Finalmente li um artigo sobre o que está acontecendo que me satisfez: Aos meus amigos que não moram na Turquia (traduzido para nossa língua).

Homem sorrindo segurando um livro diante de uma tropa de choque

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Ao que parece há na Turquia os mesmos elementos básicos que vimos nos Indignados na Espanha, na Primavera Árabe e no Occupy (que chegou a estender braços no Brasil mais intensamente no Rio e São Paulo).

Tenho desconfiado que estamos diante do que chamo de corrente memética subterrânea.

Para explicar essa hipótese em poucas palavras imagine que há um oceano repleto de pequenas correntes de água mais quente ou mais fria fluindo abaixo das correntes da superfície e, por algum motivo, todas essas pequenas correntes convergem na mesma direção a ponto de criar uma corrente muito intensa que acaba aflorando onde houver condições para isso. Pode ser que não existam correntes marítimas assim, mas creio que a metáfora é bem ilustrativa.

O conjunto de acontecimentos das últimas décadas como redução das fronteiras culturais, confronto entre velha economia e nova (como disputas a respeito do que seria propriedade intelectual), escândalos políticos e corporativos demonstrando a inadequação desses sistemas a uma civilização a caminho de se tornar hiperconectada e diversos outros fatores a estudar acabam plantando em todos nós aproximadamente os mesmos anseios, as mesas expectativas, as mesmas insatisfações.

Para que aconteçam grandes mobilizações, grandes revoluções populares (algo raro há séculos em virtude de ser impossível equiparar o poder de exércitos sem apoio de uma oposição rica o que retira o caráter popular da revolução) é necessário que exista consenso automático, sem necessidade da colaboração da grande mídia capaz de unir milhões de pessoas.

A hipótese das correntes meméticas subterrâneas pode explicar essas mobilizações que vem ocorrendo contando praticamente só com Twitter e Facebook para unir os grupos (e eles estão longe de ser meios de comunicação em massa).

Também colabora para isso o zeitgeist (que também pode ser alimentado por essas correntes subterâneas) que parece reunir algumas demandas em comum para vários povos:

  • Liberdade de expressão.
  • Respeito aos Direitos Humanos.
  • Controle sobre as decisões que tomo sobre o meu corpo.
  • O direito de me reunir com pessoas em qualquer parte da cidade sem ser considerada uma terrorista.

Esses são tirados do texto mais acima de uma das manifestantes turcas que inclui algo que eu não tinha percebido antes, a reação contra o avanço de totalitarismos disfarçados de religiões.

Outras reinvidicações são justiça social e mais participação nos processos de decisão tanto governamentais quanto de corporações quase todas convergindo para um conceito que já foi chamado de hiperdemocracia.

Em vários países parece haver um consenso popular de que o povo local é dócil, o mesmo acontece no Brasil, mas vemos crescer aqui os mesmos problemas que vem assolando outros países, incluindo o avanço de um conservadorismo que despreza a empatia e humanidade.

As diferenças culturais entre povos pode produzir diferentes tempos e formas de resposta, mas não há qualquer evidência que demonstre alguma diferença real entre qualquer grupo humano: sob a mesma pressão e unidos pelos mesmos anseios as reações serão similares.

Em todo caso creio que estamos assistindo ainda o aquecimento do que cheguei a chamar de fenômeno occupy, mas certamente precisa de outro nome.

Por hora vemos afloramentos esporádicos estimulados por uma ação que é uma gota d’água, mas ainda não vimos realmente o ponto de ruptura capaz de unir todo o globo em torno dessas causas que estão se mostrando comuns.

A minha opinião é que passamos por um período que exigirá de nós algum tipo de mobilização planetária, principalmente para que finalmente assumamos o papel de protetores das condições de vida no planeta (o clima é realmente o maior risco que estamos passando no momento).

Esperemos que essa nova civilização hiperconectada seja capaz de se mobilizar de forma civilizada. Seria uma novidade, mas esses são tempos com muitas novidades.

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