Em A Prisão Invisível que Ameaça a Civilização falei sobre um tipo de blastosseita (blasto dá noção de “de onde germina”, como o micélio de onde brotam cogumelos) onde diversos líderes de seita tem conectado suas teias aproveitando que uma infinidade de pessoas orbita ao redor dela vulneráveis ao primeiro líder que ecoar com seu viés de confirmação ou aliviar suas angústias.

De acordo com essa hipótese não haveria um líder, o que é bem satisfatório para quem assume (quase sempre corretamente) que toda hipótese que pressupõe um controle global certamente descarrilará em uma teoria da conspiração lunática.

No entanto vou me arriscar e sugerir que pode existir, sim, um pequeno grupo de pessoas que alimenta essa blastosseita, afinal vendo a cobertura jornalística de casos como o Cambridge Analytica ou dossiês sobre os jogos de interesse ao redor da Lava Jato, percebemos como é estreito o topo da pirâmide que utiliza a suposta blastosseita: Indústria bélica, fóssil e agronegócios para citar as mais óbvias. Com certeza os líderes dessas corporações se esbarram.

Por outro lado temos o capitalismo digital criando seus bilionários (Facebook, Netflix, Google e até Apple) cujos interesses com certeza divergem em vários pontos das corporações que dominaram paradigma anterior, o capitalismo industrial. Se bem que o capitalismo de concentração de capital (que sempre me parece algo bem anticapitalista) persiste em todos os casos…

O impulso lógico de rejeitar qualquer estrutura de poder supra humana pode nos impedir de estudar as redes de poder no patamar dos 0,01% que, mais do que reter capital, retém poder político e midiático.

Ainda que seja interessante explorar essa hipótese desconfio que os interesses dessa elite estão tão sedimentados na estrutura política e econômica que simplesmente não precisam se esforçar para garanti-los e pouco lhes importa os avanços dos Facebooks e Amazons da vida. Além do mais eles também não precisam agir pois os “subgurus” que usam a blastosseita para obter migalhas de poder político, econômico, midiático etc acabam inadvertidamente alimentando os interesses dessa elite: a manutenção da estrutura anterior, ou seja, uma economia baseada no sequestro de capital para as mãos de poucos, no comércio de armas, fontes fósseis e exploração da mão de obra dos ditos 99% (note-se aí o contingente de 0,99% entre os dois).

O que estou pensando aqui é em abordar o problema pelas bordas, pelos “subgurus”.

O Guru…

Lembremos do experimento de Stanford, ou melhor, da Banalidade do Mal que nos mostra que somos capazes de agir de acordo com as regras de líderes praticamente virtuais, frutos de um sistema burocrático e titânico interferindo na nossa própria capacidade de julgamento e consciência ética e moral.

Assim, proponho, é o guru do que alguns tem chamado de mega teoria da conspiração e estou chamando aqui de blastoseita: O antivaxer, o terraplanista, o globalista, o negacionista (climático, científico etc), o “conservador, cristão, pela família” que frequentemente serve de apresentação para pessoas tomadas pelo preconceito e rejeição aos direitos humanos não tem um guru bem definido. Elas se apoiarão na personalidade que se disser comprometida com “a seita”.

Uma evidência anedótica: meu vizinho da seita “anticomunista” que gritava “Aécio” na janela, passou a gritar “Mito” e certamente gritará o próximo nome que se colocar contra os comunistas alienígenas lagartóides, pedófilos, satanistas. Exagero um pouco aqui pois dificilmente alguém reúne todos esses delírios, mas a dissociação da realidade que temos visto torna a possibilidade assustadoramente aceitável.

A propósito seria interessante fazer um tipo de enciclopédia das seitas satélite da blastosseita, mas isso é assunto para outro post.

O importante é que o guru não é uma figura bem determinada para essas pessoas e pode ser trocada a qualquer momento sem grande dificuldades. Saindo das evidências anedóticas, estudos tem mostrado, por exemplo, uma migração considerável de Bolsonaro para Moro ou mesmo Ciro Gomes, três personalidades muito diferentes. Nos EUA vê-se grupos Q-Anon delirando um tipo de ressurreição de JFK, mas sem abandonar a adoração a Trump mostrando tanto que o guru não precisa ser real quanto a falta de importância do perfil do guru.

Penso que é importante assumir que o guru não é uma peça chave dessas seitas e tentar desqualificá-los não ajuda a diluir a seita. Primeiro que é difícil desqualificar alguém cuja a qualificação parece não importar, segundo que os seguidores não terão qualquer dificuldade em trocar de guru.

Para dissolver essas seitas temos que conhecer e dissecar seus dispositivos linguísticos, sociais, culturais e comunicacionais. É. Não falei em crenças porque me parece que elas mudarão em resposta às outras mudanças como no analista que não se importa com o que originou um trauma e sim com o que é capaz de dissipá-lo.

Por isso estou escrevendo esse post agora, porque tem surgido livros e artigos jornalísticos que abordam justamente essas características.

Como resgatar alguém de uma seita?

Na pesquisa para esse post conheci o trabalho de Amanda Montell, Cultish: The Language of Fanaticism, que tem sido usado como referência por alguns artigos. Entrou na minha lista de leituras.

A linguagem é uma ferramenta muito importante na construção de realidades e grupos identitários. Pelo bem ou pelo mal.

A língua secreta das seitas

Veja o vídeo da BBC no YouTube (não está liberado para incorporação).

  • A linguagem ajuda a obscurecer a verdade e estabelecer uma ideologia e afastar as pessoas do mundo ao redor
  • Fala em 7 métodos de linguagem:
    • Bombardeio de amor (elogios): prefiro chamar de apelo ao ego ferido e ao sentimento de solidão
    • Código inclusivo: palavras carregadas de emoção e terminologia própria da seita.
    • Frases de efeito / termos carregados como
      • Suicídio revolucionário
      • Vacina experimental
    • Cooptação de termos e conceitos
      • Como o uso de termos científicos em outro contexto: engramas, quântico…
    • Eufemismo para a morte
      • “Melhor morrer na pandemia que perder a liberdade”
    • Clichês destruidores de raciocínio (Robert Jay Lifton)
      • “Não se deixe governar pelo medo” ou “Deixa de ser maricas, tem que trabalhar”
      • Lida com a dissonância cognitiva
    • Ideologias organizacionais: podiam estar no item acima, mas separei. Consiste em fundir o produto de uma empresa ao “branding” ou seja ao que significaria usar aquela produto, ao símbolo que é fazer parte daquilo. No caso de seitas a pessoa se torna automaticamente especial por estar “do lado da moral” ou “agir de acordo com Deus”.
      • Dá exemplo do mundo fitness onde podemos encontrar frases como “encontre seu espírito”, “aspirar e inspirar” ou “mude seu corpo, comece sua jornada” muito embora, no escopo desse post, esse não seja um grande problema.

Ex membro de culto responde perguntas

Janja Lalich, socióloga que já participou de um culto

Em geral os cultos ou seitas giram em torno de um líder, um guru, e é isso que ela aborda mais nesse vídeo, coisas como o perfil deles e como criam fidelidade e controle. Vou destacar os pontos que achei mais interessantes.

  • Recomenda o filme O Mestre, que é sobre o fundador da cientologia, como boa representação de um culto e destaca a importância do carisma
  • Líderes de culto são sedentos de poder e são narcisistas, nem sempre são esquisitos como os vemos depois que são revelados
  • A suspensão da individualidade é parte do estabelecimento de cultos o que pode se manifestar com o uso de uniformes por exemplo
  • Mesmo quando são cultos suicidas eles não sentem que estão se matando, podem acreditar que irão para um outro nível de consciência ou que “serão livres” por não usar máscara ou se vacinar
  • Ela fala sobre os Moonies, seguidores do reverendo Moon que persistem mesmo depois da sua morte. 5min30s
  • As pessoas recrutadas por seitas não são malucas, o processo de recrutamento começa discreto e vai envolvendo as pessoas em sistemas de suspensão do pensamento crítico e individualidade (notas minhas)
  • O que define um culto: um líder carismático e narcisista, um sistema de crenças transcendente, sistemas de controle e sistemas de influência
  • Como deixar um culto? Isso é muito importante: a pessoa precisa de um lugar fora que a aceite… Ao agredir a vítima do bolsonarismo, por exemplo, ajudamos a mantê-la no culto…
  • Cultos não são ilegais, mas frequentemente se envolvem em atos ilegais. Alguns procuram se tornar religiões para se esconderem atrás da liberdade religiosa
  • Uma diferença entre religiões e cultos é que na religião temos liberdade e pensamento livre
  • Ela esteve em um culto político de esquerda. Um caso incomum em que as pessoas notaram que a organização estava se tornando tóxico e decidiram dissolver o grupo
  • Recrutados não sofrem lavagem cerebral do dia para a noite, é um processo de ressocialização que começa por um interesse legítimo e o compromisso de fidelidade frente ao grupo
  • Um culto pode reunir apenas duas pessoas? De acordo com ela, sim, e eu diria que existem cultos de uma única pessoa, como no caso do unabomber.
  • As pessoas recrutadas em geral tem dúvidas, mas o sistema de crenças e de controle as impedem de questionar o que está acontecendo até que as dúvidas se tornam presentes demais para serem ignoradas
  • A Internet oferece um campo de recrutamento livre das limitações geográficas (nota minha)
  • O que acontece com as pessoas quando um culto entra em colapso? Elas perdem a sustentação, o chão onde pisavam e podem até formar grupos derivados
  • Líderes de culto sabem que são líderes de culto? De acordo com ela praticamente todos são golpistas e sabem o que estão fazendo. No caso de vários grupos criados à partir do que chamei de blastosseita, em que o líder não é uma pessoa, os próprios mitos em torno de quem as pessoas se reúnem seriam na verdade cooptados pela seita também

Vale a pena assistir também How Online Conspiracy Groups Compare to Cults? também da Wired que traz sugestões de como resgatar pessoas dos cultos antivax, Qanon etc.

Cult Deprogrammer Reviews Cults From Movies & TV | Vanity Fair

Rick Alan Ross ajuda pessoas a saírem de seitas/ cultos desde 1982
  • Qualquer pessoa pode ser cooptada por um culto se estiver só, com inseguranças pode ficar vulnerável
  • “Large group awareness training” (LGAT): Juntam pessoas em seminários de vários dias com outros membros do grupo com pouco tempo para comer e até dormir
  • Espelhar as emoções e sofrimentos pode ser uma forma de dissolver a individualidade da pessoa sendo cooptada fazendo-a se sentir como parte de uma coletividade (pode ser usado positivamente também, imagino)
  • Suprimir a individualidade é uma estratégia muito comum em cultos
  • Cultos desenvolvem estratégia para manter as pessoas cooptadas longe dos contatos exteriores. Em geral impedindo o acesso físico, mas imagino que possamos incluir a estratégia de demonizar quem está fora do grupo rotular qq pessoa que discorde de “esquerdista, comunista, defensor de bandido”
  • A pessoa sente que não há um lugar para ela e o culto lhe oferece um ambiente (ou ideologia) onde ela é aceita como é
  • Evita-se que novos membros conversem entre si. Isso é fácil quando o recrutamento é online
  • Vivemos uma época em que quase todas as pessoas sentem que falta algo. Sejam inteligentes, ricas, cultas e até bem relacionadas
  • Cultos podem procurar recrutar pessoas que são símbolos de poder (cultas, ricas, privilegiadas) e tomar para si essa autoridade
  • Obviamente o uso de falácias, desmoralização de quem questiona as crenças do culto ou seita e uma postura agressiva que reprime oposições são estratégias comuns
  • Prova social: recorremos às pessoas à nossa volta para decidir o que é real e o que não é. Em seitas ou cultos online “pessoas à volta” pode ser uma legião de robôs replicando uma mensagem em redes sociais etc
  • A pessoa cooptada pode acreditar que questionar a ideologia é um ato terrível, até contra suas divindades
  • Mudanças de comportamento, corpo, hábitos, humor, forma de vestir e até de se mover são características que podem acontecer em um período curto de tempo
  • Um dos pontos mais importantes: Geralmente sentimos que tem alguma coisa errada. Confie nos seus instintos. Se a ideia “será que isso é uma seita/ culto” passa pela sua cabeça, investigue!

Para se aprofundar…

Imagem por Chris Charles no Unsplash

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