Esse não é um blog de cultura pop, não espere adiante comentários de como é legal aquela referência a um dos 324 mil filmes da franquia. Esse é um blog com reflexões sobre a sociedade hiperconectada em processo de transição de paradigma, uma transição bem gigante, mas o assunto é outro e essa é apenas uma advertência para evitar que você perca seu tempo lendo algo que não é o que está buscando.

Ah! Terá spoiler leve adiante, mas vou fazer o possível para preservar o prazer de assistir a série.

Trilha para ler o post: This is America do Donald Glover

Essa é a primeira vez que vou comentar uma produção da Marvel aqui.

Veja bem, a cultura pop nos diz muito sobre as tendências da sociedade, aliás um bom exemplo olhando para o passado é o que aconteceu com o Faroeste, mas até agora não tinha achado nada nas produções da Marvel que não refletisse algo que estava melhor representado em outras obras pop como O Despertar da Força e vou confessar que tenho uma implicância com o excesso de estereótipos masculinos e femininos e com as tramas que me parecem um tanto datadas.

No entanto me surpreendi positivamente com Falcão e o Soldado Invernal.

A impressão é que a primeira função da série é legitimar a sucessão do Capitão América por um homem negro. Essa é a questão que permeia praticamente todos os episódios, tanto internamente pois o Falcão não se sente impelido a ser um símbolo para uma América que continua a discriminar sua raça, por exemplo, quanto externamente ao reconhecer que as pessoas que asistem à série precisam de uma transição muito bem justificada e um homem negro não poderia simplesmente pegar o escudo do Capitão América e tornar-se símbolo do país. Mesmo o próprio Capitão América tendo lhe passado o legado.

A série precisa dar o escudo para um homem branco, loiro, patriota, soldado (vale lembrar que Steve Rogers nunca foi um soldado de fato) e um reflexo fiel das políticas externas dos EUA para mostrar isso dando miseravelmente errado justamente porque ele representa o que os EUA são hoje sugerindo que o país precisa de mudanças profundas.

Calma! Não vá correndo assistir a série achando que é um tipo de Dogville, ainda é uma história de heróis e francamente, acho que estou forçando um pouco as interpretações.

Apresentar o novo Capitão América abrindo espaço para surfar esses tempos em que representatividade é cada vez mais valorizada por mais gente pode ser a função primária da série, mas ela faz isso com uma certa sinceridade e não para aí.

Também encontrei ali vilões que não são apresentados com o maniqueísmo do passado (tá, admito que isso já estava presente em Thanos, mas ele não me convence). Aliás temos várias camadas de vilões indo do idealismo mal direcionado até segmentos que transitam não à margem da lei, mas em paralelo, como se tivesse regiões da sociedade abandonadas pela estrutura política predominante e auto-proclamada global.

Naturalmente tem pelo menos um momento de discurso inspiracional na série e o achei bem maduro considerando que é uma série de heróis que geralmente resolvem tudo quebrando coisas e ossos.

Ah! Existem boatos sobre um relacionamento amoroso entre Sam (o Falcão) e Buck (o Soldado Invernal) que dariam mesmo um casal interessante, mas sempre vejo com reservas a tentativa de reduzir todo relacionamento a atração física. Acho que é mais um estereótipo que pode ficar para o passado e que reduz a profundidade dos relacionamentos entre personagens.

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