Sim, o título do post já pressupõe que não acreditamos, no entanto essa suposição está aí mais como uma crítica a… não estarmos vivendo de acordo com nossa crença, afinal é bem claro que humanos tem o impulso de crer que existe uma consciência e uma razão para o Universo, tudo o mais e, principalmente, nossas vidas.

O que é, afinal, acreditar em Deus?

Para chegar à essência da crença de que existe uma consciência regendo o Universo temos que colocar de lado por um tempo os vastos labirintos meméticos que construímos para transformar nossa sensação de que existem deuses em convicção, ou seja, temos que nos desligar por um momento das religiões.

Crer em deuses é tão somente o que já foi dito três vezes acima: sentir que existe uma razão para tudo existir e essa razão é consciente.

Acreditar nisso, e apenas nisso, devia nos produzir uma profunda humildade e busca para acalmar nossas mentes inquietas para tentar perceber o que os deuses esperam de nós ou talvez não esperem nada, mas ainda devíamos nos sentir impelidas a buscar uma conexão com a consciência (ou consciências) que criaram tudo que existe, incluindo as pessoas como nós.

Quando realmente acreditamos em deuses devíamos nos tornar pessoas menos obcecadas com a satisfação dos nossos desejos materiais, menos inclinadas a controlar como as outras pessoas vivem e como pensam.

Por isso estou aqui propondo que não temos acreditado realmente em deuses.

Vivemos uma obsessão com as explicações que transformam as crenças em convicções.

Religiões contra a fé

Além de sentir que existe alguma consciência maior no Universo também temos a necessidade de sentir que estamos entendendo o mundo em que vivemos e há um problema na fé essencial que comentei acima: dificilmente duas pessoas sentirão os deuses da mesma forma.

Talvez até existam mesmo um ou mais deuses bem definidos, mas sejamos humildes, qual é possibilidade de uma pessoa ou mesmo milênios de pessoas pensando chegarem minimamente perto de “ver” ou “entrar” de alguma forma na mente dos deuses.

Ficamos em terreno pantanoso, em areia movediça, até que tomemos a decisão de concordar uns com os outros sobre nossa percepção dos deuses.

Talvez assim é que tenham surgido as religiões: conjuntos de regras civilizatórias e de acordos reduzindo os deuses a termos que façam sentido para nós, homo sapiens recém saídos da perplexidade primata… Ou, mais provavelmente, ainda mergulhados nessa perplexidade.

Perceba que “regras civilizatórias e acordos que apaziguem nossas diferentes visões dos deuses” não é necessariamente algo ruim! Pelo contrário! Sem isso talvez já tivéssemos nos extinguido há centenas de milhares de anos.

As religiões só se tornam nocivas quando as fronteiras das variadas culturas humanas são rompidas pela era do fluxo cada vez mais livre de informação e voltamos para o problema original: o conflito entre as diversas explicações para os deuses, o que eles esperam, o que eles representam.

Claro que também não podemos ser pessoas ingênuas e esquecer dos “anticristos” que se aproveitam das religiões já gravadas profundamente nas sociedades para se dizerem representantes daqueles deuses e obter para si poderes políticos, econômicos e sociais. O mundo é complexo e devemos lembrar sempre disso.

Vivendo a fé em deuses

Devo dizer que sou ateu, mas estou aqui para afirmar que devemos buscar novamente o contato puro com a crença de que existem deuses. O ateu, na falta da crença, ainda tem os impulsos altruístas instintivos e as conquistas morais de milênios de esforços de religiosos em busca de modelos de visão de mundo.

Um dos mais poderosos é sem dúvida o do Cristo, que transforma os mandamentos para não cometer crimes em compromisso de nem mesmo desejar cometer crimes ou mesmo causar dor ou desconforto às outras pessoas.

Se existem deuses temos um caminho infinito à nossa frente para observar e entender a complexidade do Universo e, muito antes disso, a complexidade e diversidade da própria humanidade pois, se nossas culturas, raças, gêneros, crenças são tão ricas e diversificadas, só pode ser porque isso emana dos deuses, quer acreditemos nas escrituras que dizem que humanos são feitos à imagem e semelhança de Deus, quer acreditemos em um panteísmo em que a Terra é a mãe de toda a vida no planeta tornando-nos irmãos da árvore e da praga.

Podemos nos sentir tentados a cobrar que todos nós vivamos de acordo com a humildade da busca por conexão à consciência do Universo, mas não faz sentido querermos viver as vidas dos outros. É perverso contra as outras pessoas e contra nós mesmas!

A busca por Deus sempre foi um caminho pessoal. Um caminho que podemos compartilhar por um tempo com muitas outras pessoas, mas ainda assim com pequenas diferenças, afinal a diversidade parece ser uma imposição do Cosmos onde vivemos.

E por que falar nisso nesse blog?

Os poucos leitores frequentes do que escrevo já devem saber, mas blogs costumam ter mais leitores e leitoras casuais que frequentes, então imagino que valha a pena explicar.

Gosto de me referir ao filme pós-apocalíptico O Livro de Eli para ilustrar já que lá vemos a fé sendo usada tanto para se aproximar de Deus quanto para obter poder, mas a realidade mergulhou mais fundo e hoje é bem evidente o uso das religiões para dividir as pessoas e convencê-las a agredir, discriminar e até ferir para defender interesses que não tem qualquer relação com a busca da fé.

Esse blog é sobre como a sociedade se transforma conforme se torna cada vez mais hiper-conectada e as religiões, que são sistemas construídos em torno da nossa crença natural em deuses, além de serem fantásticos sistemas meméticos, tem um papel cada vez mais central nos jogos de poder políticos e econômicos tornando impossível falar da nossa civilização sem refletir sobre o seu relacionamento com a crença em deuses.

Foto por Joshua Newton on Unsplash

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