro título que me ocorreu foi Puppies & Kittens por dois motivos.

Em primeiro lugar eu estava pensando no título para o vídeo no YouTube e não quero atrair quem já está pautado, que já tem uma posição favorável ou desfavorável formada e jogaria o vídeo em bolhas refratárias a reflexões e simpáticas a enfrentamentos. Além do mais o que tenho a dizer vai contrariar a maioria das pessoas contra ou a favor, de direita ou de esquerda.

Em segundo lugar eu queria fazer referência às pessoas sem falar nos grupos polarizados e, sim, a primeira coisa que me ocorreu foi a expressão usada em Z Nation para se referir aos zumbis, mas isso seria muito agressivo, principalmente porque estaria me referindo tanto a quem foi às manifestações quanto a quem é contra elas.

Então pensei melhor e decidi me referir a nós todos como coelhinhos e chinchilas porque realmente acho que somos todos boas criaturas e talvez um bocado ingênuas.

Esse post deve ser um pouco desagradável tanto para quem foi às manifestações quanto para quem é contra o governo e, em geral, contra as pessoas que ainda são a favor.

O que acho do governo?

Sinto que preciso deixar minha posição bem clara para que possam calibrar o meu viés e abordagem quanto leem o post: O governo supera todas as expectativas, o que significa que é muito mais nocivo e caótico do que se temia durante as eleições.

O governo Bolsonaro é praticamente uma continuação do governo que veio após a retirada do PT: favorece interesses econômicos de grandes grupos (bancos, planos de saúde, ensino privado, previdência privada, etc) em detrimento do bem estar da população. Trata-se basicamente da transferência de capital do povo para grandes corporações o que, aliás, é anti-capitalista já que interrompe o fluxo de capital estabelecendo a exploração da classe média e o uso das classes com menos recursos financeiros como mera mão de obra barata (inclusive para criar bens de consumo para exportação).

Ou seja, vejo o governo Bolsonaro como um desastre tanto para a economia capitalista quanto para o desenvolvimento humano.

O que vi em Copacabana?

Essa foi uma manifestação muito importante por uma mudança demográfica visível: se em 2014 a 2015/16 havia uma predominância clara de segmentos privilegiados da sociedade dessa vez o que se via era uma diversidade que representa muito melhor o nosso povo.

Do idoso ao jovem, do acadêmico à força de trabalho, do rico ao pobre, do branco ao negro todos estavam presentes na manifestação.

Esse por si já é um ponto muito importante que não pode ser diminuído em valor por nenhum argumento. É preciso entender que as redes de comunicação de Bolsonaro, mesmo sem o apoio de grupos que tiveram um papel determinante entre 2014 e 2018, são eficientes tanto horizontalmente quanto verticalmente.

Quando Collor fez parecido, convocando pela TV a população a apoiá-lo, aconteceu o oposto, uma enorme manifestação espontânea contra ele.

No entanto, na época a TV era praticamente o único meio de atingir as massas, hoje há o que chamo de redes subterrâneas de comunicação como o WhatsApp e a própria TL do Facebook. Aliás falo nelas antes mesmo dessas plataformas existirem.

Há bons sinais de que boa parte da dispersão da convocação se deu de poucos pontos centrais como a conta do próprio Bolsonaro no Twitter, no entanto, como eu disse, isso não reduz a importância da diversidade e quantidade de pessoas reunidas na manifestação.

Cito o episódio Collor porque considero notável a relativa ausência de manifestações contrárias à convocação de apoio a Bolsonaro.

Claro que, sem uma coordenação central e com o receio de atritos, é natural que não ocorra uma manifestação clara crítica ao governo, mas também não percebi pelas ruas qualquer manifestação velada como vi em muitas outras manifestações nos últimos anos.

Isso quer dizer que a maioria das pessoas está a favor de Bolsonaro? Que pouca gente desaprova esse governo? De forma alguma, mas já chego a isso.

Por ora digamos apenas que, em uma população de mais de 6 milhões não é difícil juntar 100 mil contra ou a favor de qualquer coisa.

Qual era a voz da manifestação? Era pro-Bolsonaro?

Percorri duas vezes toda a extensão da manifestação que tinha seu ponto mais populoso em frente à Xavier da Silveira e se estendia mais para o posto 6 do que para o lado oposto.

Os carros de som apresentavam um conjunto de causas bem claro.

  • Todos fortaleciam a imagem de Bolsonaro como um herói capaz de salvar o Brasil dos polítcos
  • Quase todos pediam pela Lava Toga (MP 780), restrição do poder do STF… Ou seja, um tipo de autarquia controlada pelo presidente.
  • Muitos tinham também pautas moralmente conservadoras como o direito à homofobia.

Essa é a voz que os organizadores darão à manifestação ao usá-la, com certeza. E lamento dizer que deve funcionar.

Os meus métodos funcionam melhor para ver 10 a 20 anos no futuro, mas me atrevo a dizer que que provavelmente hoje Bolsonaro conseguiu garantir pelo menos mais uns seis meses de governo, muito embora eu tenha razões para supor que ele conseguirá seguir seu mandato até o final, mais sobre isso mais à frente.

Essa é a voz que dirão que a manifestação tinha, entretanto, como eu disse, havia uma grande diversidade étnica, cultural, social e etária na manifestação. Só não vi LGBTQs. Seria uma tolicie imaginar que todos estavam reunidos em torno das mesmas causas.

Falei com uma única pessoa na manifestação, o que definitivamente não é uma amostragem válida, mas me sinto impelido a considerar que ela não era uma exceção.

Eu estava quando indo embora quando perguntei a uma senhora quem era o homem falando diante do carro de som e manifestei que tinha dúvidas sobre a manifestação ela desandou a comentar que Bolsonaro era burro, que com os filhos que tem não precisava de oposição e que tanto no governo quanto na manifestação não havia unidade (o carro em questão falava em intervenção militar, por exemplo).

No caso dela o herói era Guedes e estava ali porque contava com a capacidade dele de fazer alguma coisa, mas já estava com uma pulga atrás da orelha.

Pelo comportamento, diversidade e perfil das pessoas que vi podemos supor que muita gente ali estava em dúvida, que se agarram numa esperança e quanto humanos se agarram em esperança conseguem ser muito incoerentes, conseguem suportar uma grande dose de contradições.

O apoio ali é bem volátil o que pode dar a impressão que Bolsonaro pode perdê-lo rapidamente, mas lamento dizer que não vejo muito essa possibilidade e a “culpa” é da esquerda.

A “culpa” e da estrelas, digo, da esquerda

Depois que deixei a manifestação convocada por Bolsonaro esbarrei sem querer em outra de esquerda não relacionada à primeira. Era a “parem de nos matar”.

Foi bom para me lembrar de como as pessoas que se identificam com a esquerda tem atuado e alimentado sem querer justamente as ideias que tentam combater.

Creio que o terraplanismo é a melhor forma de explicar o que ocorre, mas antes é bom recapitular como a esquerda organizada e a esquerda espontânea, tem agido.

Desde 2011, quando o #Ocuppy se espalhou pelo planeta a esquerda tem perdido espaço por não entender que essas manifestações (que achei lindas) podem ser facilmente ressignificadas como sinais e agentes do caos.

O que temos chamado de direita na verdade é um tipo de conservadorismo que cresce pelo menos de transformações descontroladas.

Por isso 2013 foi um golpe ainda maior contra as esquerdas no Brasil.

A polarização que temos não é entre direita e esquerda, mas entre conservação e transformação, entre precaução e audácia.

Somado a isso as pessoas da audácia (quase dá para fazer um paralelo com a série Divergente) reagem aos argumentos dos precavidos da mesma forma que há anos se reage aos terraplanistas: ridicularizando as ideias ridículas.

A princípio pode parecer que ridicularizar as ideias e desqualificar quem as tem ou as abraça é uma reação adequada ou até a única, só que, assim como a Terra plana não é a ideia e sim o medo do mundo revelado pela ciência, os absurdos da “direita” são apenas materializações do medo das transformações.

Por isso coelhinhos e chinchilas

O que tenho visto é que somos quase todos coelhinhos e chinchilas. Todos estamos lidando com um mundo em intensa e inevitável transformação, mas em vez de nos abraçarmos como animais fofos que somos, uns correm para dentro das cavernas, outros para o alto dos morros, para gargantas entre montanhas ou mesmo para vales onde tudo é possível.

Os dois impulsos, a audácia e a precaução, são essenciais para que nos movamos e para que não o façamos descontroladamente.

Quando nos colocamos como inimigos, apontando o outro como louco desvairado estamos abraçando a a divisão, a tal polarização que sempre digo que não existe por vê-la como esse fenômeno artificial e potencializado por quem se interessa em manter o status quo.

O único caminho para equilibrar a sociedade e o governo com eficiência é dissolver o medo pela razão e pelo conhecimento e me refiro tanto ao medo do comunismo quanto ao medo de 53% de quem votou ser fascista homofóbico.

Isso demora a acontecer. Cheguei a delirar que poderia acontecer no breve período de governo de Temer, mas hoje percebo que é mais realista supor que demore um ou mesmo dois mandatos, a Manu é uma guru melhor para curto prazo. Não a linko aqui porque não sei se ela quer.

No entanto algo vai acontecer e, como disse, meus métodos não são bons para curto prazo, mas como não faremos tão cedo a transição para uma política de heróis (Lula, Bolsonaro…) veremos um herói que substitua Bolsonaro e, se a esquerda não mudar de tática, deixando de tratar quem votou em Bolsonaro ou mesmo que ainda o apoia como idiotas ou perversos o próximo herói será tão totalitarista e contrário ao próprio povo que o elege quanto Bolsonaro.

Outras vozes

De acordo com a BBC as manifestações atingiram 70 cidades (fontes posteriores registraram 156 cidades) contra mais de 200 na recente manifestação em defesa da educação. Eles listam pautas que deixei de fora no meu post como a reforma da previdência, mas discordo quanto a predominância de idosos. Pelo menos em Copacabana a manifestação foi muito mais vertical que as anteriores, ou seja, havia muitos idosos, mas em percentual menor que em outras.

Nem sucesso, nem fiasco de acordo com a BBC

O Meteoro Brasil aborda mais as incoerências da manifestação, mas também recorda do momento Collor e o aparente sucesso de Bolsonaro que, no entanto, se apaga diante da abrangência muito maior das manifestações contrárias a ele.

Sem conhecer as estatísticas apresentadas mais abaixo pela BBC ele também receia que as manifestações sejam usadas como um réquiem para a democracia.

Um réquiem para a democracia

A BBC apresenta dados estatísticos e considerações objetivas e jornalísticas com dados que até reforçam a minha sensação no local, por exemplo, 1/3 de pessoas mais velhas, 1/3 de mais jovens. Também mostra que 75% estavam lá para apoiar as reformas o que talvez corrobore minha percepção de que o desejo de ordem está acima, por exemplo, do enfraquecimento da democracia, desejado apenas por 6% que estavam lá conta o STF (isso eu não percebi no local, mas eu só tinha como observar pelos cartazes). A pesquisa citada também aponta, como desconfiei, que ganham heróis como Moro e Guedes, além do próprio Bolsonaro, mas o medo da desordem representada pelo PT é muito mais abrangente atingindo cerca de 80% dos manifestantes.

Esse é um vídeo bem importante. Veja abaixo.

Dados estatísticos para apoiar as suposições

Foto: eu na manifestação “Parem do nos matar”

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