Imagem: Luca Zanon

A mente humana e sua fragilidade às emoções é fascinante.

Minha profissão exige que eu seja capaz de me distanciar e manter a coerência. A bem da verdade todos nós devíamos exercitar isso para ter uma visão mais próxima da realidade. Falar é fácil, não é?

Nos últimos dias evitei analisar o que está acontecendo e menos ainda fazer previsões. Precisava entender primeiro até que ponto meu raciocínio está influenciado pelas emoções. Por isso o post anterior sobre a dificuldade de diálogo. Ele diz respeito também à dificuldade interna.

Há anos falamos que existem dois modelos de governo em andamento que geralmente são resumidos como direita e esquerda, mas podem ser chamados também de conservador e progressista e vou chamar aqui de desenvolvimento econômico e desenvolvimento humano.

Só para terminar de contextualizar nenhum governo eleito no mundo (talvez o do Canadá, vai, precisamos de alguma sensação de progresso no planeta) está mostrando empenho real em servir ao desenvolvimento dos ditos 99% e sim em honrar o compromisso com os 1% que os elegem. O que vemos são resultados nas urnas que indicam a esses governos que precisam dar um pouco de desenvolvimento humano para elegerem seus sucessores nas próximas eleições.

Diante disso, quando vemos um governo como o do Temer dar todos os sinais de que será uma guinada apressada para o modelo que vem perdendo espaço nas urnas, nas ruas, na literatura, no cinema, nos teatros, nas universidades, entre os cidadãos no mundo inteiro é desolador. Deprime.

Todavia, quando tivemos a última eleição para presidente cheguei a falar algumas vezes que, com o fracasso das esquerdas em se mostrar capaz de entender os ecos do fenômeno Occupy em 2013, talvez fosse bom que o projeto de governo mais identificado com o desenvolvimento humano perdesse e experimentássemos 4 anos da outra alternativa.

Cheguei a completar as previsões de Castells de que governos mais conservadores seriam eleitos após o Occupy, não por sucesso das “direitas”, mas por fracasso das “esquerdas” dizendo que essa experiência levaria à “remobilização” da sociedade em torno de projetos políticos de esquerda (talvez o Canadá já seja um exemplo disso).

Com isso quero dizer que, por piores que sejam os retrocessos representados pelos possíveis 180 dias de governo Temer e ainda mais dois anos de um governo imposto sem eleições, podem ser menos ruins do que quatro anos e tão reveladores quanto.

Afinal de contas surpreende a falta de cuidado em disfarçar as intenções. Talvez por considerarem que tem apenas 180 dias ou menos para tentar instalar condições para seus planos, mas essas filigranas do poder não são minha especialidade.

Qual seria, então, o Brasil pós-Temer?

Se essas suposições estiverem certas, a menos que seja instaurado um profundo controle das comunicações no país eliminando qualquer possibilidade de manifestação popular, teremos do outro lado desse túnel um governo muito mais coerente com os ideais de diversidade cultural, étnica, de gênero e viés político do que os últimos. Receio que ele seja composto por Dilma, Lula ou similar pois eles podem sair como grandes vitoriosos disso caso a oposição apressada e “fominha” fracasse em provar que eles cometeram crimes. Nesse caso sairão como mártires.

Um governo progressista sob o controle de um dos partidos majoritários atuais dificilmente será um governo realmente engajado, mas talvez seja tudo que podemos obter.

No melhor dos cenários podemos ver um novo partido ou uma coalizão de partidos minoritários escalarem rapidamente na opinião pública. Não vejo sinal disso no momento e arrisco supor que, para isso, os partidos devem estar profundamente identificados com os ideais do Occupy de democracia mais direta, transparência, formação de grupos populares de trabalho, ocupação popular dos espaços públicos, foco em cultura e ciência de base.

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