Essa é a impressão que temos ao ler entrevistas como essa na BBC com o pesquisador Michel Desmurget, que já comentei na sessão Gotas: ‘Geração digital’: por que, pela 1ª vez, filhos têm QI inferior ao dos pais (tem backup do artigo original no meu clipping). Percebi que tenho mais algumas observações a fazer.

Como não tenho formação nessa área achei melhor apenas listar cada ponto esclarecendo o que acho mal embasado.

Em primeiro lugar ter QI inferior não implica de fato em ser menos inteligente e muito menos em ter menos qualificação para lidar com a vida, seja profissional, emocional ou racional. No entanto Desmurget deixa bem claro na entrevista que as pessoas com QI mais baixo serão relegadas a posições inferiores.

Ah! Em tempos de estratégias falaciosas como ad hominem acho que pode ser melhor dizer: não sou recalcado por ter QI baixo. Nas vezes que fiz o teste sempre deu bem acima da média. Só não vejo como isso seria útil para qualificar as pessoas e entendo que serviria no máximo para nos ajudar a traçar estratégias de estudo, por exemplo: “tenho facilidade para esse tipo de raciocínio, então vou tomar cuidado para não negligenciar esse estudo” ou “tenho dificuldade com isso, logo é melhor estudar com mais afinco para dominar o necessário do tema”.

Antes de continuar, como o cara é famoso e deve ter um monte de fã, vou dizer que boa parte das premissas são quase inquestionáveis: o excesso do fluxo de informação gera dificuldades de filtro e de aprofundamento, o acesso a telas ainda na pré-infância é no mínimo perigoso para o desenvolvimento da pessoa etc. O que estou questionando são as hipóteses a partir das premissas.

Mas vamos ponto a ponto…

  1. Quem usa menos tela (séries, jogos, redes sociais) será mais inteligente compondo uma elite enquanto quem tem acesso a essas tecnologias será burro e subalterno. Chega a comparar com a divisão da sociedade em Admirável Mundo Novo de Huxley. Ora! Desde quando a elite é composta pelos mais inteligentes? Ela sempre foi, e não há sinais de deixar de ser, os que tem mais acesso aos bens de produção, ou seja, justamente quem tem mais telas e mais tempo para ficar nelas. Mesmo que essas pessoas fiquem mais burras não serão subalternas;
  2. Os privilegiados terão aulas presenciais e os periféricos aulas em telas… Na prática seria dizer que as parcelas da população que quase não tem água, luz e teto estudarão via Internet… Não parece muito provável. Claro que ele pode estar com a velha postura eurocentrada (ele é francês) que esquece que só 10% da humanidade está lá, no entanto, mesmo nos países mais ricos é fácil supor que o ensino à distância não será definido pela inteligência e sim por uma cultura elitista e, mais uma vez, uma hipótese mais sólida pode ser a de que os mais ricos e privilegiados terão aulas em telas em escolas com interação humana (espero francamente que, mesmo depois da pandemia, valorizemos a importância de socializar os jovens);
  3. Quando jovens são expostos a TV ou videogames eles demonstram perdas em linguagem, concentração, memória, cultura de acordo com Desmurget. Gostaria de ver esses estudos, se são como um dos citados em que os jovens tem que lembrar de palavras no dia seguinte comparado com outros que não jogaram ou se são observações de médio prazo pelo menos. Porque de um dia para o outro, por exemplo, é claro que quem foi distraído depois de ver a sequência de palavras terá menos tempo de fixação. Qualquer que tenha sido a distração. E de que séries e jogos estamos falando aqui? São raras as séries modernas que não são muito mais complexas e linguisticamente mais ricas que as das gerações anteriores;
  4. As telas reduziriam as interações intrafamiliares e a exposição a atividades mais “enriquecedoras” como o ensino, música, leitura e arte… Acho bem duvidoso que as gerações boomer e X tenham sido menos expostas a TV (ou novelas em rádios) ou que acessassem mais leitura, arte e música que as novas gerações. Fico me perguntando também o critério de avaliação das habilidades interpessoais, linguísticas e culturais principalmente dos Z e dos que tem sido chamados de Alfa. Será que não se está tentando enquadrar o comportamento deles a uma cultura que está sendo substituída por outra? Será que o pesquisador considera que a disforia e a abordagem não binária do mundo é inadequada? empobrecida?
  5. “Observou-se que o tempo gasto em frente a uma tela para fins recreativos atrasa a maturação anatômica e funcional do cérebro em várias redes cognitivas relacionadas à linguagem e à atenção.” – Outro estudo que gostaria de ver: pessoas de que idade? Já adaptadas ao uso de telas ou sendo apresentadas a elas? Atrasa a maturação anatômica, mas atrasa também o desempenho? Já vi estudo mostrando uma inversão de ordem no pensamento do internauta: em vez de sentir e depois julgar a tendência é julgar e depois sentir. Seria fruto da necessidade de desenvolver a capacidade de filtrar informações relevantes evitando as que tentam invadir com apelo emocional. Hipótese que pode até ajudar a explicar porque os mais velhos são os mais vulneráveis a fakenews propagadas pelos WhatsApp da vida. Outra hipótese é que os jovens expostos a telas estão desenvolvendo outras áreas do cérebro que passam a usar para aprimorar o resultado da linguagem e atenção para tarefas específicas;
  6. “Atividades relacionadas à escola, trabalho intelectual, leitura, música, arte, esportes” teriam mais poder de maturação que as telas. Gostaria muito de saber exatamente o que está sendo definido como “tela”. Assistir Game of Thrones (e nem gosto da série) pode ser considerado um trabalho intelectual simples? As telas estão repletas de leitura, escola, música e artes. Até esporte tem por causa da pandemia que fez surgirem até bicicletas fixas com telas que simulam trilhas em montanhas, florestas etc. Concordo que as atividades desenvolvidas pessoalmente são mais “poderosas”, mas por inserirem o fator interpessoal, a necessidade de observar a comunicação síncrona, a leitura não só dos olhos, mas da linguagem do corpo dos outros participantes, ou seja, interação social.
  7. Quando ele fala em “ferramentas digitais” necessárias se refere a “softwares de escritório” e “pesquisar na Internet”, coisas que ele ensinou à filha, inclusive. Cara… É isso que ele considera tela? É a isso que ele expõe a filha? Nada que a ajude a entender as complexas interações sociais à distância? O culto aos likes? A proliferação de tribos? A semiótica da comunicação online e geração de dialetos? Anonimato? Privacidade?? A impressão é que ele está ainda nos “late XX”, nos anos 80 ou 90 do século passado: ensinar a criança a digitar para ser uma boa secretária;
  8. “Quando uma tela é colocada nas mãos de uma criança ou adolescente, quase sempre prevalecem os usos recreativos mais empobrecedores.” – Que vem de onde? Se ele estiver falando em jogar a criança num Twitch sem qualquer acompanhamento onde ela possa ser exposta a redes de recrutamento QAnon tudo bem, mas é necessário deixar claro! É evidente que o leque de coisas a que uma criança é exposta numa TV é bem mais restrito e por isso mesmo os pais devem conhecer as telas para ajudar os filhos a encontrarem o que é mais enriquecedor. No entanto, mais uma vez, tenho que perguntar o que é “enriquecedor”. Decorar o tamanho de rios? Explorar uma trama política na França medieval? Exercitar a habilidade motora e percepção de efeitos físicos como gravidade, atrito, força centrípeta?
  9. Deram consoles para crianças que tinham boas notas e as notas caíram 5%… Mano… Menos tempo de estudo, menor nota. Meio óbvio, né? Também pode ser um sinal de que a vida dessas crianças é menos interessante que a experiência de jogar. O problema está no jogo ou na vida oferecida a elas? Será que as notas delas são o melhor critério para avaliar o desenvolvimento delas para lidar com o mundo? Não deveríamos avaliar também seu grau de otimismo com o futuro por exemplo? Vou até deixar mais abaixo a fala da Jane McGonigal no TED sobre como os jogos podem salvar o mundo.
  10. Aliás você notou que uma matéria sobre por que as novas gerações tem QI menor virou uma guerra a séries, jogos e telas? Mesmo que, quanto mais exposição a telas implicasse em menor QI será que é por causa das telas ou por causa da tentativa das crianças de fugirem de um mundo ruim? Ou ainda de um mundo que não conseguem entender ou controlar. Essa redução do problema a um fator é, no mínimo, ingênua.
Jogar pode criar um mundo melhor

Vou até parar a lista de questionamentos aqui apesar da entrevista continuar um pouco ainda.

O que mais me preocupa é que a simplificação do problema e a definição inadequada dos fatores guiam ações que não apenas serão ineficazes, mas também podem ser negativas.

Simplesmente restringir o acesso a telas me parece uma das piores coisas a fazer. Telas são tão essenciais na sociedade moderna quanto a fala, o que temos é que aprender a usá-las, a preenchê-las com bom conteúdo, a filtrar o que não convém no momento ou é nocivo para nós (e pode ser útil a outras pessoas).

As telas são janelas para qualquer coisa e não estão sujeitas a fronteiras ou a controles, o que é bom e ruim na mesma medida.

Para falar de QI e telas (considerando que QI serve para alguma coisa nesse contexto) temos que falar sobre o conteúdo das telas em vez de criar uma aura mística em como se as vibrações delas destruíssem o cérebro.

Photo by Maxim Hopman on Unsplash

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