Imagem: Cosmos, com Neil Degrasse Tyson (assistam a série!)

Vamos a uma abordagem oriental: começar pela conclusão.

Uma vez que conjuntos de ideias desconectados da realidade são ditos verdades religiosas que devem ser respeitadas por todos e vão sendo infiltrados em escolas, política, empresas e até em meios científicos torna-se vital para a sobrevivência e desenvolvimento da nossa civilização definir condições que validem ou invalidem ideias ou conjuntos de ideias como elegíveis para o senso comum.

Em português plano (desculpem pela brincadeira linguística com plano e plain): Quando nosso sistema de ensino é tão fraco ou nosso desenvolvimento científico e tecnológico é tão veloz que grande parte da civilização não consegue ver a diferença entre ideias validadas e opiniões ou crenças nos tornamos manipuláveis por quem for capaz de nos oferecer a sensação de um chão estável onde apoiar nossa visão de mundo.

Vivemos em uma civilização científica-tecnológica. Isso certamente é inevitável. Não deixaremos de usar eletricidade, transportar pessoas e produtos ao redor do planeta, produzir livros, filmes, músicas, buscar novos confortos, explorar novas fronteiras.

Assim como no tempo que vivíamos em uma civilização predominantemente teocrática era essencial entender os desígnios ou pelo menos as leis dos deuses, agora temos que ter uma compreensão mínima tanto da ciência do cosmos e da vida quanto da tecnologia que modifica o ambiente à nossa volta e na Terra.

No entanto ainda estamos na transição de uma civilização composta por tribos teocráticas para um tipo de aldeia global que não poderá se unir pelas crenças e provavelmente se unirá pela arte (cultura) e pela ciência. Somente nelas podemos achar consensos que nos unam além de respostas para os nossos problemas criados pelo encontro de culturas em um planeta cada vez mais conectado e pelo uso da tecnologia.

É compreensível que a cultura religiosa, tradicional e dogmática resista a transformações. Essa resistência provavelmente é até útil como atrito que impede que percamos contato com nossa identidade permitindo que amadureçamos a uma taxa segura, mas o ritmo da evolução memética cresce exponencialmente impondo que tenhamos tradições cada vez mais flexíveis.

Assim vemos quase uma onipresença de vídeos e textos religiosos que se esforçam para negar o mundo real se entrando a pensamentos tão desconectados dos fatos que já não parecem falácias, mas sim delírios.

Os argumentos mais comuns nos últimos anos procuram negar quatro big bangs: o Big Bang, o surgimento da vida, a especiação e a consciência (comentei os quatro nesse post em meu outro blog).

A situação se torna mais séria por ter se formado uma conexão entre esse viés religioso delirante e o viés político de direita aumentando o desequilíbrio entre as ferramentas cognitivas que dispomos para perceber e ordenar o mundo.

A civilização se polariza entre esquerdistas que adotam a ciência e tecnologia e direitistas que adotam mitologias religiosas.

Claro que essa é uma simplificação e estou falando do resultado quando analisamos o conjunto. Há indivíduos no lado oposto de cada curva, claro, e você deve estar reclamando se é esquerdista teocrática(o), direitista cientificista etc. Aliás os próprios conceitos “esquerdista” e “direitista” são uma simplificação perigosa com as quais nem concordo e uso aqui apenas como recurso explicativo.

A grande verdade é que somos livres para experimentar outras ideias, outros vieses e até devemos fazer isso pelo nosso bem e da civilização.

Precisamos de religiões que se conectem humildemente ao que vamos descobrindo sobre a criação em vez de submeter seus deuses às limitações do intelecto humano.

Precisamos de posições políticas que não se identifiquem como religiosas, anti-religiosas, conservadoras ou progressistas e sim que se sustentem em bases sólidas e racionais. Laicas.

Até mesmo individualmente temos que ser laicos em nossa manifestação pública. A crença e a fé são instrumentos para tecer nossos caminhos individuais, nunca os caminhos coletivos, preferencialmente nem mesmo dos nossos amigos ou parentes que terão seu próprio conjunto de crenças e fé.

Sobre esse último ponto há o problema dos fatos e teorias que descrevem como o Cosmos funciona desbancarem as bases de muitas religiões, mas ora! isso já aconteceu muitas vezes antes e soubemos ajustar nossa fé ao mundo real. Ninguém mais mata ou quem trabalha no sábado, ninguém toma para escravo o filho de quem lhe deve dinheiro e, espero, ninguém acha que fomos feitos literalmente de barro ou que Eva foi feita de uma costela de Adão (muito embora uma das minhas avós tenha morrido se recusando a acreditar que os homens não tinham uma costela a menos que as mulheres).

Só precisamos aceitar que outras coisas que achamos que eram literais na verdade são simbólicas.

Para finalizar: há quem tenha receio de não existir deslumbramento na ciência, no mundo visto como ele realmente é, mas isso é um erro! Sugiro, além da série Cosmos que ilustra o post, livros como Para Explicar o Mundo de Steven Weinberg..

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