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Truque de Mestre

Gosto de usar a cultura pop porque facilita as associações.

No filme Truque de Mestre, logo no começo, o ilusionista diz que a moça não viu a mágica porque estava olhando de perto demais. Esse é um tema recorrente no filme.

O mesmo acontece com nossa percepção histórica: nossa mente percebe como realidade uma janela de uns poucos anos, mas limitar-se a 5 ou mesmo 10 anos é como olhar para uma fotografia e tentar imaginar a cena completa.

Mas calma! Não vou começar esse artigo pelas invasões bárbaras, muito embora até fosse uma boa ideia ir ainda mais longe, quando nós inventamos ou fomos inventados pela agricultura…

O parágrafo acima é só para você não se limitar às janelas que vou abrir. Aliás, o livro De Primatas a Astronautas é um bom ponto de partida para expandir horizontes.

O início…

Vamos começar a história do caos político do século XXI pelo próprio século XXI com o fenômeno Occupy, que foi quando pessoas em mais de 100 cidades no mundo decidiram ocupar as ruas construindo acampamentos basicamente para dizer que não se sentiam mais representadas pelos governos, que os políticos estavam agindo como se fossem funcionários dos 1% mais ricos do planeta e não como representantes eleitos do povo, ou seja, os outros 99%. Aliás os 99% é outro fenômeno que antecede e engloba o Occupy. Isso foi em 2011.

Trata-se de uma crise de representatividade como se ouve muito nas mídias ditas alternativas porque a grande mídia resiste ao conceito, com bastante razão, afinal ela olha para o mundo pelo viés anterior, o do poder que emana de cima (políticos, corporações/marketing, mídia) para baixo, os 99%.

De onde veio a crise da representatividade?

Vamos voltar rapidinho para 1976 mais ou menos.

Desculpe ter dado a impressão de que ia ficar nesse século e que não faria uma longa incursão pela história da civilização, mas não queria que você se assustasse e parasse de ler, mas a nossa viagem realmente começa aqui: Quando eu tinha 9 anos de idade…

Claro que os meus nove anos não tem nada a ver com isso, é apenas quando comecei a ouvir falar em Internet e ela tem tudo a ver com a crise de representatividade.

Foi somente durante a década de 90 que realmente começamos a falar sobre como a Internet dava poder à sociedade, como ela invertia a pirâmide do poder.

Por exemplo, agora em vez da mídia ser poucos falando para muitos, passaria a ser muitos falando para muitos.

Essa inversão não aconteceu (e não vai acontecer) de fato, mas é inegável que passamos a ter enormes possibilidades de expressão e toda ideia com a mínima massa crítica consegue alguma projeção online e offline (como a Terra Plana =risos=).

Para seguir adiante temos que perceber que não foi a Internet que nos transformou, que nos fez sentir a possibilidade e o desejo de sermos ouvidos, de fazermos parte das decisões e do conhecimento da humanidade, nós na verdade sequestramos a Internet para fazer isso porque essa demanda estava lá, latente, sob a nossa pele por motivos históricos, populacionais e econônicos (vale resumir aqui em uma frase: o capitalismo está se tornando digital e precisa de consumidores cada vez mais conectados e economicamente capazes de gastar com lazer e informação).

Com todo grupo que atinge uma massa crítica pequena tendo a sensação de ter voz e relevância para a Humanidade a próxima consequência inevitável era a insatisfação com a forma como os poucos que falam para muitos (políticos, mídia e marketing) procuram nos representar.

Pare um minuto para pensar em como não são apenas os grupos discriminados por raça, gênero e sexo que não se vêem representados na mídia, no marketing e na política. Tribos de subculturas também sentem o mesmo. Muitas delas inclusive são o oposto dos grupos acima: fervilham de preconceitos, infelizmente.

Enfim: todos sentimos que a Humanidade deve nos ouvir.

Acontece que, para a Humanidade ouvir é necessário muito mais do que a massa crítica mínima para atingir alguma visibilidade no YouTube ou nas nossas TLs nas redes socais. Entretanto não é disso que estamos falando aqui. Voltemos à crise de representatividade

Sem representatividade, o caos

Quando os grandes concentradores de atenção (mídia, política e marketing) se mostram resistentes às necessidades de visibilidade da infinidade de subculturas que se consideram importantes e até essenciais para a Humanidade esses grupos convergem para os nós mais fortes que os representam online.

Pode ser um blog, um canal no YouTube ou até mesmo uma personalidade política totalmente (ou aparentemente totalmente) destacada da estrutura política padrão.

E aí estão fenômenos como o Trump que chega a um cargo político como um “não político”.

É um grande problema porque a Humanidade não “faz liga” se não houver nós centrais para onde a maioria das subculturas possa convergir.

A situação piora quando nossos instintos de sobrevivência nos fazem multiplicar o tamanho das subculturas mais perigosas, as que costumamos colocar sob o guarda-chuva do fascismo, mas eu preferiria algo como sociopatia.

Seja como for, menor do que parece ou não, o caos é real e potencializa a viiolência, preconceitos e polarizações, que também preferiria chamar de embolhamentos já que se tornou um termo comum e me parece representar melhor o caos atual: não são apenas dois lados, mas há uma convergência de várias bolhas para o progressismo ou para o conservadorismo que também preferiria chamar de audácia e precaução, que considero esterótipos base mais representativos e que realmente nos dividem até certo ponto.

Normalmente é bom que umas pessoas sejam audaciosas e outras precavidas, mas no caos e no medo os dois impulsos se tornam violentos verbal ou fisicamente.

Vamos achar um ponto de equilíbrio? Quando?

Tudo que vive é instável, se transforma, se adapta ao ambiente. Isso quer dizer que duvido do equilíbrio estável, mas precisamos pelo menos que não seja um móbile desgovernado para que possamos seguir em frente construindo uma sociedade onde possamos contar com níveis ideais de segurança, possibilidades de realização, respeito, diversidade etc.

Sim. Vamos achar esse ponto de equilíbrio, mas aqui esbarro em um grande problema da abordagem memética para entender a civilização: é quase impossível medir os pesos de todas as subculturas e sua influência nas culturas de massa para fazer uma previsão segura de tempo ou mesmo de rumo real que estamos seguindo.

Estamos seguindo para mais caos?

Quando observamos a cultura de massa, os filmes, livros, séries, músicas que atraem mais mentes fica claro que caminhamos para a diversidade, para uma sociedade menos estereotipadora, menos conservadora, menos assombrada por demônios e mais humana.

No entanto, em primeiro lugar, não podemos ignorar que no momento o Brasil, por exemplo, é o país que mais mata pessoas trans. Que vemos explosões de ódio contra a diversidade e até contra a própria democracia em quase todos os países do mundo.

Talvez isso aconteça porque somos capazes de, ao mesmo tempo, adorar a diversidade que não nos incomoda ou quando aprendemos a gostar do personagem diferente antes e, ainda assim, odiar a pessoa desconhecida na rua que incomoda nossos esterótipos e preconceitos.

Ainda assim tenho dificuldade em fundamentar uma tendência da humanidade caminhar para trás abandonando os avanços no respeito e até admiração da diversidade.

Se, por um lado vemos personalidades que são arautos do ódio atraindo quase 20% dos eleitores brasileiros, também as vemos com cerca de 50% de rejeição. Tenho certeza que seria metade disso há 50 anos.

Não estou sendo otimista, estou apenas observando as mega tendências.

Além disso receio que ainda veremos uma década, talvez duas até conseguirmos visualizar que o ódio está cedendo para a razão, que o preconceito está cedendo para a diversidade, que a estereotipação está cedendo para a fluidez e nesse tempo teremos perdas terríveis e dolorosas, tanto públicas quanto pessoais.

E fazer o que agora?

Tundercats hoooooo! Olho de Tandera, nos dê a visão além do alcance 😉

Ou, como disse lá no começo do texto: não vamos nos entregar à obsessão com as notícias do dia, ou mesmo com as notícias dos últimos anos. Isso nos deixa cegos para o passado… Desculpe, preciso fazer uma pequena pausa para algumas lágrias…

Pode não fazer sentido se você estiver lendo esse texto em alguns anos, mas há poucos dias vimos o Museu Nacional e quase todo o acervo de 20 milhões de peças, o quinto maior e mais importante da Humanidade, ser reduzido a cinzas.

Cegos para o passado…

São duas coisas que nos cegam que prejudicam nossa percepção e raciocínio.

Uma já falei, é não prestar mais atenção no processo histórico do que nas notícias.

A outra são as emoções. Sejam de medo ou de deleite. Nós não pensamos bem quando estamos emocionados. Portanto, antes de sentar para observar o Sol nascendo ou se pondo enquanto organiza suas ideias acalme suas emoções e, enquanto pensa, preste atenção se elas não estão se infiltrando novamente em seu raciocínio.

Emoções são essenciais no convívio humano, na hora de conversar com alguém, por exemplo. Principalmente a empatia, que é procurar ver o ponto de vista do outro como se fosse o outro.

Leitura recomendada

Vou indicar apenas um livro para entender o caos que se estabeleceu por ser o único que vi que, já em 2011, falava no crescimento do radicalismo de direita por causa da crise de representatividade da democracia representativa:

Redes de Indignação e Esperança, de Manuel Castells, tradução de Carlos Alberto Medeiros.

Se quiser ler mais sobre ele antes falei nele no post Manuel Castells, o homem que entendeu o #Occupy.