O último dia do curso promovido pelo Pontão da Eco da UFRJ é a nossa contribuição de volta para a coletividade: devemos escrever sobre a experiência do nosso grupo ou coletivo em uma das áreas abordadas durante o curso (todas comentadas em outros posts aqui mesmo no blog), a saber:

  1. As Revoluções da Comunicação: Redes, Software Livre, Copyleft
  2. Capitalismo estético e sistema de autonomia/controle
  3. A Filosofia do Software Livre e a crise da Propriedade
  4. Capitalismo Cognitivo e a emergência da Multidão
  5. O Horizonte da Gratuidade e a Cultura Digital
  6. Copyleft, Pirataria e práticas colaborativas
  7. Creative Commons e Novas Formas de Licenciamento
  8. Economia da Cultura
  9. O Fenônemo das Lan Houses
  10. RadioArte e Práticas estéticas
  11. Redes Colaborativas
  12. Cultura Remix e Microfilmes
  13. Web-arte e Webativismo – Midiarte

Descrição do grupo ou coletivo a que pertenço

Faço parte do coletivo informal auto-organizado frequentemente chamado de blogosfera, mas prefiro o termo digitosfera compreendendo que há um conjunto de princípios que tentem a caracterizar blogueiros, habitantes de redes sociais, tuiteiros, jogadores online, interessados em robótica, ativistas online e outros grupos que utilizam intensamente os meios de comunicação digital podendo-se até incluir os internautas de celular.

Minha participação nesse coletivo se deu em duas fases distintas.

A primeira fase foi na era dos BBS (1994) quando participei mais ativamente do BBS Centroin mobilizando-me pelas causas comuns do grupo, já na época envolvendo principalmente a força coletiva das nossas vozes individuais. A segunda fase iniciou-se recentemente (em 2008) quando me aproximei mais da chamada blogosfera (apesar de manter um blog ativo desde 2002).

Ao longo destes 15 anos a maior parte das  pessoas quem quem tenho convivido são o que chamarei de cibernautas por falta de uma palavra melhor e esse é o meu coletivo: pessoas que vivem intensamente os princípios e tendências da cultura digital.

Experiência abordada

Decidi falar sobre o grupo que se formou para organizar as edições do Twestival no Rio de Janeiro e da forma como ele se organiza em uma rede não centralizada a exemplo das redes colaborativas citadas pela Oona Castro e do modelo OpenSource abordado pelo Sérgio Amadeu.

O Twestival é essencialmente um evento social com o objetivo de promover o encontro offline de frequentadores do Twitter.

Nascido na Inglaterra além do caráter social escolhe-se uma instituição (OSCIP) para ajudar através de arrecadação de recursos.

Houve apenas duas edições do evento até o momento.

Na primeira edição ocroreu a formação espontânea do grupo para organizar o evento da seguinte forma:

Um participante da coletividade (@lesilva) soube da iniciativa inglesa e cadastrou nossa cidade entre as que organizariam uma edição local, mas não teve tempo ou condições de mobilizar outras pessoas e muito menos de assumir todo o projeto sozinho. Em virtude disso o projeto ficou parado até que outras pessoas decidiram se unir a ele faltando apenas uma semana para o dia do evento (adotou-se uma data única para todas as cidades nessa edição).

O grupo formado contava com certa de 10 participantes que agiram sem uma coordenação centralizadora utilizando a rede de comunicação do Twitter e uma lista de emails paa evitar o conflito entre as tarefas a que cada um se dedicava.

Subgrupos também se formaram para algumas atividades mais complexas coornenando-se internamente da forma hierárquica tradicional.

Como resultado o evento foi um sucesso e o Rio de Janeiro, além de atrair quase 80 pessoas em um dia de forte temporal (12/02/2009) foi uma das cidades que mais arrecadou recursos para a instituição esolhida (uma que faz poços de água potável na África).

Na segunda edição o grupo já se encontrava mais preparado e organizado e seria de se esperar que houvesse uma mudança para o modelo tradicional o que não aconteceu e além disso houve mais uma modificação no sentido da formação de uma rede não centralizada de trabalho.

Para a imprensa (o evento tem alguma repercussão na mídia tradicional) elegeu-se uma representante (@claudiaruiva, que foi o elemento que mais se engajou em estimular o grupo na primeira edição), mas o funcionamento interno permaneceu o mesmo com uma diferença.

Na segunda edição, tendo pouco mais de um mês para organizar o evento, o restante da coletividade (tuiteiros) se envolveu naturalmente em várias das atividades de organização e promoção do evento a tal ponto que é difícil definir quantos foram os organizadores e muitas vezes pessoas que não estavam na lista de email se confundiram com o restante.

Apesar da organização aparentemente caótica mais uma vez o evento transcorreu normalmente reunindo mais de 80 pessoas e mantendo a faixa de arrecadação do anterior.

Grupos de trabalho em rede descentralizada

Como um grupo sem uma coordenação centralizada pode funcionar adequadamente? Esse é um modelo que pode ser reproduzido ou deve se formar espontaneamente?

Creio que a formação do grupo foi possível por todos estarem profundamente imersos na cultura digital e já estarem acostumados a interagir além da esfera offline com naturalidade. Por exemplo, não usam chats limitados preferindo o Twitter, não escrevem emails preferindo o mesmo Twitter ou blogs para assuntos menos simples e dominam o uso do email e listas de emails.

Quando surgiu a necessidade de cumprir uma infinidade de atividades em um espaço de tempo muito curto a solução da auto-organização surgiu naturalmente sem necessidade de planejamento.

Creio que grupos semelhantes se formarão naturalmente sempre que houver necessidade semelhante envolvendo pessoas digitais (novamente por falta de palavra melhor).

Assim como fazer uma consulta rápida ao Google pelo celular é um ato corriqueiro para nós a construção de um grupo auto-coordenado também pode ser um impulso natural de cibernautas ou pessoas fortemente inseridas na cultura digital.

O proceso de organização é praticamente instintivo se utilizando das ferramentas de comunicação digital sem esforço como se fossem fala ou o gesto.

Esses grupos se comunicam tão naturalmente entre os meios (principalmente voz, telefone, sms, chat, Twitter e email) que a coordenação central se torna desnecessária visto que eles sabem onde e o que cada um está providenciando a cada momento. É como um bem integrado time de jogadores de volei que sabem pelos gestos, posições e expresão uns dos outros como eles vão receber a bola e para quem vão mandá-la.

Essa é uma forma de organização que se tornará padrão entre grupos fortemente imersos na cultura digital? Não creio, mas me parece que é um modelo eficaz quando há muito para fazer em pouco tempo ou se trata de uma atividade que diz respeito a uma coletividade que deve ser inserida no processo de criação, decisão e execução.

Pontos fortes

Aplicado totalmente o modelo garantiria a decisão coletiva de cada etapa do processo de organização levando ao extremo a idéia de que duas cabeças pensam melhor que uma sugerindo que todas as cabeças pensam melhor que algumas.

Pela experiência como parte do grupo outro ponto forte muito importante é o mesmo que encontramos em redes descentralizadas como a própria Internet e a comunidade Opensource: a falha de um nó não compromete o conjunto.

Quando um elemento ou subgrupo percebe que não tem condições de cumprir a tarefa que lhe foi atribuida ele compartilha essa informação pela rede e logo outros se juntam ou assumem a tarefa. Um exemplo prático no grupo em questão foi em vários momentos quando foi necessário pegar material em um lugar e transferir para outro (como camisas do evento ou prêmios para serem distribuídos entre quem fazia doações para a instituição beneficiada): a informação era passada pela rede sendo assumida por algum nó que avisava “ok, estou perto e posso fazer isso”. Algumas vezes o primeiro nó falhou, mas logo passava a informação para a rede e alguém se prontificava.

Falhas

Há falhas para o modelo em si e falhas da sua implementação nas duas edições do evento que tomei como base.

As falhas na implementação em foco foram principalmente no sentido de não compartilhar totalmente a organização, decisão e execução com a coletividade o que se justifica na primeira edição pela falta de tempo, mas não na segunda.

Em parte a falha se dá justamente porque o aranjo em rede descentralizada não foi planejado, mas um movimento natural do grupo em questão que, em última análise, foram criados em uma cultura de redes centralizadas.

Se por um lado houve o impulso inconsciente de se organizarem dessa forma havia também o impulso consciente de manter o controle. Sendo assim o lugar do evento, a instituição a ser favorecida, a estampa da camisa criada para o evento, o fornecedor das camisas e diversas outras decisões foram tomadas pelo grupo que se mantinha coeso através da lista de emails (foram quase 3 mil mensagens trocadas em menos de um mês).

Essa falha pode ser vista como qualidade se observarmos do ponto de vista que um controle central para certas decisões pode ser necessário para evitar o caos ou a demora exagerada em certas tomadas de decisão embora valha destacar aqui que, na necessidade de uma decisão rápida todos os organizadores tinham autonomia (conferida tacitamente) para agir de acordo com seu próprio discernimento.

Isso destaca outro ponto, pelo menos em organizações de eventos, há uma necessidade grande de confiança. Não é sensato por exemplo jogar em uma rede totalmente aberta que alguém precisa pegar a mala com 3 mil Reais em arrecadação para a instituição beneficiada. Um certo grau de confiança entre os organizadores é necessário e essa é uma falha que podemos apontar no modelo em si e não na implementação.

Por outro lado é fácil pensar em várias atividades em qualquer tipo de empreendimento onde não é necessário um grau de confiança maior bastando a certeza da identificação da pessoa graças a avatares e uma presença online notável em redes sociais e blogs que deixem claro que a pessoa tem mais a perder ao prejudicar sua imagem do que ao tirar qualquer vantagem.

Desdobramentos prováveis para o futuro

Em março de 2010 haverá uma nova edição do Twestival (cujo objetivo será arrecadar recursos para uma instituição que investe na educação em países do terceiro mundo) e será interessante observar como o grupo se desenvolverá.

A suposição é que algumas das deficiências anteriores serão reduzidas e mais decisões serão feitas coletivamente fora do grupo central que deve se caracterizar cada vez mais como um grupo executivo e coautor das decisões estratégicas.

Para isso talvez sejam usados sistemas de enquete online e o gWave que começa a mostrar alguma vocação para esse tipo de organização, mas as ferramentas não importam e sim o impulso coletivista no sentido de formações de redes descentralizadas.

Nas próximas edições, conforme as presenças online se tornem mais consistentes (mesmo com avatares que não revelam adequadamente os rostos os laços tendem a se estreitar graças à intensificação dos encontros online e offline) é muito provável que vejamos uma fronteira menos definida entre o grupo executivo e todos os envolvidos no evento.

Se deixará de haver um grupo que se mantém mais coeso através de uma lista de emails mais consisa acho improvável, mas a cultura digital tem o histórico de nos surpreender e na verdade creio que ess modelo será ao menos testado inconscientemente ou mesmo poderá vir a se impor naturalmente.

Considerações finais

Partindo do caso relatado podemos supor que outros grupos se organizarão da mesma forma e que a influência das novas organizações em redes não hierárquicas se estendem além do universo do desenvolvimento de software ou da cultura digital mostrando-se como uma alternativa aos grupos de trabalho hierárquicos usados em todas as organizações.

É o caso de se pensar até onde e em que ambientes esses modelos organizacionais podem se mostrar mais eficientes que os atuais.

Devemos repensar a forma de integração dos departamentos de uma empresa entendendo que seus departamentos estão começando a se integrar na forma de redes distribuídas e não hierarquizadas como já sugeriu Carlos Nepomuceno?

No processo de adotar esses novos arranjos devemos estar atentos para os casos onde eles não se aplicam ou onde um modelo híbrido se mostraria mais adequado.

Além disso está claro que uma parte essencial do preparo para participar dessas redes está no trânsito natural entre as redes de suporte digital visto que é necessário ser capaz de desenvolver empatia, julgar o caráter, qualidades e deficiências do outro mesmo com pouco ou nenhum contato presencial.

Caso esses arranjos em redes descentralizadas sejam um movimento natural os nossos jovens os implementarão sem grandes esforços, mas o que dizer do período de transição e o que podemos fazer para que ele seja mais suave e com menos percalços?

Como esses arranjos organizacionais serão apropriados pelo meio acadêmico?

Há muitas perguntas a fazer, mas creio que as respostas começam na busca consciente de uma inclusão social online indo além da ideia de inclusão digital.

É a capacidade de transitar pelas redes online como se fossem espaços físicos (parques, salas de estar, cozinhas, praças e bares) que nos preparam para participar de grupos auto-organizados sem um centro hierárquico pois é nessas redes que desenvolvemos as abilidades sociais para interagir na ausencia da expresão física e inflexão de voz e aprendemos a nos comunicar digitalmente (seria melhor dizer online) com a mesma naturalidade que fazemos pessoalmente (offline).

Pin It on Pinterest

Share This

Compartilhe!

Mande para suas redes sociais