O convidado dessa aula foi o sociólogo Sérgio Amadeu.

Meus dois primeiros contatos com ele foram na Campus Party desse ano.

Primeiro o vi defendendo o direito de uma tribo indígena a andar sem camisa (sim, índios no Brasil acessam a Internet e até participam do maior evento de cibercultura do país) e depois assisti sua contagiante defesa ao direito de exercer democracia online durante o debate sobre a lei Azeredo.

Mas desta vez ele foi nos falar sobre o que é opensource, ética hacker e Internet.

“A Internet é um arranjo comunicacional colaborativo, distribuído e não proprietário” – Sérgio Amadeu

Em geral eu prefiro comentar as ideias que as pessoas me inspiram, mas tenho notado que pouca gente entende a Internet dessa forma e portanto, vou reproduzir um pouco do que o Sérgio Amadeu compartilhou conosco.

Ele chamou a atenção para o fato da Internet e da cibercultura que vem se expandindo para além do nicho da subcultura (opinião minha, mas creio que ele concordaria) ter surgido dentro da ética hacker que tem dois grandes princípios:

  • Resolver problemas é divertido
  • Uma vez resolvido um problema sua solução deve ser compartilhada para que não tenha que ser resolvido novamente

O primeiro princípio ajuda a explicar porque pessoas se dedicam a desenvolver programas sem ganhar nada com isso (incluindo programas complexos como o Apache que é responsável por manter a maior parte da Web em funcionamento, o Linux e o OpenOffice): é divertido! Enquanto algumas pessoas fazem sabonetes artesanais outras fazem código.

A ética hacker e sua proposta de compartilhar conhecimento aliada ao crescimento da quantidade e importância de bens imateriais cria uma crise de propriedade sobre os bens imateriais como músicas e filmes digitais, programas de computador, livros e até a decodificação do genoma humano.

Não se pode discutir que a propriedade intelectual, originalmente criada para garantir que as pessoas capazes de criar conhecimento fossem recompensadas por isso e assim pudessem gerar mais conhecimento já não funciona a favor da geração de conhecimento, mas sim de renda.

O copyright foi criado em 1720, um século onde pouquíssimos eram capazes de ler e produzir conhecimento. Agora no século XXI até mesmo um país como o Brasil tem mais de 50% da sua população acessando a Internet com alguma regularidade e portanto apta a produzir conhecimento, ou estaria se não fosse impedida pelas leis de propriedade intelectual (parágrafo meu).

Um dos pontos mais interessantes trazidos pelo Sérgio Amadeu é a contradição entre o método Catedral de desenvolvimento industrial e o Bazar usado pelo movimento OpenSource (Eric Raymond) que demonstra como a sociedade atual está pronta para desenvolver soluções de qualidade superior no ambiente aparentemente caótico da inteligência coletiva.

Outro ponto importante é a importância da Rede como instrumento de socialização e ambiente cultural: de acordo com as estatísticas do Alexa (ago/2009) nada menos que seis dos 10 sites mais acessados do mundo são redes sociais onde o conteúdo é gerado por seus habitantes.

Durante a aula cujo foco era explicar o que é Opensource, como se nota, foi impossível não falar nas questões sociais modernas pois, como ele destacou logo no começo: estamos em plena crise de transição entre bens materiais rivais (só podem ser usados por uma ou um pequeno grupo de pessoas por vez) e bens imateriais não rivais.

Vale a pena contar a história anedótica ainda que um pouco desagradável do furto do celular do Sérgio Amadeu em São Paulo.

Ele vinha pela rua segurando o celular no ouvido quando o assaltante passou correndo, deu um leve toque no smartphone que voou para a mão do bandido e nunca mais foi visto. Se fosse um software, uma música digital ou um livro digital o Sérgio ainda teria seu telefone: copiar conhecimento não pode ser crime uma vez que não priva o dono da sua propriedade e, ao ser copiado se multiplica em vez de se dividir.

Aqui entra minha humilde participação…

Sou a favor da transformação dos recursos para processar, armazenar, copiar, transmitir e transformar conhecimento em comodities, ou seja, computadores, softwares e até livros, músicas, fórmulas de remédios deveriam ser propriedade da humanidade disponíveis pelo preço mais baixo possível (no caso de bens materiais) e de graça (bens digitais) para que possamos criar uma economia em torno do conhecimento e des serviços.

Esse porcesso vem ocorrendo há muito tempo.

Na década de 90 a poderosa IBM que tinha quase 100% dos seus lucros na venda de computadores anunciou que o B era de Business. Na ocasião a divisão de negócios da IBM tinha acabado de passar a de Machines. Depois disso ela vendeu sua divisão de notebooks e a de impressoras entre outras e hoje é uma empresa baseada em serviços.

No entanto, observando a história veremos que não estamos diante de um fenômeno recente: a nossa civilização está a caminho de uma sociedade do conhecimento cuja economia será alimentada por um capitalismo cognitivo.

A questão é: como fazer essa transição?

Muitas empresas que vendem átomos (a Microsoft vende CDs, a Warner DVDs, as livrarias papel e tinta) e, em vez de mudar seus modelos de negócio usam seus recursos para tentar impedir a mudança gerando conflitos. Até agora apenas legais.

Como se resolve essa equação sem quebrar a economia mundial?

Muito embora vejamos que a velha economia baseada no segredo e nas informações privilegiadas tem sido mais nocivas do que a suposta pirataria de conhecimento.

Quanto à dúvida a respeito da propriedade intelectual que possa haver devemos perceber que absolutamente ninguém cria conhecimento do zero. Se uma empresa quer ter os direitos de propriedade sobre uma história então ela deve pagar um valor a cada ser humano no planeta pois a fonte de onde ela tirou as bases para suas criações intelectuais são as memórias dos nossos pais,avós e bisavós.

Artigos de apoio

Links interessantes

  • Grid Republic: ceda o tempo vago de processamento do seu computador (quando entra o protetor de tela) para ajudar a resolver sérios problemas da humanidade como a H1N1, dengue, câncer infantil, fome e uma infinidde de outros.

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