Essa semana falou-se muito em um estudo realizado nas timelines do Facebook com 600 mil cobaias involuntárias.

O estudo foi feito no início de 2012 e publicado em uma revista científica e consistia basicamente em favorecer posts dos nossos amigos com palavras positivas ou negativas e monitorar o efeito disso em nós.

O estudo foi divulgado pela mídia cientificamente analfabeta com manchetes como Facebook Manipulou Newsfeed de 600 mil Usuários para Realizar Experimento Científico (Revista Galileu).

É claro que vou falar do risco das nossas emoções serem manipuladas tanto pelo Facebook quanto pelo Google já que são as duas maiores fontes de informação a que somos expostos… Aliás vale a pena comentar também a TV e outras mídias, pelo menos por alto.

No entanto existe uma questão que se coloca acima disso e precisa ser comentada primeiro.

A gente precisa aprender a identificar boa e má ciência, ou melhor, precisamos saber distinguir o que é e o que não é ciência.

Todo vídeo, podcast ou artigo que abrirmos e que quiser falar seriamente em saúde, alimentação, sociedade, política, exercícios, comportamento ou absolutamente qualquer coisa, tentará validar o que diz afirmando que é “científico”.

Realmente o pensamento, o método científico, é a nossa melhor ferramenta para ver o mundo como é e não como parece ser, mas nem tudo que se diz científico realmente seguiu o método científico.

Quem viu Cosmos com Neil DeGrasse Tyson já sabe que abordar o mundo cientificamente passa por:

  • Questionar tudo
  • Descrever bem as experiências para que outros possam reproduzí-la.
  • Reduzir as variáveis (por exemplo, como saber se azeitona faz mal se a pessoa comer 30 outros alimentos que podem fazer mal?)
  • Tentar provar que nossa hipótese está errada e abandoná-la se estiver

Além disso é importante lembrar sempre que pesquisas e conhecimento científico estão sempre em movimento e nunca são conhecimentos imutáveis e absolutos.

Tendo isso em mente fica claro que a pesquisa feita dentro do Facebook não foi uma pesquisa científica e não deve nos dizer nada sobre a possibilidade ou métodos para influenciar nosso humor.

Vou dizer resumidamente por quê, mas você pode se aprofundar lendo as críticas de Donald Frederick (não conheço, mas argumenta com boa base) num post de um dos pesquisadores no FB ou lendo o artigo Emotional Contagion on Facebook? More Like Bad Research Methods.

Você pode ler o artigo alegadamente científico aqui: Experimental evidence of massive-scale emotional contagion through social networks.

A pesquisa é péssima principalmente pelos seguintes motivos:

  1. Só quem tem acesso privilegiado aos algoritmos do FB poderia reproduzí-la
  2. Não foi revelado que modelos (algorítimos) foram construídos para selecionar as cobaias ou as publicações
  3. A “manipulação” foi feita favorecendo mensagens com palavras positivas ou negativas, mas “Ah! Que ótimo” é positiva ou negativa de acordo com o contexto.
  4. A avaliação do efeito foi realizada da mesma forma e detectou uma influência de 0,07%… Sério? Bastaria a semana ser mais quente ou fria que a anterior para causar um efeito maior!
  5. As cobaias foram escolhidas aleatoriamente já que não tinha como traçar o perfil de cada uma delas.

Enfim, sem controle, sem falseamento (hipóteses que, se confirmadas, invalidam a hipótese defendida), sem modelo de testes, sem evidências… Isso não é um trabalho científico.

Ok, mas o que você quer mesmo saber é: Estão me manipulando?

Sim estão. Essa é a resposta curta 🙂

É claro que seria mais realista trocar “manipular” por “influenciar”.

Também é propício lembrar que isso não é recente… Somos influenciados há… Dez mil? Duzentos Mil anos (antes disso não havia homo sapiens).

O que realmente deve incomodar as pessoas é a revelação de que são feitos experimentos involuntários, que algum grupo que vende conteúdo ou fluxo de conteúdo está fazendo experiências para alterar nosso humor.

Ora… Isso também existe desde antes de Gutemberg criar a prensa e não estou falando do uso das religiões para influenciar as pessoas.

A questão toda é que talvez a gente não pense muito nisso, em como quem vive da nossa atenção precisa desenvolver um conhecimento empírico ou científico de como as coisas nos influenciam para que possam manter nossa atenção.

A mídia de notícias sabe que o medo vende mais que boas novas, provavelmente tem a ver com nosso instinto de auto-preservação, afinal o que pode nos matar é de fato mais importante daquilo que nos faz rir… Primeiro vamos permanecer vivos e depois rir, não é mesmo?

Quem faz filmes e séries sabe que aquele é um veículo para o lazer, para nos sentirmos seguros (e acredite, terror tem a ver com se sentir seguro), para nos sentirmos superiores ao mundo (super-heróis) e também para encontrar bons momentos de reflexão sobre a vida o que, em última instância, tem a ver também com auto-preservação.

Livros não são tão diferentes. Quem conhece o mercado editorial percebe claramente como eles seguem as nossas expectativas procurando antecipar o que nos emocionará e nos deixará com vontade de seguir para o próximo volume da série ou para outro livro similar.

Todos querem advinhar ou criar a próxima grande onda: zumbis, distopias, sicklit, aventuras para meninos?

Pode ter certeza que em todo lugar há alguém ou vários alguéns pensando 24h por dia em como te influenciar, como te emocionar e isso não é ruim, isso é e sempre foi parte da vida.

O problema é querer mudar como somos, né?

Sim… No fundo a pesquisa não visava isso e do jeito que foi feita nem seria capaz de fazer nada, mas é claro que as matérias de jornal puxam para esse lado.

Pode-se dizer que estão tentando nos manipular para usarmos menos FB e assistir mais TV e ler jornais que é mais seguro, mas provavelmente foi apenas a manchete que acharam que atrairia mais a nossa atenção pois essa é uma preocupação moderna:

Estamos sendo manipulados? podemos perceber quando isso está sendo feito? Podemos impedir? Como nos livrar da manipulação? Como podemos garantir nossa privacidade? O controle das nossas emoções, pensamentos e, consequentemente, percepção da realidade?

Hoje mesmo minha mãe me ligou falando que meu pai está preocupadíssimo com o exército de 20 mil haitianos milicianos trazidos ao Brasil pela Dilma (ou pelo PT, ou talvez pelos alienígenas lagartoides que governam o mundo).

O terror e os boatos são instrumentos antigos de guerra de informação, ferramentas para influenciar nossas emoções e nos tornar mais controláveis, manipuláveis se preferir.

Então… Não… O FB não quer te manipular (e pelo jeito nem tem bons pesquisadores), ele provavelmente só quer te manter mais “felizinho” ou “felizinha” em sua TL, mas basta ter o Like para isso garantindo que seus próprios amigos vão destacar as cosias que mais te interessam. Se você for uma pessoa sádica sua TL será cheia de outras pessoas sofrendo e assim por diante.

Por outro lado está cheio de gente procurando tocar em seus medos e em seu orgulho e em seu conhecimento para conseguir seu voto, para te vender comida que não alimenta, crenças que não te levam a Deus e sim a doar seu dinheiro para eles.

Então como me livrar da manipulação?

Já que falei nisso tudo creio que tenho essa obrigação, né? Dar pelo menos algumas sugestões.

A primeira é a mais importante: Assista Cosmos com Neil DeGrasse Tyson… Ou qualquer outra coisa que te ensine a pensar cientificamente pois essa é a nossa mais preciosa ferramenta para trabalhar junto com nossas emoções e intuições para entender o mundo e nós mesmos cada vez melhor.

O segundo e último passo é conhecer suas emoções… Se você sente medo, orgulho, enorme compaixão, tristeza, comunhão ou qualquer outra emoção boa ou ruim, então você não está em seu melhor estado para raciocinar, lamento pois sei que é muito bom se sentir superior ou sentir boas emoções, mas elas são ponteiros e não fatos. Elas nos apontam para nossa natureza, forças e fraquezas e devem ser usadas, mas equilibradas pela razão.

Conclusões feitas com muita emoção são como sopas com muita água e sal, mas poucos legumes…

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