Imagem: Feast por Laszlo Ilyes

Uma amiga lançou a provocação no FB:

Se você trabalhasse em um órgão público, direta ou indiretamente, e tivesse provas concretas que seus superiores ou pessoas com quem trabalha (direta ou indiretamente) estão cometendo atos de corrupção, você levaria a público ou não? Mesmo que isso pudesse lhe custar seu emprego? Você acha que fingir que não viu não é conivência? Você acha que ser conivente não é auxiliar a corrupção no país?

Tem uma primeira camada aí, não é?

“Você acha que ser conivente não é auxiliar a corrupção no país?”

Vamos começar aí nossa jornada, mas antes podemos aproveitar para refletir por um parágrafo sobre estratégias de abordagem para temas complexos, vai valer a pena e será bem rápido. Um parágrafo mesmo!

Desde que nós, homo sapiens, começamos a criar culturas e civilizações passamos a lidar com estruturas muito conceituais para as quais não estamos intelectualmente preparados e isso nos leva a ficarmos perdidos em falácias e outros desvios de raciocínio provocados por nosso viés. Dividir a complexidade em módulos passa a ser vital para vermos com mais clareza nosso ambiente.

Viu? Foi rápido.

Por isso separei primeiro a última pergunta, que me parece ser o conceito principal do conjunto.

Enfim, a corrupção popular, as pequenas corrupções cotidianas perpetradas na rua, empresas privadas e também em repartições públicas auxiliam a corrupção no país, ou seja, do Governo e grandes corporações?

Parece haver um senso comum de que sim. Talvez porque a corrupção dos nossos amigos (e as nossas) estejam ao nosso alcance, mas o senso comum não constitui evidência, não é mesmo?

Antes que alguém se revolte: toda forma de corrupção deve ser erradicada, mas não é o que vamos avaliar primeiro. Antes queremos definir se, para erradicar uma temos que erradicar as duas.

Há pouco mais de 20 anos notei pela primeira vez uma campanha eleitoral que fez uso intenso de questionamentos sobre a honestidade dos adversários. Desde então vimos essa prática se intensificar até o ponto que vivemos hoje, um rendevouz de acusações e até algumas consequências para os corruptos que antes eram vistos como inomináveis ou intocáveis.

Quando olhamos para as pequenas corrupções vemos o mesmo movimento? Me parece que não.

Vemos sim mais gente usando cinto de segurança, menos gente jogando lixo no chão e mais gente respeitando leis e demonstrando uma ética melhor, mas não a mesma intensidade de movimento que vemos na esfera pública.

Essa evidência já deveria bastar para supormos que não é necessário combater a corrupção popular para que a corrupção pública seja combatida e nem para que a população passe a votar em políticos mais honestos.

Parte da explicação disso está justamente em nosso viés: o crime do amigo é mais leve que o do conhecido que é mais leve do que o do estranho. Ou, se preferir um exemplo, a mulher desconhecida que aborta é uma criminosa, mas nossa amiga passou por uma fatalidade e não teve alternativa.

Nesse ponto você deve pode estar pensando (bem, eu estou) que essas corrupções cotidianas dão sim algum auxílio ou, pelo menos, uma tolerância à corrupção pública. É. Acho que sim, mas a pergunta que devemos nos fazer é se essa ligação é tanta que justifique colocarmos as duas em um mesmo módulo de pensamento.

É uma boa abordagem tentarmos envolver as duas questões em uma mesma sequência de raciocínio? Vendo que as relações de causa e efeito são mínimas entre elas? Duvido muito.

Além disso essa conexão, fraca e questionável, favorece a corrupção pública que passa a se justificar porque “um povo corrupto tem um governo corrupto”.

Pode-se até partir daí para buscar outros falseamentos para essa hipótese: Todo governo corrupto no mundo está ligado a um povo corrupto? Todo povo honesto tem um governo honesto? Existe um governo G’ mais corrupto que o governo G” sendo que o povo P’ é mais honesto que o povo P”?

A pergunta tem um segundo bloco, vamos a ele:

Devemos denunciar a corrupção que testemunhamos?

Sim. Pronto. Acabou 🙂

Na verdade… Não, na verdade devemos denunciar sim. É corrupção, é antiético, devemos enfrentar.

No entanto eu compararia isso à postura que devemos ter diante do preconceito.

Uma pessoa vítima de preconceito deve enfrentar? Deve se mostrar mais forte que o agressor? Tanto por ela mesma quanto por outros? Sim. Mas…

Nós devemos ter como meta desenvolver essa força, essa capacidade de nos expormos para agir pelo bem, mas o nome disso é heroísmo e não podemos cobrar isso dos outros, culpá-los por não terem sido capazes de entender que o machista, o racista, o troll é uma pessoa fraca especializada em encontrar nossos pontos fracos para tirar vantagem ou se sentirem fortes.

Denunciar o erro de algué próximo, como eu disse mais acima, é mais difícil quanto mais próxima for a pessoa. No caso de amigos podemos até ter dificuldade de perceber que estamos diante de um ato antiético.

Quando percebemos há as consequências.

Milhares, aliás provavelmente milhões, de mulheres deixam de enfrentar seus estupradores porque são seus tios, pais, líderes religiosos, primos.

Temos visto uma mudaça nesse quadro com mulheres se levantando para falar do #PrimeiroAssédio ou #MeuAmigoSecreto, mas ainda não percebi a formação de uma massa crítica de #PrimeiraConivência ou #MeuCorruptoSecreto.

Veremos isso? Espero que sim, mas também espero que não seja visto como uma pré-condição para sermos dignos de ter um governo honesto.

A história nos mostra que demoraremos muito mais tempo para tornar 200 milhões de pessoas honestas do que uns poucos milhares de representantes políticos. Essa, aliás, é outra linha de pensamento para falsear a hipótese da conexão entre os dois tipos de corrupção: As grandes reformas políticas da história (a democracia Greco/Romana, a Revolução Francesa, o Protestantismo, a Era Moderna) aconteceram em resposta à uma mobilização maciça da população? Tivemos que ver uma grande parte da sociedade mudar para depois o governo se ajustar? Na era pré-Internet a população sequer tinha recursos para se unir.

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