Existem várias formas de classificar civilizações como pré-industrial, industrial, digital que são importantes para entendermos o momento que estamos vivendo. Também podemos classificar como caçadora-coletora, agrícola etc para compreendermos melhor como chegamos até aqui e onde nos localizamos na história da nossa civilização.

No entanto sinto falta de uma boa classificação que possa nos apontar para onde podemos, para onde queremos e para onde corremos o risco de ir. Sem isso é como pilotar às cegas, vendo apenas os próximos desafios e desenvolvendo soluções para eles que podem ser nocivas a longo ou até a médio prazo. Talvez esse seja até um bom resumo para o que nos trouxe ao início do século XXI diante de uma catástrofe ambiental sem precedentes nos últimos milhões de anos.

Achei que ia demorar mais para falar no “por quê” precisamos classificar civilizações… Talvez venha tuitando demais…

Talvez você esteja penando “Mas que tolice, já temos a escala de Kardashev” (Vídeo do Ciência Todo Dia). Então… Dá para resumí-la rapidinho: Quanto maior a capacidade de usar energia, maior a posição na escala, ou seja, civilizações que usam toda a energia do planeta são nível um, que usam toda a energia de uma estrela são nível 2 e de toda a galáxia nível 3.

Certo. É verdade que, quanto mais avançada a civilização, provavelmente mais fontes de energia ela será capaz de usar indo de queimar gravetos, queimar óleo fossilizado de gravetos, capturar vento, luz solar e assim por diante; todavia sempre achei que era uma classificação meio… predatória.

Veja bem, não estou propondo uma visão “fadinha quântica” de que civilizações mais avançadas científica e tecnologicamente tem que ser também mais sábias e ecológicas. Acho perfeitamente possíveis civilizações cuja cultura as leva a consumir um sistema planetário atrás de outro, só me parece que, mesmo nesse caso, o que define seu avanço não seria essa capacidade. Aliás voltarei a elas logo à frente.

Na primeira vez que me falaram em civilizações tipo um, dois, três etc (é, tem etc na ficção científica e são até empolgantes) pensei que se tratava da capacidade de manter o sistema, ou seja, as tipo um seriam capazes de manter o ecossistema ideal no próprio planeta e até tornar outros planetas habitáveis; as de tipo dois seriam capazes de manter o equilíbrio do seu sistema planetário inteiro, incluindo as estrelas ao redor das quais os planetas giram.

Mas estou me adiantando.

Quando falamos em classificar civilizações planetárias e além provavelmente temos três metas: entender o que precisamos fazer para seguir nosso desenvolvimento, identificar sinais de outras civilizações, decidir como devemos nos preparar para possíveis encontros com outras civilizações.

E me parece que a escala de Kardashev não funciona para nenhuma dessas metas.

Ah! Também não vou seguir aqui pelo caminho de achar uma escala de avanço de acordo com o desenvolvimento social, muito embora isso seja essencial para a sobrevivência da nossa civilização. Aqui vou me concentrar em desenvolvimento tecnológico porque é ele que nos será útil para explorar as duas últimas metas e é com ciência e tecnologia que vamos desenvolver as ferramentas necessárias para aplicar de acordo com o nosso desenvolvimento social.

O parágrafo acima pode ter ficado meio vago. Espero lembrar de voltar aqui quando escrever um post que o aprofunde.

Então, vamos lá, como poderíamos classificar a nossa civilização e outras de acordo com o desenvolvimento científico e tecnológico de forma que nos permita definir metas para o nosso desenvolvimento, reconhecer sinais de outras civilizações e nos preparar para entrar em contato com elas?

Capacidade energética e eficiência energética

Na minha humilde, e não especializada, opinião o uso eficiente da energia produzida é um imperativo tecnológico que acaba se impondo naturalmente. Sempre haverá situações em que a eficiência energética será útil ou até essencial. Se uma bateria pode durar uma semana sempre será útil que ela dure um mês, ou um ano. Nem sempre haverá fontes de energia aproveitáveis e podemos escalar isso para motores de espaçonaves ou sistemas de controle climático global. Além disso a tecnologia e a ciência tem sede de avanço e um deles é a eficiência energética.

Outro fator, que aliás devia nos preocupar, é a incógnita em relação à cultura de outras civilizações.

Se é tolice imaginar que temos que nos proteger de invasores que viriam roubar nossa água, afinal tudo que há aqui, há também em toda parte, existem riscos reais de alguma civilização simplesmente ter uma cultura tal que a leve a exterminar, escravizar, absorver outras culturas. Nem é algo estranho para nós, não é mesmo? Vide a expansão da cultura cristã demonizando todas as outras culturas religiosas. No nosso caso existia também a exploração de recursos naturais limitados, mas é fácil fazer a extrapolação, não é mesmo?

Basta que exista uma civilização Borg para que qualquer outra civilização que não saiba se manter discreta acabe absorvida ou destruída.

Aí está outra enorme boa razão para manter a máxima eficiência energética não permitindo que as radiações que revelariam a existência da civilização escapem para o espaço profundo, concorda? Nesse momento nem temos tecnologia para ocultar nossa presença, mas não estamos muito longe. Uma esfera de Dyson ao redor de cada planeta habitado ou estrategicamente colocada em torno da estrela para não causar flutuações estranhas ou parecer um fenômeno natural enquanto captura energia daria bem conta do recado.

Um breve parênteses: (Pode-se dizer que essa preocupação é desnecessária pois a civilização pode determinar um raio de segurança verificando que a estrela mais próxima com chance de ter outra civilização está a milhares de anos luz de distância, no entanto o que nos garante que civilizações Borg não espalham sondas pela galáxia? A gente certamente devia se preocupar em não revelar nossa existência).

Curva de consumo energético

A humanidade usa uma fração da energia do planeta (já vi estimarem que estaríamos em torno de 0,7 a caminho do nível 1 da escala de Kardashev) e já estamos sob uma pressão ecológica que exige que reduzamos o uso de energia desesperadamente nos próximos 3 anos. É verdade que estamos insistindo em tecnologias energéticas primitivas que resultam em devolver à atmosfera em poucos anos o CO2 que foi capturado por milhões de anos e que já existem tecnologias capazes de produzir energia em escalas muito maiores sem esse desperdício.

Perceba que, mesmo ainda primitivos, já nos vemos obrigados a buscar formas de energia que liberem menos resíduo. Em breve teremos reatores de fusão e tecnologias de captura de energia solar, eólica, geotérmica e outras com diferentes graus de eficiência energética, mas ainda assim, imagine que sejamos capazes de produzir 10x mais energia que hoje nos elevando acima de 1 na escala de Kardashev: nós poderemos usar essa energia no planeta? Poderíamos, por exemplo, manter o planeta inteiro iluminado com a intensidade do sol do meio dia? Quando vamos dormir?

Em algum momento, e não parece muito distante para a humanidade, a civilização passa a produzir muito mais energia do que precisa, ou pelo menos a ser capaz de produzir muito mais energia do que precisa.

Me parece bastante razoável supor que toda civilização passa por um tipo de curva de consumo e emissão de energia que sobe vertiginosamente conforme ela troca a queima de árvores ou algo parecido para a queima de reservas fósseis (ou algo parecido) até desenvolver usinas cada vez mais potentes e eficientes.

A questão que se apresenta depois disso é: O que uma civilização faz quando é capaz de produzir muito mais energia do que é capaz de usar?

Uma alternativa para a escala de Kardashev

Essa não é uma proposta embasada cientificamente, é uma provocação, combinado?

Supondo que civilizações capazes de utilizar toda a energia disponível no seu planeta natal terão necessidades inferiores à energia disponível (talvez depois de um breve período utilizando o excedente para reequilibrar o ecossistema planetário) e que, em vez de reduzir a produção de energia elas a redirecionarão para fins que não atendem diretamente aos indivíduos que compõe a civilização é razoável supor que a energia excedente será usada para criar máquinas cada vez mais poderosas, muito provavelmente computadores que podem até ser instalados nos planetas inabitáveis dos seus sistemas.

Como seria uma escala baseada nesses critérios, lembrando que parte da energia provavelmente será usada para manter a civilização oculta e para protegê-la de perigos cósmicos?

  • Nível 1: Tem excedente energético para desenvolver máquinas e computadores capazes de gerenciar o planeta inteiro mantendo a produção de alimentos, demografia e outros fatores em equilíbrio… Um devaneio: uma civilização assim talvez pudesse até sobreviver à extinção da espécie que a criou deixando para trás um planeta em equilíbrio ecológico, mas sem formas de consciência… Tema para ótimas ficções científicas;
  • Nível 2: distribui seus computadores por diversos planetas no sistema sendo capaz até de criar enormes simulações da realidade com a finalidade de simular futuros possíveis da civilização;
  • Nível 3: Espalham sua presença pela galáxia, talvez não pessoalmente, mas espalhando sondas e colonizando sistemas com máquinas ou até uma forma de panspermia. Esse tipo de civilização, a propósito, talvez não tivesse razão para se manter escondida já que conheceria a própria galáxia. A menos que ela chegue à conclusão de que há riscos ou talvez seja simplesmente avançada demais para que saibamos que tipo de rastro ela deixaria.

A função de uma escala como essa para guiar nossos próximos passos é auto-explicativa, mas cabe nos perguntarmos se ela seria útil para nos ajudar a localizar outras civilizações ou nos preparar para lidar com elas caso nos encontrem.

Deve ser bem difícil achar uma civilização mais avançada que quer se esconder, mas talvez possamos procurar por fugas de energia bem abaixo do que esperaríamos pela escala de Kardashev, por exemplo. Também podemos tentar buscar por sondas dessas civilizações imaginando onde elas seriam colocadas e procurando lá, afinal se uma civilização hostil encontra uma sonda nossa é até útil, desde que elas sejam capazes de se auto-destruir antes de dar dicas de onde estamos, o que não parece muito difícil de implementar.

Enfim, esse post é apenas uma proposta de mudança de abordagem pois não vi nenhum estudo até agora questionando a escala de Kardashev e propondo outras.

Foto ilustrativa por: NASA no Unsplash

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