Agora, em plena pandemia da covid-19 causada pelo SARS-COV-2, podemos pensar que o nosso maior desafio é desenvolver a ciência, a tecnologia e a justiça social que leve estrutura de saúde para todos. Isso no entanto provavelmente é um dos efeitos do nosso maior desafio e não o desafio em si.

Em 2014 escrevi que o maior desafio da humanidade era o próximo clima, todavia mudanças climáticas como a que estamos provocando agora também são efeitos e não origem de problemas.

Estou aproveitando a fala de Noam Chomsky sobre a Sociedade Global Pós-Pandemia (também no clipping) como base para apresentar as mesmas ideias, mas com um equilíbrio diferente delas no mobile da humanidade e acrescentar alguns paralelos.

Na verdade a fala de Chomsky não é sobre a sociedade pós-pandemia, mas sobre como os 40 anos mais recentes de capitalismo neoliberal (que tenho preferido chamar de sistema anticapitalista de concentração de renda) transformou o indivíduo em peão descartável num jogo de xadrez onde todo o poder está em uma única peça tornando, assim, não só o indivíduo, mas toda a sociedade descartável.

É como no filme Matrix em que cada indivíduo é apenas uma massa orgânica que produz energia para as máquinas enquanto vive em uma ilusão computadorizada e a humanidade se torna escrava.

Vou pular para as soluções antes de continuar pois já basta de ler longos textos distópicos sobre nosso presente real. Mas darei apenas as chaves para elas nesse ponto e retornarei ao grande problema que temos que resolver.

Uma delas é conhecida desde o século passado: pensar globalmente e agir localmente, ou seja, precisamos ter consciência do nosso papel global e influências que sofremos, mas construir cultura e economia local. Por exemplo, uma comunidade ou país cujo melhor recurso para alimentar a população é a pesca deve desenvolver essa atividade e não um crescimento econômico globalizado pois não há crescimento quando a população passa fome, não tem acesso a cultura, não está feliz em viver.

Outra chave, mais complexa, é verdade, é entender que a humanidade passou da lógica da soberania para outra de disciplina e entra agora em uma sociedade de controle da qual não temos como fugir e nossa única saída pode ser entrando nela assim como já entramos em florestas conhecendo os sinais das vibrações do chão, dos ventos repentinos, dos sons reveladores. Sobre isso temos a série do Normose iniciada no vídeo: Sociedade de controle: Como as redes sociais nos manipulam?

Chaves como essas para resolver o desafio não bastam para deixar claro qual é o nosso maior desafio, aquele que pode ser a fonte de todos os nossos problemas.

O desafio que temos pela frente é a dificuldade de entender e lidar com uma realidade que está muito além das nossas capacidades inatas.

Nós, pessoas, evoluímos para tomar decisões rápidas diante de perigos físicos que podem ser resolvidos fugindo, atacando, congelando (ou desmaiando) e envolviam fenômenos observáveis, mas agora estamos diante de uma estrutura social construída sobre os avanços científicos e tecnológicos que são exponenciais transformando toda nossa realidade no espaço de meses. É como viver em um planeta em que o chão se transforma em lava e depois em gelo enquanto corremos até nossas crianças que se perderam mais à frente na planície.

Nós evoluímos para lidar com a constância e repetição das condições e fugir quando elas mudam imprevisivelmente e continuamos a buscar essa segurança. Mesmo quando somos progressistas queremos um mundo que mude de acordo com as nossas expectativas (talvez aí esteja a raiz da fragmentação dos movimentos de grupos discriminados).

O grande desafio é aprendermos coletivamente que tudo muda, que não é apenas a nossa sexualidade ou expressão de gênero que é fluida, toda a realidade é fluida porque nossa percepção e conhecimento sobre ela muda cada vez mais velozmente conforme nossa ciência, filosofia e tecnologia se expandem.

Sem essa descoberta coletiva continuamos sendo facilmente moduláveis (tomando emprestado o termo usado pelo Normose no vídeo mais acima) por quem tiver acesso aos nossos dados, na verdade vamos ceder voluntariamente o controle sobre as nossas vidas e mentes em troca da segurança de uma ilusão de controle.

O resultado é macabro: Passamos a crer que a vida humana vale menos que o “equilíbrio econômico” ou pior, que ela é um preço justo para ter esse suposto equilíbrio a tal ponto que nos expomos à morte por ele. Como os soldados e oficiais do Império de Star Wars que são totalmente descartáveis.

Quando li Sociedade do Espetáculo de Guy Debord passei a ver duas humanidades: uma formada por pessoas e outra formada pelas mentes coletivas que trabalham para corporações.

Assume-se que duas cabeças pensam melhor que uma, mas quando somos colocadas a serviço de uma estrutura passamos instintivamente a sentir que temos que servi-la em troca de proteção e não somos nada inteligentes coletivamente nesses casos. O que criamos são úlceras que procuram produzir sempre mais, vender sempre mais, se expandir sempre mais.

É necessário um controle humano garantindo que a nossa produção seja em prol do compartilhamento de saúde, cultura, dignidade, autonomia e realização para todas as pessoas.

Houve tempos em que fazia sentido, um sentido perverso, temos que lembrar, que toda a economia do planeta se resumisse a um punhado de nobres e legiões de pessoas servas. Essa estrutura persiste. Você pode privilégios como eu e ter os melhores brinquedos, mas ainda vive se vê incapaz de realizar todas as suas potencialidades, ainda vive em um tipo de escravidão dourada.

Paradoxalmente quem concentra os recursos do planeta, os tais 1% com mais riqueza também vivem em escravidão em um planeta que não está sendo desenvolvido e mantido para elas e sim para abrigar corporações e se torna cada vez menos habitável. Essas pessoas sobreviverão a qualquer coisa provavelmente, mas no ritmo que vamos suas próximas gerações viverão com mais restrições que nós e algumas gerações passadas.

A inteligência corporativa coletiva é falha e a inteligência coletiva humana está fragmentada e lutando contra a necessidade de se tornar mutante. Temos que resolver a segunda inteligência o quanto antes para sermos capazes de consertar as inteligências corporativas (e em médio prazo até eliminar o modelo atual de corporação, mas essa é outra história).

E vamos terminar esse texto de um jeito positivo: podemos mudar as inteligências coletivas sem ter que mudar as quase 7,5 bilhões de pessoas no planeta, nós só precisamos desenvolver formas de eleger as melhores de nós e confiar na maior conquista humana: o pensamento científico. E isso já está em processo e, apesar do anticientificismo amplificado recentemente por investimento direto, também é um processo que cresce exponencialmente pela própria natureza da estrutura do pensamento científico.

Há esperança. Há tempo.

Photo by Rodion Kutsaev on Unsplash

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