Imagem: Buzz Andersen

A imagem acima é do encontro da lava do vulcão de Kalapana com o mar. Uma imagem que, pretendo demonstrar, representa bem o ano de 2016.

No entanto, em primeiro lugar, vamos pensar sobre o que é um ano ruim e decidir se 2016 foi o pior ano do século ou não.

Vamos lá para os tempos do pós guerra, quando achávamos que o mundo estava em uma era de ouro e Fred Asteire deslizava pelas telas do cinema (eu sei que ele já fazia isso na década de 30, certo?).

Costumamos achar que estava tudo bem até que as décadas de 60 e 70 destruíram tudo com novas guerras, novas crises sociais, no entanto cada era é fruto da era anterior e estou convencido que podemos dizer que foi a alienação das décadas de 40 e 50 que provocaram os problemas e isso é um problema.

Quando confundimos as consequências com as causas nos tornamos incapazes de agir profilaticamente, de nos adiantar aos problemas que virão.

Desde 2011, quando aconteceu o Occupy (e li Redes de Indignação e Esperança do Castells) já se esperava um período de crescimento de estereótipos associados ao viés de direita como preconceitos, misoginia, conservadorismo, políticas econômicas que favorecem elites às custas do esmagamento da população etc.

2016 não criou o Brexit, Trump, o golpe no Brasil, a xenofobia na Europa e até nos EUA. 2016 foi o ano que isso tudo chegou ao mar.

Por bem ou por mal foi à água que essa lava chegou e, em vez de incendiar nossas cidades, acabou produzindo essa neblina que nos cega e esse sentimento de impotência.

A propósito, o sentimento de impotência vem, no Brasil, de 2013 quando a população percebeu que os “dois” governos (vejo mais de dois, mas isso fica para outra ocasião)  estão cegos para ela. Um a reprime com violência e o outro carece do espírito necessário para entender sua voz e juntar-se a ela.

Sem uma terceira via à vista… Melhor explicar o que seria uma terceira via pois isso pode ser confundido com via de expressão, pois aí temos terceira, quarta, quinta… Temos uma infinidade de vias. No entanto não temos outra via de organização da sociedade e do país além das leis e da política… Ah! O retorno da ditadura militar também não é outra via, me parece que quase todo mundo sabe disso.

Agora podemos entender 2016!

Resumindo os argumentos acima e acrescentando mais algumas coisinhas…

  • Desde o início do século as sociedades (conectadas pela Internet) vem alimentando o desejo de uma democracia mais participativa, de mais voz para a população;
  • Políticos, mídia, corporações, burocratas não souberam dar ouvidos e reprimiram, ignoraram ou tentaram iludir. Não deu certo;
  • Sem enxergar outro caminho para gerir a civilização a sociedade condensou, se tornou como as águas do oceano esperando a lava para absorvê-la

Mas temos que acrescentar uma coisa porque você deve estar falando que sua vida pessoal e até grandes ídolos morreram esse ano… Ou melhor, sua vida pessoal não morreu, mas foi péssima.

Começou com David Bowie logo em 10 de janeiro, e fico tentado a concordar que ele tinha um efeito mágico de equilíbrio no cosmo humano, entretanto é mais provável que seja uma questão cognitiva.

Já nos sentindo sem representantes na política, na mídia ou em qualquer posição nas estruturas de poder, passamos a sofrer muito mais intensamente a perda de cada ídolo o que se complica ainda mais pois não temos como identificar os ídolos que nascem em 2016 já que são muito recentes.

Minha vida pessoal teve perdas reais, um parente que se foi, dificuldades econômicas, um amigo que sofreu um acidente e… para falar a verdade certamente 2016 não foi o meu pior ano nesse século, mas cheguei ao final dele convencido que tinha sido, afinal tudo está errado, certo?

Até os amigos que tiveram vitórias fabulosas esse ano tendem a concordar que foi um ano pior do que os anteriores, afinal é o consenso.

Isso não é bom. Quanto mais a nossa percepção se distorce, menos somos capazes de modificar nossa trajetória.

O que foi 2016 afinal? Já vai tarde? Vamos zerar?

Vou escolher uma notícia política recente para começar: FHC e Lula se aproximam para 2018.

Eu sei, eu sei… Agora a moda é a polarização e metade das pessoas lendo esse post odeiam o FHC e a outra metade odeia o Lula, mas tenho uma coisa para dizer: essas duas metades provavelmente não somam mais de 20% dos eleitores e boa parte de vocês é capaz de mudar de ideia.

2016 foi, acima de tudo, o ano que nos aterrorizamos com a polarização.

Já sabíamos que os políticos e o sistema todo estava apodrecido, mas não esperávamos que nosso amigo amasse ou odiasse (dependendo do seu viés) gays, negros, fascistas, comunistas etc.

A realidade tem muito mais nuances que isso, mas em 2016 parecia haver apenas os pontos extremos. E muitas vezes era uma ilusão, ou seja, você tinha certeza que a outra pessoa era XPTO, mas somente porque a neblina te impedia de ver as nuances entre os polos.

NEM PENSE EM ZERAR PARA 2017

Isso é óbvio: nada muda entre hoje e amanhã. Eu sei disso, você sabe disso, todos sabemos disso, mas nossa mente tem facilidade em se iludir e podemos criar a ilusão que 2017 começará renovado, que poderemos esquecer 2016. Se fizermos isso teremos que enfrentar vários 2016 como em um “dia da marmota”.

A união dos dois ícones da polarização (Lula e FHC), por mais absurda que possa parecer (e é), também é muito possível já que o negócio dos dois é se manter no poder e pode ser muito interessante para nos ajudar a perceber que a polarização é uma ilusão, um fenômeno cognitivo impressionante por ter se espalhado por todo o planeta, mas ainda assim uma falha de percepção que temos que superar.

O que fazer agora?

Descanse. Você vai precisar. Medite sempre que puder, se alimente bem e procure se exercitar pois você precisará de energia e disposição para reconstruir sua visão do mundo.

É… Você muito provavelmente terá que se livrar de estereótipos, convicções, conceitos antigos.

Sabe…Aquela história de “estamos em uma mudança de paradigma” que também é um senso comum? Pois é, mudança de paradigma implica nisso aí: reescrever nossa forma de ver e de fazer o mundo.

Por fim, vou adiantar uma previsão aqui (como procuro fazer de vez em quando): Pode parecer impossível, mas nos próximos anos as mudanças políticas e sociais brotarão dentro da atual estrutura de poder. Não porque políticos e corporações sejam bonzinhos, mas porque existe um equilíbrio entre o poder crescente da opinião e capacidade de articulação pública e, mais ainda, um crescente sistema memético que favorece a diversidade, o fim dos estereótipos (uma das maiores quebras de paradigma na minha opinião) e direitos individuais só para citar alguns.

Enfim…

Que sejamos capazes de ter uma visão mais realista de 2017 e que saibamos potencializar as boas oportunidades que virão como já vieram em 2016 (e até aproveitamos algumas vezes).

Ah! Parece que muita gente tem pedido para sermos melhores em 2017. Seja sempre melhor! Mas de forma alguma pense que você ou os outros (muito menos os outros! Não seja o tipo de pessoa horrível que acha que a humanidade é horrível, menos você) foram culpados por 2016. Nem mesmo os políticos foram. Nosso problema é uma estrutura organizacional que precisa ser mudada e não sabemos ainda como fazer.

E se acalme, nós acharemos o caminho!

Como sempre digo: nosso único problema sério é a mudança climática. Se não desenvolvermos a ciência e tecnologia adequadas e não agirmos rápido isso pode nos destruir! O restante é apenas o processo doloroso e constante de amadurecimento.

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