Este post está na sessão gotas, onde normalmente coloco comentários rápidos sobre algum artigo ou conteúdo, mas dessa vez está mais para um copo d’água 😉

O artigo da BBC ‘Geração digital’: por que, pela 1ª vez, filhos têm QI inferior ao dos pais (também no cliping) é uma entrevista com o neurocientista Michel Desmurget que aponta sobre o impacto das “telas” na redução do QI das gerações mais novas.

Tenho só a entrevista para avaliar e não achei material melhor ao pesquisar além do livro que não sei se lerei.

Vejo problemas nas hipóteses apresentadas, sabe?

No artigo não são listadas as pesquisas que mostram que as crianças expostas a telas tem perda de inteligência, mas vou assumir que estão corretas.

Ficamos com a seguinte situação: crianças expostas a “telas” apresentam queda no aproveitamento escolar, no raciocínio lógico, memória e outras qualidades medidas nos testes de QI.

No entanto fica bem claro na entrevista que tem muitos fatores que não estão sendo levados em consideração e parto de um que me parece enviesar bastante a visão do pesquisador, aliás, dois.

O primeiro é se referir a “telas”. É como dizer que crianças expostas a “cinema” são mais egocêntricas. Qual cinema? Pode-se dizer que a exposição a filmes de heróis específicos (não dá para colocar nem mesmo Pantera Negra e Guerra Civil no mesmo grupo mesmo sendo do mesmo universo de ficção) sofrem esse efeito e que, digamos, 80% das crianças estão expostas a esse tipo de filme.

O segundo ponto está no que ele, aparentemente, considera boa tela ao comentar que ensinou sua filha a usar aplicativos de escritório e a fazer pesquisas online.

Me parece que estamos aí diante de um viés… Não podemos chamar de conservador, mas ao menos conectado ao paradigma funcionalista da era industrial pré-cognitiva.

São numerosos os estudos que mostram que o pensamento criativo, lúdico e o tipo de inteligência que as máquinas devem demorar a reproduzir é o que devemos desenvolver prioritariamente para continuarmos capazes de nos manter no ecossistema produtivo do capitalismo… Sim, eu sei que tem mais uma coisa aí, já vou a ela, como disse, essas gotas estão mais para uma jarra de água 😉

Desmurget vê o perigo distópico da civilização se dividir como na obra Admirável Mundo Novo: Uma elite que estuda do jeito de sempre e é mais inteligente e uma massa de pessoas que vivem felizes em serem limitadas por prazeres superficiais.

Percebe que, só aí tem muitas gotas para acrescentar para formar uma boa hipótese do aprendizado na era das “telas”? Sabemos também que o ensino hoje é incapaz de nos preparar para o futuro próximo. Se vamos falar em em modelos de ensino que dividem a humanidade temos que começar pela necessidade de repensar o aprendizado desde as bases até seus objetivos.

Mas espere aí! Estou dizendo que as “telas” são boas? Que está tudo errado no que Desmurget diz? Não! As “telas” certamente são um perigo, certamente não estamos sabendo lidar com elas, mas o grande problema não está nelas e aqui vou trocar o termo central do artigo para portais.

Uma tela é um portal que pode se comportar como uma janela ou literalmente um portal que nos permite transferir nossa consciência para outros espaços (não só com realidade virtual, realidade aumentada ou jogos imersivos, mas também ao assistir séries e textos que nos transferem para outra cultura).

O problema está nos espaços onde estamos indo através desses portais e esses espaços são tóxicos por causa do modelo de negócio deles, das estratégias para disputar a nossa atenção e como querem influenciar nossa percepção da realidade (e aqui me refiro ao que já comentei ao falar do dilema das redes sociais): estado permanente de alerta para influenciar nosso viés político e reter nossa atenção estão entre os piores.

Espero que nesse ponto você esteja pensando nos avanços de representatividade no cinema, literatura, séries e redes sociais dominadas por jovens e adolescentes (como o TikTok) e apontando o dedo para a minha cara: você tem razão! Essa é uma grande vitória da civilização e o pior que se pode dizer dela é que na verdade quanto mais poder as minorias tem, mais consumo se obtém na cauda longa, mais gente se torna capaz de consumir e mais diversidade alimenta o caldo memético e nossa civilização é cada vez mais influenciada pela evolução memética.

Ainda tem mais! A estrutura deste post não está boa, mas apelo à sua natureza de “gotas” de obsrevações para me defender!

Voltando alguns parágrafos… Será que a inteligência dos testes de QI ainda é uma boa medida da nossa capacidade de lidar com o nosso tempo?

Claro que o ideal é não perder de um lado para ganhar do outro e concordo muito com Desmurget que estamos falhando em ajudar as novas gerações a desenvolver aquele tipo de inteligência, mas sugiro outra hipótese: não é por qualidades das “telas”, mas por falta de qualidade no ensino formal, que poderia até estar (e está na verdade) nas “telas”.

Como convencer jovens que começam a mergulhar numa era memética (no sentido de ser muito mais influenciada pela cultura e criatividade do que pela posse), fluida, sem estereótipos (que considero uma quebra radical de paradigma) e não binária a aprender com um modelo binário.

Aliás… Os testes de QI, de natureza profundamente binária, são eficientes para avaliar o QI de um millênium, Z ou mesmo C (hiperconectados de qualquer idade)? Tenho sérias dúvidas e essa é mais uma fonte de gotas e mais gotas 😀

Vou encerrar concordando discordando 😉

Sim, as “telas” ou a forma como estamos lidando com esses portais está muito ruim e isso prvavelmente era inevitável pois não evoluímos para lidar com esse fluxo de informação, com tal imposição de produzir conteúdo para nos sentirmos parte da sociedade, mas é essencial entender que não é um problema gerado pelas “telas” e sim por essa transição de paradigmas que é inescapável e teremos que descobrir como atravessá-la!

Imagem: PxHere – Crianças em Myanmanr

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