Imagem: Robin Williams no filme Toys

Existe um certo censo comum de que as coisas que mudam a civilização precisam ser virais e imensamente populares.

Não precisam. Aliás, talvez as forças mais intensas impelindo nossas mudanças sejam as menos perceptíveis.

Hoje parece que a Internet está mudando o mundo, dando poder às pessoas comuns colocando-as em condições de enfrentar grupos políticos, de mídia e corporativos organizados. E está. Todavia a Internet é um instrumento de mudança, ela não é a causa da mudança.

Uma hipótese é que a grande causa de mudança é o nosso crescimento populacional que cria um desejo de interação maior. Como a formiga Z da animação. Ela não consegue lidar com sua insignificância, ela quer ser alguém.

No mundo humano ser alguém é fazer um canal no Youtube, ser compartilhada no FB ou curtido no Instagram.

No entanto esse ainda não é, na minha opinião, o grande precursor de mudanças. Talvez não exista um único precursor, mas o importante em primeiro lugar nesse post é percebermos que as grandes mudanças que vemos no mundo podem não ser realmente as maiores mudanças por que estamos passando e nem mesmo as fontes dessas mudanças.

Talvez ajude se lembrarmos que há 20 anos se fala que a Internet tinha invertido a pirâmide do poder da comunicação e agora o cidadão tinha tanta ou mais voz que a grande mídia. Bem… Isso não aconteceu de verdade, não é? Em parte porque as conexões online entre pessoas continuam presas às nossas capacidades de interação offline (isso pode ser mudado com uma ferramenta que nos faça agir como uma colméia) e também continuamos sendo emocionalmente influenciáveis. Além disso a estrutura de poder está em muitos outros sistemas além do de comunicação (constituições, indústria, entretenimento).

Quais seriam então as forças motrizes de mudanças da civilização?

O que realmente nos impele a mudanças são as transformações cognitivas. Vamos a uma pequena…

Quando surge o modelo Netflix deixamos de organizar nosso dia em função da programação da TV. Deixamos de esperar que o conteúdo venha até nós e nos acostumamos a ir até o conteúdo.

Toda mudança cognitiva se propaga para outras áreas da nossa percepção da realidade porque nossa consciência trabalha por associação.

As maiores mudanças cognitivas dos últimos séculos vieram de mudanças cognitivas na forma de fazer ciência. Mudanças essas que apenas um percentual ínfimo da civilização experimentaram diretamente (e por ínfimo talvez estejamos falando em 1%).

Primeiro veio Newton que encerrou a abordagem “para que as coisas acontecem” estabelecendo a “de que forma as coisas acontecem”. Em seguida o estudo dos átomos finalmente atravessou a fronteira entre a ciência do observável para a do especulável. Por fim Einstein nos apresentou a um universo relativístico.

Essas três viradas cognitivas podem ser as bases de toda a revolução cognitiva que vemos hoje. Newton nos estimulou a sermos mais humildes em relação ao nosso papel no Universo (as coisas não acontecem para satisfazer nosso desejo de “sentido” para a vida), Bohr e seus contemporâneos levaram a razão ao intangível e Einstein estabeleceu um novo caminho para a empatia: para entender a realidade do outro tenho que vê-la relativa a ele.

E o que está mudando a civilização hoje sem que percebamos?

Claro que a ciência continua tendo um impacto conforme ela inspira artistas, cineastas, escritores e outras peças chave da civilização, mas temos outra grande força que começa a se estabelecer: a inteligência artificial e até um tipo de cognição artificial, ou seja, um sistema de inteligência artificial capaz de produzir conhecimento.

Independente da vontade política ou corporativa há pessoas em todas as áreas engajadas em tornar o mundo melhor. Vemos avançar carros inteligentes, cidades inteligentes, máquinas cognitivas dedicadas a medicina,economia, clima.

Uma das grandes forças motrizes de mudança cognitiva dos humanos será o desenvolvimento cognitivo de máquinas como o Watson alimentadas por dados vindos da chamada Internet das Coisas (IoT em Inglês).

Isso transformará profundamente nossa forma de ver nosso próprio papel cognitivo. É até possível supor uma realidade parecida com a prevista por Isaac Asimov em Eu, Robô (meu vídeo sobre o livro).

Um ponto importante das revoluções invisíveis é que as forças de atrito contra elas são muito mais suaves porque seus efeitos são colaterais e muitas vezes subestimados ou simplesmente não parecem velozes o suficiente para causar medo e rejeição.

No entanto “veloz” também é um conceito que tem mudado muito… Se demorou 200 anos para o impacto cognitivo de Newton se fazer sentir pode demorar vinte ou menos para nossas vidas começarem a mudar sensivelmente graças às máquinas cognitivas. Se ligue 😉

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