Imagem: Lena Bell

Nas últimas semanas não me sai da cabeça a história do estudo do átomo no início do século passado.

Nós não tínhamos instrumentos para observar o átomo em si, muito menos seu interior e só nos restava tentar uma abordagem indireta analisando as reações de átomos ou grupos de átomos a experimentos.

Foi o marco do início de uma nova ciência pois até ali só analisávamos o que podíamos observar e testar diretamente. A propósito, nossa mente trabalha assim intuitivamente e mostra dificuldades em aceitar essa estratégia. A tal ponto que a “física dos átomos” por um tempo foi considerada mais do campo da filosofia do que da ciência.

Agora estamos no mesmo ponto no que se refere a entender as nossas estruturas políticas (mídia, políticos e corporações), sociais, culturais, morais: a visão que temos do interior desses “átomos” é turva, provavelmente muito distorcida (como cheguei a comentar em vídeo ao comparar a situação atual com um cabo de guerra)

Resolvi, então, escrever esse post para poderem acompanhar o passo-a-passo da minha abordagem que pode ser útil para outras pessoas, deixar registradas algumas hipóteses dessa estratégia de análise e fornecer alguns pontos de apoio para que outras pessoas possam tentar tomar decisões nesse período conturbado da história.

Há meses venho dizendo que não haveria impeachment, que o Brasil tem uma posição política, econômica e cultural (eco internacional que pode insuflar revoltas em outros países em caso de revolta aqui, por exemplo) importante demais para que se permita uma situação de instabilidade política e econômica prolongada ou profunda no país. Considerava o Lava a Jato um teatro de marketing político que visava apenas desestabilizar o governo com vistas a ter vantagens nas próximas eleições.

Errei, isso está bem claro. Quer dizer, ele serviu para enfraquecer o suficiente para que se inventasse outra razão para derrubar o governo, mas o que importava na minha análise não era o papel da operação e sim os fins almejados e nisso sem dúvida eu errei.

Pode-se dizer que o impeachment ainda não aconteceu, mas o período de até 180 dias de suspensão do governo já é o bastante para deixar claro que errei.

Buscar atentamente nossos erros é um dos pontos cruciais de qualquer estratégia que pretende ter uma visão mais clara dos fatos.

Se errei, então o que pode estar errado?

Minha hipótese trabalhava com duas premissas: a estabilidade política e econômica do Brasil é importante para a estabilidade política e econômica em muitos outros países (incluindo EUA, Canadá e a maioria da Europa) e existe uma unidade suficiente entre políticos, mídia e corporações para garantir esse equilíbrio.

O erro significa que ocorre alguma dessas coisas:

  • Há unidade entre os poderes, mas a instabilidade do Brasil é boa para eles: Se for esse o caso veremos as corporações brasileiras sendo encampadas ou eliminadas por concorrências multinacionais. Descarto essa hipótese por considerar que a burguesia nacional perceberia essa ameaça e se manifestaria, por exemplo.
  • Há unidade entre os poderes, mas a instabilidade no Brasil lhes parece irrelevante. Isso me parece um erro, no entanto a crise de 2008 e outras tantas podem ser sinais de que esses poderes não são suficientemente competentes para identificar as situações de risco. Uma forma de falsear essa hipótese é se não houver uma “caída de ficha” entre os poderes fora do Brasil. A reação da mídia internacional e de políticos internacionais pode dizer muito sobre isso. Também nos dirá sobre o controle que esses poderes exercem sobre o país. Se eles se colocarem contra, mas forem incapazes de reverter o estado de instabilidade, então o controle internacional é frouxo.
  • Não existe unidade entre os poderes e por isso ocorrem crises como a de 2008 e tantas outras. Teríamos um caos nas estruturas do capitalismo o que me parece uma hipótese bem provável e deve ficar evidente se percebemos que não há unidade nas manifestações nacionais e internacionais. De certa forma esse seria o melhor dos quadros pois, sem uma estrutura sólida de poder, é mais fácil alterar essas estruturas.

Podemos ter também um misto das duas últimas hipóteses além de uma série de outras que não listarei já que esse é um post e não uma tese de mestrado que teria que procurar avaliar todas as hipóteses.

Creio que ainda é cedo para descartar alguma dessas hipóteses, mesmo que nos pareça que o governo está agindo afoitamente dando a impressão de uma ação coordenada para preencher todos os espaços do poder enfraquecendo os que o desafiam. Temos que esperar as movimentações no tabuleiro geopolítico global.

Pin It on Pinterest

Share This

Compartilhe!

Mande para suas redes sociais