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– Agora estão falando que Marighella era um herói, Roney! O Marighella!

O amigo do outro lado do telefone estava perplexo com o caos cognitivo das pessoas e tomou como exemplo absurdo o apreço de outro amigo de esquerda pelo personagem normalmente visto como um terrorista sanguinário.

Estando ao telefone achei melhor não alimentar esse rumo de conversa e me limitei ao “pois é…” e deixei o assunto ir para outros lados, mas fiquei pensando… Afinal o que eu sabia sobre o Marighella? Quem foi ele? Por que estão falando nele agora.

Teve o sequestro do embaixador dos Estados Unidos, caso você esteja voando isso foi lá pela década de 60 do século passado.

No entanto é claro que a pessoa que invoca o nome de Marighella não deve estar sugerindo que sequestremos representantes de outros países, então o que mais esse homem fez?

Bem, ele escreveu um mini manual para o guerrilheiro urbano.

“Ah! Ele era black bloc, então?”

Hummm… Não exatamente.

O que ele dizia?

Vou começar com um aviso: não acho que as táticas dele se apliquem no século XXI, mas vamos chegar a isso.

“Quando veem que os militares e a ditadura estão a ponto do abismo, e temendo as consequências de uma guerra civil que já está a caminho, os pacificadores (que sempre se encontram dentro das classes governantes), e os oportunistas de ala direita, amigos da luta sem violência, se unem e começam a circular rumores detrás ‘das cortinas’, pedindo ao carrasco eleições, ‘redemocratização’, reformas constitucionais, e outras bobagens desenhadas para confundir as massas e fazê-las parar a rebelião revolucionária nas cidades e nas áreas rurais do país. Mas, observando os revolucionários, as pessoas agora entendem que seria uma farsa elas votarem em eleições que tem como único objetivo, garantir a continuação da ditadura militar e cobrir os crimes do estado.”

Carlos Marighella

Vou destacar: A redemocratização, reformas constitucionais e outros avanços democráticos sem uma revolução não seriam apenas uma concessão ilusória?

Penso imediatamente em Número Zero, do Umberto Eco, em que vemos a longevidade de sistemas totalitários mesmo décadas depois que eles “deixaram o poder”.

Não vemos hoje que os mesmos poderes que orbitavam os militares durante a ditadura continuam orbitando o poder incluindo o governo recém eleito? Ou talvez fosse mais preciso supor que os governos continuam orbitando os mesmos grupos.

As ideias e o mini-manual de Marighella falam da importância das mobilizações e ações serem populares, sem grandes ídolos ou vilões. Fala da importância dos centros urbano manterem a pressão sobre o sistema enquanto os trabalhadores rurais se organizam para realmente desestabilizar o sistema que oprime os cidadãos, sistema esse que seria controlado não por indivíduos, mas pelas entidades despersonificadas dos bancos e da grande mídia.

Percebe como vai ao encontro da percepção geral da esquerda e… na verdade mesmo de quem tem o viés à direita, tirando, claro, as diferenças nas formas de se manifestar buscando justiça para seu grupo social diante dos grandes lobbys.

Enfim, para que serve, então, o Marighella?

Os tempos são outros. Hoje apenas 15% da população está nos campos e sequer faz o mesmo sentido uma revolução rural para desequilibrar o sistema dando ao povo condições de negociar com o governo financiado por grandes corporações.

A propósito considero um erro o caminho revolucionário que rompe com estruturas abrindo espaço para que outros interesses sequestrem o movimento estabelecendo uma nova estrutura de controle e exploração da população.

Um outro adendo aqui. Por exploração me refiro ao que todos nós vivemos. Podemos até ter bons salários, mas se o governo não trabalha para nós, se ele trabalha para “o crescimento econômico” em vez do desenvolvimento humano, então temos um tipo de programa de transferência de capital dos cidadãos para as corporações. Fato que podemos comprovar com a crescente concentração de capital que vimos nas últimas décadas.

Aliás, concentração de capital é nociva para o capitalismo digital, que precisa do máximo de pessoas consumindo bens de segunda ou terceira necessidades para florescer, mas esse é outro assunto. Fim do adendo.

O Marighella pode servir para ajudar a reduzir a polarização, o hiato que se formou entre a população que quer a mesma coisa: um sistema que nos respeite, nos garanta segurança, urbanização, prosperidade etc em vez de criar uma super-economia com mega corporações que sugam para si os recursos dos cidadãos e cidadãs.

Na verdade não o Marighella, mas a síntese das suas ideias.

Por outro lado temos outros pensadores (aham… como eu mesmo hehehe… Enfim, há outros muito mais conhecidos) que trazem a mesma essência em suas ideias, mas sem o caráter combativo e violento que, naquele momento, era inevitável.

Acho lamentável quando pessoas de esquerda destacam justamente esses aspectos das ideias de Marighella, os que deveriam ficar no século passado a menos que vejamos nesse século os governos voltarem à repressão explícita e armada dos direitos democráticos (o que continuo achando pouco provável).

Nota final: você que está me xingando por fazer apologia a um terrorista ou coisa parecida, prove que leu o que escrevi colocando “Ananás” no fim ou n começo do seu comentário 😉

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