“O início da vida” é por minha conta. O documentário sobre a Lava Jato construído pelo Normose (YouTube) se chama “Lava Jato entre 4 paredes“, mas tive que acrescentar algo ao título que desse uma pista da importância do que está a seguir para quem o lesse.

As quatro partes estarão incorporadas no final, mas antes é importante destacar alguns dos vários pontos que tornam esse documentário uma criação ímpar.

Começo com a utopia do final do século passado, que muitos dizem perdida: A Internet como um espaço livre onde a civilização pode equiparar sua voz à dos poderosos grupos que controlavam e faziam a curadoria das comunicações e de conteúdo até os anos 90. A Internet mudaria tudo, mas aí foi controlada pelos controladores.

É claro que a utopia desejada não veio, uma em que o capitalismo seria aniquilado no espaço de meses e viveríamos na Federação de Gene Roddenbery. Esquecemos que utopias são fenômenos que demoram a se construir. Faça o exercício de trazer um pessoa de grupo discriminado, pode ser até mesmo uma pessoa canhota, dos anos 20 do século passado para os nossos anos 20 e lhe perguntar sobre nossa vida e certamente ela verá muitas utopias realizadas.

Esse documentário só foi possível porque a utopia da descentralização do poder sobre o conhecimento e sua propagação está em curso: ele é obra praticamente de uma única pessoa e, ao assistir você não terá dúvidas, cumpre um papel que apenas gigantes do jornalismo poderiam cumprir no século passado e… talvez nem eles.

A existência de canais como o Normose (e só não listo outros porque a lista seria extensa, mas você pode começar por meu memeroll) também é um sinal de grande amadurecimento da nossa democracia e liberdade de expressão, ainda que não pareça assim, ainda muitas pessoas ainda tenham que se proteger atrás do anonimato ou que tenham pensado seriamente em sair do país quando um governo claramente de matizes fascistas se estabeleceu.

Nesse ponto devo explicar esse blog para quem não o conhece (ou seja, quase todos já que meu alcance é bem específico): não sou um cientista, sou um amador cuja qualidade é ter um talento natural e prática em entender como sistemas funcionam quando vistos de cima. Minha formação é em análise de sistemas e gestão do conhecimento. Pronto. Está explicado.

Quando queremos entender o tempo em que vivemos temos que desenvolver a capacidade de distinguir quem estuda os detalhes desse tempo de quem estuda os grandes fluxos que definem as tendências globais. Essas pessoas geralmente são historiadoras (Normose), antropólogas, filósofas, geopolíticas e outras áreas de humanas. Não há consciência do próprio tempo sem ciências humanas e nem sem perceber “os grandes fluxos que definem tendências globais” que certamente não é um termo técnico, mas espero que seja claro.

No documentário que você verá a seguir (e se você tem a menor preocupação em se informar adequadamente você verá) Normose faz a proeza de começar e terminar mostrando com clareza um grande fluxo, o que talvez pudesse ser chamado de capitalismo fóssil, mas também deve ter um nome técnico que não conheço.

O que você verá nas quatro partes?

A parte um mostra que, para entender a Lava Jato é essencial entender o papel do petróleo na construção da nossa civilização. Ele é o único pilar construtor dela? Não, mas quando o olhamos é o que parece. Fica aqui inclusive a provocação para outros documentários que lancem luz sobre outras estruturas de poder que influenciaram decisivamente a nossa civilização, o que pode nos ajudar inclusive a ver outros em que poderíamos apoiar uma civilização melhor (não utópica, mas melhor).

Para entender o papel do petróleo é preciso começar do final do século XIX e ainda por cima fazer uma síntese que seja clara e sucinta. Normose consegue atingir muito bem esse objetivo.

Na segunda e na terceira partes o documentário se volta para os detalhes buscando a resposta para uma pergunta central: A Petrobras é vilã ou vítima na história?

Talvez você, pessoa que chegou até aqui, ou que pulou vários parágrafos chatos, esteja sentindo uma indignação e praguejando que “É óbvio que foi vítima” ou “Vilã! Podre! Vilã!”. Deixo aqui uma sugestão para a vida: separe suas emoções para os grandes amores, as grandes transformações internas. Para observar o mundo sempre espere que as águas que são o seu lago interior, se acalmem. Tanto na superfície quando nas profundezas o tanto que for possível, mas pelo menos na superfície. Assista as quatro partes.

Para uma pessoa como eu, que procura não observar os detalhes para não perder de vista o quadro geral, essas duas partes centrais são tanto densas (mas não difíceis) quanto importantes e aqui vai outra dica para vida: dê uma atenção especial ao que é difícil para você. Muitas vezes o seu talento real está ali ou, na pior das hipóteses, será importante para compor uma base firme (ainda que toda base possa se modificar) para construir outras ideias e talentos.

Na quarta parte, que quase não existiu (assista para saber por quê), volta-se para o quadro geral, para as articulações globais, mas sem conspirações tiradas de devaneios de mentes assustadas, que costuram a grande disputa comercial global deixando claro o que aconteceu no tabuleiro da história da economia do nosso país desde que ele construiu uma das principais empresas de petróleo do planeta. Trata-se de soberania, política, soft power (bem definido no documentário).

Um ponto essencial: Fontes! Como qualquer pesquisador sério Normose reúne no comentário fixado as fontes usadas em cada episódio. Algo que todos nós devíamos fazer.

Divirta-se?

Sente-se e comece sua sessão. Em geral dizemos “Divirta-se” mas tem bastante coisa revoltante para você descobrir a seguir e a vida também se constrói com algum desconforto.

Ainda assim sugiro: Divirta-se!

Afinal é libertador retirar dos nossos olhos um véu (de tantos) que nos impedem de ver o presente, que nos fazem sentir inseguros a ponto de nos agarrarmos a pós-verdades e ficar vulneráveis a firehosings.

Parte um:

Parte dois:

Parte três:

Parte quatro:

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