O foco desse blog é uma visão geral das percepções, mensagens, sentimentos e ideias que animam (no sentido de alimentar, de dar energia, intenção) os partidos, a mídia e as principais coletividades de eleitores procurando também identificá-las.

Está fora dos meus objetivos julgar qual é a opção que produzirá maior bem estar à população.

Para cumprir esse objetivo de forma que possa ser útil também para o eventual leitor que aportar nessas bandas creio ser necessário sugerir uma abordagem para seguir adiante.

Como ler esse artigo

A política em geral nos provoca intensas emoções levando-nos a uma certeza quase religiosa a respeito da nossa percepção a respeito das alternativas ou então a um cansaço e descrença que nos faz considerar todas as alternativas igualmente ruins ou irrelevantes.

Essa abordagem não funcionará aqui. Para que esse artigo tenha alguma utilidade será necessário se imbuir de uma visão, digamos, agnóstica em relação ao processo político esvaziando-nos de certezas emocionais e premissas intelectuais pré-concebidas. Será necessário distanciamento. Imaginar que estamos analisando outro período da história ou outro país pode ajudar.

Sem tal distanciamento falharemos em nos concentrar no quadro geral e cairemos nos esforços para defender nossa visão já pronta do objeto das nossas reflexões.

Quadro Geral

Lados e instrumentos

No tabuleiro da civilização humana quais são os lados, quais são os instrumentos?

As pessoas comuns frequentemente são vistas como peões, como peças nesse tabuleiro e isso está correto para um indivíduo, mas a sociedade também se comporta como um indivíduo formado pela média das ideias, anseios, necessidades dos indivíduos que a compões.

A sociedade é um dos jogadores. As empresas precisam delas como consumidores e como mão de obra. A mídia precisa disputar sua atenção e os políticos precisam do seu apoio até mesmo sob uma ditadura.

O outro jogador são as empresas. Assim como acontece com os indivíduos temos que distinguir a personalidade formada pelo conjunto de empresas e corporações.

Pode-se dizer que o universo de gestores das empresas é muito mais restrito do que o de cidadãos comuns, o que é um fato, no entanto nos últimos cem anos ou mais temos visto o aumento de “indivíduos” corporações e faltam evidências de que eles tenham a capacidade de se organizar muito mais eficientemente do que a população.

Compreendo que é uma hipótese que pediria maiores explicações, mas pedirei paciência para que a aceite por hora (isso já foi tratado em outros posts e será aprofundado no futuro) que foi essa capacidade inata de grandes grupos sociais que nos trouxe dos impérios dominados por deuses como os farós até a democracia moderna que continua, naturalmente, em processo de desenvolvimento.

Os dois “jogadores”, sociedade e corporações, são disputados pelos instrumentos que devem agradá-los para sobreviver: mídia e políticos.

Temos que observar ainda que esses grupos apresentam interseções:

  • Há políticos à frente de corporações
  • Grupos de mídia de maior porte são parte das corporações
  • Grupos de mídia menores são parte da sociedade e servem a ela
  • Quadros administrativos de corporações podem se perceber intimamente ligados à sociedade “comum”

Em outras palavras é necessário perceber que, nesse jogo, não há uma separação hermética entre os diversos participantes.

Sob essa abordagem podemos refletir sobre o poder e a importância dos políticos, da mídia, das corporações e da sociedade.

O poder do governo

Parece haver um senso comum de que o partido político eleito detém a maior parte do poder na condução dos rumos do país.

Os eleitores individualmente adotam lados de acordo com suas crenças ou conclusões políticas passando a defendê-los como se a vitória de um lado praticamente alienasse o outro.

Não é o que observamos de fato (defendo que pelos motivos que descrevi acima).

Há 12 anos quando o PT entrou no poder havia receios semelhantes: o PT tornaria o país comunista.

Não foi o que aconteceu (e nem acontecerá) pois a pressão dos “indivíduos coletivos” formados pelas corporações e pela sociedade lançam amarras por um lado e cobram ações por outro.

O papel da mídia não pode ser esquecido: conforme cresce o poder da voz coletiva graças ao crescimento da Internet (e ele não pode ser detido graças à sua importância no sistema sócio-econômico) mais ela se vê impelida a atender suas demandas. Além disso não podemos esquecer das interseções que colocam pessoas comuns em diversas posições da mída, da política, das corporações.

Observando memeticamente o tipo de governo eleito é muito mais importante como um indicador dos anseios da sociedade do que como uma força que atenderá a esses anseios.

O poder da sociedade

É curioso notar como muitos analistas da sociedade conectada (a caminho de se tornar hiperconectada) há anos afirmam que o poder está nas mãos dos cidadãos pois eles tem na Internet um meio para se reunirem e amplificar suas vozes, mas sob o calor das expectativas do processo eleitoral, tendem a reduzir a quase zero esse poder.

Os dois casos provavelmente estão errados.

A sociedade tem menos poder do que poderia ter pois é influenciada (e não manipulada que considero outro exagero) pelos sucessos e fracassos dos outros, pela mídia, propaganda etc.

Veja como o sucesso da primavera árabe se espalhou pelo planeta e o aparente fracasso do fenômeno Occupy esfriou as mobilizações de esquerda (vide novamente o trabalho de Castells citado no começo desse artigo).

Uma parte considerável do poder da sociedade está na expectativa que os outros tem do seu poder e da facilidade ou dificuldade em influenciá-la. Por isso grupos políticos se apressam em buscar apoio de negros, pobres, religiosos e outros grupos potencialmente formadores de opinião.

A orientação política também divide a sociedade entre direita e esquerda e essa divisão é dinâmica estando intimamente relacionada com os tempos de maior ou menor instabilidade econômica e perspectivas de futuro que influenciam o posicionamento majoritário da sociedade para um lado ou para o outro.

O mais provável é que nesse momento não tenha sido a direita que se fortaleceu, mas a esquerda que se enfraqueceu ao falhar em se alinhar (e não digo se unir pois isso seria praticamente impossível) às mobilizações do ano passado.

Hoje há muita discussão sobre a própria existência de direita e esquerda, mas além de ser possível que exista uma predisposição neurológica que influencia nosso posicionamento político, elas servem como agrupamento didático das posturas que dividem as pessoas nesses dois grupos. Esse infográfico pode ser útil (feito certamente por alguém alinhado com a esquerda):

O poder da mídia

A mídia domina o Universo! Nada acontece contra sua vontade absoluta, ela nos controla como marionetes huahuahuahuahuahua!

Aham… Vamos ser mais realistas, né?

A mídia composta pelo marketing, pelos jornais, TV e rádio tem uma influência enorme na formação da opinião pública, muito maior do que a exercida pela própria sociedade através das redes sociais online e offline, mas é claro que tem limites.

O primeiro limite está na dependência da audiência. A mídia que falha em atrair audiência e alguma credibilidade se torna ineficaz.

Em tudo que a mídia faz ela precisa se preocupar primeiro em atrair a atenção e depois em construir uma reputação entre os que a consomem, aqueles que os anunciantes querem alcançar com as propagandas que garantem grande parte do faturamento da mídia.

Outro limite, que entra em conflito com o primeiro, é a necessidade da agradar as empresas que anunciam e suas redes de negócios (uma mídia não irá contra um grande acionista mesmo que ele não anuncie, claro).

Bastam esses dois fatores para limitar consideravelmente as possibilidades de assumir lados claramente.

É por isso que vemos cada vez mais a mídia cumprir seu papel investigativo inclusive de grupos que tem algum poder sobre ela.

Sim, ela está muito longe, longíssimo, de ser imparcial, mas curiosamente observamos que, por exemplo, é comum ver tanto pessoas de direita quanto de esquerda acusar a mídia de ficar contra sua facção (isso até parece WoW). Essa é uma evidência. Você pode coletar outras por observação lógica.

Mesmo que o governo eleito tenha grande poder sobre a mídia (essa é outra pesquisa que pode ser feita sem grande dificuldade) podemos esperar uma redução no poder da mídia.

Essa redução não se dá de fato pelo aumento do poder da voz da sociedade pela Internet, mas pelo receio dela sair do controle novamente e de outras formas de mídia entrarem no jogo de influência da sociedade, afinal vivemos uma cultura cada vez mais global e as redes de influência direta e indireta são vastas. Eu diria até que as redes indiretas são as mais vastas e menos observáveis.

A evidência para essas redes indiretas está em afloramentos do fenômeno Occupy por exemplo. Ninguém previu aquilo. Nem aqui e nem em outros países.

Nesse ponto é interessante observar que, entre 2011 e 2013 bastou que outros países se mobilizassem em grandes protestos populares para provocar uma onda global, mas nesse momento temos levantes na China, no México, nos EUA e não houve outra onda planetária de protestos… Isso, no entanto, é assunto para outro artigo… Ok, resumindo muito o que já andei dizendo: a sociedade está “cozinhando” outras formas de mobilização e talvez só vejamos algo semelhante depois de 2016.

O poder das corporações

Esse é o elemento mais difícil de avaliar dentre os demais.

As corporações são como matéria escura: nós percebemos a presença delas pelo efeito gravitacional que provocam, mas não sabemos exatamente como elas interagem entre si, até que ponto se coordenam.

Ao menos sabemos que elas precisam da sociedade para vender e como mão de obra. Além disso podemos deduzir suas intenções através das suas movimentações.

Lembremos que as corporações disputam entre si tanto por mercado consumidor quanto por mão de obra o que as leva a usar o poder que tem para reduzir impostos, salários, direitos trabalhistas, custos.

Na economia globalizada elas foram capazes de abandonar fronteiras e encontrar as opções mais baratas em outros países causando transtornos para os trabalhadores dos seus países “sede”.

Em parte foi a tensão provocada por isso que incendiou os protestos crescentes desde 2008.

Podemos esperar então que as corporações, e até empresas menores, se sintam impelidas a usar seu poder nesse sentido.

Por outro lado nossa civilização começa a perceber que uma estrutura mais equilibrada, com hiatos sócio-econômicos cada vez menores, é vital tanto para a manutenção das condições de vida (ecológicas e sociais) quanto para o capitalismo cognitivo.

Os limites do poder das corporações talvez comecem por aí: por uma cobrança social e ecológica cada vez maior. Tanto por questões de marketing quanto pela necessidade de aumento de lucros. No entanto ainda é um caminho a ser trilhado.

Diversos movimentos sociais espontâneos horizontais (sem liderança definível) demonizam as corporações começando pelas de mídia e esse é outro importante ponto limitador.

Por hora esses grupos se demonstram irracionais, envolvidos na esquizofrenia das teorias da conspiração, no entanto o tempo pode torná-los mais coerentes e o fracasso das manifestações pela força pode justamente catalisar essa evolução. Até o momento não percebi isso acontecendo, portanto um dos maiores limitadores do poder das corporações ainda é duvidoso. Todavia não podemos esquecer que o medo desse poder pode ter um efeito limitador razoável e há sinais disso em tímidas tentativas de demonstração de imparcialidade ou de campanhas de marketing que procuram se mostrar sintonizadas com essas parcelas da sociedade.

Uma bola de cristal para essas eleições

Ainda que me faltem os recursos (pesquisas, estatísticas, grandes bases de dados) o pensamento científico nos conclama a fazer previsões como uma forma de medir a adequação das nossas hipóteses.

Estou ciente de que não esgotei nesse artigo, na verdade mal arranhei, as evidências e hipóteses que estou considerando e essas previsões podem parecer arbitrárias, mas o objetivo delas é serem um registro para medir ainda que vagamente as hipóteses com que tenho trabalhado.

  • Uma percepção geral de que o PSDB considera os eleitores do PT ignorantes pode causar simpatia pelo PT
  • A demonização do PT em níveis exagerados pode produzir um efeito contrário fazendo parte da sociedade vê-lo como vítima
  • Por isso com margem justa o PT venceria as eleições
  • A parcela de esquerda da sociedade, vendo o crescimento do poder conservador, pode decidir ir às urnas produzindo uma vitória mais folgada para o PT
  • No caso da vitória apertada de um ou de outro os diversos poderes devem optar por atender o que perceberem como anseios populares
  • A mídia continuará apertando o cerco à corrupção e os políticos procurarão se mostrar empenhados no mesmo
  • Os movimentos dos governos eleitos no sentido de questões controversas será lento ou “por debaixo dos panos”
  • Nas próximas eleições um partido de esquerda mais radical pode fazer uma escalada inesperada.

É esperar para ver…

Observações sobre como votamos

Ainda parecemos envolvidos pelo mito do herói ou do super-vilão. Acreditamos que nosso voto é nosso maior poder e que, dependendo de quem elegermos, teremos o nirvana ou o érebro onde esquecemos de todas as belas coisas.

Parecemos considerar que a classe política, ou até o presidente sozinho, detém 90% do poder de transformação da sociedade, da mídia, da economia etc.

Talvez isso explique votarmos como se escolhêssemos um salvador ou nos defendêssemos de um vilão. Não só votamos, mas usamos de todos os instrumentos que temos, de todas as falácias, de todas as formas de agressão e diminuição do nosso adversário (a pessoa que vota naquele que vemos como demônio ou que não defende o que vemos como messias).

Essa não é a forma mais eficiente de lidar com nosso voto visto que dificilmente é verdade que temos anjos ou demônios entre os candidatos e, mesmo que tivéssemos, eles detêm apenas uma fração do poder de transformação.

Devemos ser mais críticos contra nossas próprias ideias e candidatos do que contra os outros pois nossa simpatia pode nos impedir de ver claramente. Podemos nos entregar a escaramuças ferindo nossas relações de amizade. Perder o voto confiando no político errado é o menor dano, somos um único voto. Por mais que sejamos capazes de atrair outros para o nosso “lado” ainda é uma ilusão. O poder que a sociedade ganha com as comunicações do século XXI é coletivo e não individual.

Votar devia ser como escolher uma religião: devemos observar atentamente se ela vai ao encontro do que acreditamos e se realmente está empenhada minimamente nesses objetivos. Faremos a escolha certa pelos motivos certos. Tenho visto muitas escolhas “certas” e “erradas”, mas pelos motivos errados.

Ah! E sobre a subida da Marina e depois do Aécio? (acrescentado em 23/10/14)

Parecia que ia tudo bem para o PT. Adversários se digladiando relativamente lá em baixo. Aí morre o Eduardo Campos, Marina assume o lugar dele, dispara nas pesquisas, depois despenca e Aécio entra no lugar e vai subindo até conquistar o segundo turno e disputar focinho a focinho com Dilma.

O que causou isso?

Minha hipótese volta novamente aos estudos mostrados por Castells no final do seu livro sobre as redes de indignação e esperança: A sociedade está globalmente insatisfeita com o sistema democrático representativo e quer um modelo mais participativo.

Desde 2011 mais intensamente as pessoas foram às ruas gritar por isso e foram recebidas por quase todos os governos com vioência em vez de diálogo o que leva as pessoas cuja ideologia é de esquerda a se evadir do voto enquanto as de direita permanecem interessadas no sistema.

É assim que chegamos às portas das eleições: com desinteresse.

A morte de Eduardo Campos cria um “efeito mártir” ou “predestinação” a favor da sua memória e de sua substituta que tem, ela mesma, uma aura de mítica.

Uma grande massa de pessoas que estava em estado dormente migra suas intenções de voto para uma expectativa de governo diferente (se seria mesmo ou não não vem ao caso), mas a candidata não sobrevive às críticas e talvez aos debates onde acaba perdendo paulatinamente seu apoio.

Entretanto a esperança de substituição do sistema persiste e, diante da queda da candidata Marina nas pesquisas, ocorre a migração para Aécio Neves.

Infelizmente é difícil buscar evidências que suportem essas hipóteses, mas o comportamento futuro do eleitorado pode nos dar pistas. Por exemplo, uma queda repentina de Aécio nos últimos dias antes do dia da eleição pode demonstrar a fragilidade dos motivos do eleitorado. O apoio ou críticas a ele nos próximos anos caso se eleja também (se as hipóteses estiverem corretas as críticas serão vorazes).

Outras vozes

Imagem ilustrativa:

Jacques-Louis David – Le Serment du Jeu de paume – 1792

 

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