Tem boas notícias que vou deixar para o fim do artigo.

Talvez seja necessário iniciar com uma observação sobre a adesão que, de acordo com os organizadores, compreendeu 600 mil pessoas. Acho difícil sustentar esse número. 100 mil no país inteiro parece estar mais perto da verdade. No entanto sempre afirmo que a mensagem é mais importante do que os números, então sigamos.

O perfil dos manifestantes no Rio de Janeiro era quase idêntico ao das manifestações orientadas para a população com viés mais à direita. Pelas notícias o quadro parece se repetir em outros estados. Isso pode significar que a população entendeu que há dois tipos de manutenções, as espontâneas como as de 2013, em geral mais tímidas nos últimos dois anos, e as de organizadores com viés de direita ou esquerda.

Esses estereótipos (direita e esquerda) devem ser usados com muito cuidado. Sugiro pensar neles como mnemônicos.

O que vi foi uma manifestação de direita do tipo “selfie com a polícia” em que os organizadores vendiam heróis (Moro, juízes etc) e a desqualificação da classe política, ainda que alguns dos heróis propostos fossem políticos de forte apelo ao viés de direita (nenhum com discurso de esquerda).

A direita era apresentada como fonte de ordem e a esquerda de caos… Me permitam aqui outro mnemônico, esse tirado de Babylon 5. Vorlons e Shadows. No seriado a humanidade rejeita a polarização e o maniqueísmo (e perdão pelo spoiler)

Tratava-se então de partidarismos, de tentar plantar uma simpatia por grupos políticos alinhados com as pessoas que se identificam com um discurso de direita, mas para um partido político prevalecer ele precisa dos votos de todos e não apenas de quem tente para esse ou aquele viés, mas será que a população está aceitando essas duas únicas “caixas”? Direita e Esquerda? Pelo menos uma vez ouvi vaias para os carros de som que passavam, mas voltarei a isso no final.

O carro de som do meio falava pela intervenção militar.

Abordei vários pequenos grupos e pessoas sozinhas perguntando se concordavam com as palavras de ordem dos carros de som e observei uma quantidade razoável de olhares incomodados com a presença daqueles organizadores.

É claro que minhas observações são parciais e as pessoas que abordei não foram aleatórias, eu não me aproximaria de pessoas que não parecessem abertas a diálogo, mas tive a impressão de que poderia ter puxado assunto com a grande maioria ali, mesmo assumindo que não estava me sentindo à vontade com o mote dos organizadores.

O último carro era de monarquistas e a certa altura passou a puxar vaias para os políticos em geral.

Ao redor dos carros via-se pessoas que pareciam mais comprometidas com as intenções dos organizadores. Muitos cartazes sobre aborto, intervenção militar, exaltação de heróis, principalmente o Juiz Moro enquanto mais afastadas e mais numerosas estavam pessoas que não pareciam estar ali pelo chamado dos organizadores. Em outras palavras pareciam dois grupos, um que organizou a manifestação e outro que se uniu a ela.

Logo que cheguei na manifestação (me aproximei pelo final dela e segui até chegar no caminhão que puxava a multidão) encontrei um grupo de pessoas silenciosamente segurando espelhos, se refletindo neles e refletindo a multidão. Linda forma de expressão aberta a várias interpretações.

Antes mesmo que eu seguisse em frente surgiram outras pessoas com questionamentos bem mais explícitos.

Não houve hostilidade até onde os acompanhei.

Quando abordei pessoas satisfeitas com a manifestação e até com as palavras de ordem dos caminhões de som não encontrei a agressividade que vi em outras manifestações. Cheguei a declarar que meu viés era outro e não me sentia muito confortável ali, mas fui recebido com sorrisos e até com um elogio “você então é dos bons”.

E aqui começamos a chegar no que vi de bom na manifestação.

Quando a paixão começa a se dissipar abre-se espaço para a reflexão e para o amadurecimento.

Claro que a polarização continua flagrante. Somente no final da manifestação encontrei um grupo simpático a ela que não poderia ser chamado nem de direita e nem de esquerda… Bem, ok, se você fizer questão, se enquadrariam mais no rótulo de esquerda, mas realmente sugiro que você resista aos estereótipos. Eram o Leonardo, a Gabi Laraúdo e a Watusi.

Os três me ajudaram a perceber alguns memes que podem estar se instalando ou que sempre estiveram lá e tive dificuldade de ver por causa do meu viés mais à esquerda.

Aliás eu já vinha dizendo que era ótimo que as pessoas que simpatizam mais com os rótulos da direita estivessem indo às ruas, elas pareciam ausentes nas manifestações desde o século passado.

No entanto o que percebi essa semana é que, da mesma forma que as pessoas “de esquerda” engolem alguns radicalismos nas outras pessoas que vão para as ruas com elas, as pessoas “de direita” não são um bloco homogêneo, talvez a polarização esteja até se diluindo, mas não percebemos porque, claro, a grande mídia a alimenta ao procurar simplificar o cenário (e times vendem mais artigos) e um minúsculo exagero de um viés oposto ao nosso já nos parece um enorme radicalismo, o que dirá dos exageros maiores?

Resumindo…

  • Parte boa um: a despeito do que estava sendo vendido pelos organizadores eu vi uma massa manifestante muito menos passional, mais crítica do processo, vaiando o que rejeitava, olhando tudo com desconfiança. Era uma massa em geral com tendência à direita, mas percebi que o ânimo geral era o do movimento, da ação. Devemos lembrar que massas são influenciáveis, mas não manipuláveis (por muito tempo).
  • Parte boa dois: percebi uma quantidade razoável de outras escalas de “direita”.
  • Parte boa três: algumas suaves intervenções artísticas questionadoras e outras menos suaves se expressando sem conflito. Pode ser cedo para supor isso, mas a polarização pode estar cedendo

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