“A melhor maneira de perceber a sociedade moderna é pela cultura de massa, pelos livros, filmes e séries que conseguem atrair as maiores fatias transversais da população”

Sempre passo por isso em algum momento ao falar de como uso a memética para acertar (bem, tenho acertado bem desde 2011) quais são os sentimentos e vieses predominantes na humanidade hoje.

Um alerta muito importante é que essa visão pode apontar os rumos próximos da civilização, mas torna invisíveis enormes coletividades que não tem acesso à cultura de massa e, definitivamente, não podem ser consideradas uma minoria já que, reunidas, representam uma fração significativa de nós.

No entanto a falta de perspectiva é um veneno que tem nos tornado pessimistas, do tipo de pessimismo que nos congela, que nos torna vulneráveis, e entender nosso viés coletivo é essencial para colocar os pés no chão.

Por colocar os pés no chão devemos entender: ver onde estamos ideologicamente e as tendências nas últimas décadas para projetar as décadas adiante.

Observar a cultura pop pode fazer isso como poucas ferramentas, talvez como nenhuma outra. Sem isso ficamos hipnotizados pelos últimos 5 ou 10 anos, que é pouco tempo para perceber movimentações na ideologia coletiva.

Pense assim, por exemplo: as heroínas dos filmes de terror dos anos 70, Rypley de Alien nos 80, Buffy nos 90 até Mulher Maravilha mais recentemente. Existe um encadeamento memético na força dessas personagens.

Mais um alerta antes de ver o vídeo: não se trata de uma conspiração Illuminatti de roteiristas mudando o mundo, trata-se da cultura popular puxar e definir esses perfis da massa de criações pop. O papel dos artistas é ter a sencibilidade de atender essas demandas.

Veja a excelente análise do EntrePlanos sobre a ascenção e queda dos filmes de Faroeste:

Ainda ontem estava conversando com dois economistas que avaliavam o quadro político no Brasil às vésperas de uma das mais estranhas eleições presidenciais na história (não acho muito importante para o escopo desse post que, espero, se mantenha útil em muitos outros momentos políticos e sociais) e comentava que temos errado ao considerar que estamos passando por uma escalada do ultra-conservadorismo ou até do fascismo pois não é isso que a cultura pop está nos dizendo.

Seja em nichos como as séries da Netflix, que nos falam mais sobre classes no topo econômico e social, ou em grandes sucessos de massa como os filmes de hollywood o que vemos é um viés progressista, que valoriza a diversidade e o humanismo, inclusive nos filmes de heróis.

Costumo citar como exemplo uma série de TV, que certamente é de nicho, porque ela tem duas encarnações que são flagrantemente opostas: Battlestar Galactica.

A versão do final dos anos 70 é visivelmente conservadora e tendendo ao fascismo (o povo é incapaz de se gerir sem o poder central militar) enquanto a de 2004/09 é francamente humanista e progressista refletindo os duros conflitos da população civil para se manter à frente da democracia que veríamos explodir na realidade com o fenômeno occupy em 2011.

Quando foi lançado o que talvez seja o pior filme da história de Star Wars, Ameaça Fantasma em 1999, concordei que o filme era terrível (os estudiosos de cinema dirão melhor que eu por que, mas já ajuda ver a análise do Jar Jar Binks feita pelo mesmo EntrePlanos do vídeo acima), mas comentei que talvez Lukas tivesse acertado novamente ao perceber que o século XXI não era mais para o narcisismo em que o herói salva o mundo sozinho e leva o troféu (uma mulher se voltarmos alguns anos para a franquia James Bond) sozinho. Que o século XXI é o século das construções coletivas em que o herói não é mais um indivíduo, mas a colaboração entre amigos que, a propósito, tem relações interpessoais muito mais profundos a despeito de termos medo da interação online estar nos levando para o oposto, entretanto esse já é outro assunto.

Agora vivemos justamente uma era de ouro dos super heróis no cinema, justamente os símbolos do narcisismo e, talvez pior, da solução simplista pela violência, mas será que os heróis que temos visto levar massas a cinemas (e a downloads aham alternativos) tem mesmo essas características? Ainda, são essas características que estão atraindo as pessoas ou talvez fosse justamente por desconstruírem estereótipos, por estarem abraçando a causa da representatividade e da diversidade?

Isso é o que devemos analisar a cada momento para ajustar nossas previsões para as próximas décadas.

O século XXI está sendo um dos mais fascinantes da história da nossa civilização… Por outros motivos também, mas isso, também, é outro assunto.

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