Eu não estou pronto para falar o que tenho a dizer.

Tenho pensado muito: Afinal, onde nossa evolução memética, essa mente digital extracorpórea que vamos construindo e que vai nos modificando nos levará?

Há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

Estamos na era da biotecnologia, dos mega-telescópios que diminuem o Cosmos, da reprodução das condições do momento do surgimento do universo, das supercordas, da medicina da imortalidade, das novas formas de energia, fazendas verticais e arcologias.

Não há sequer uma área da nossa civilização que não esteja diante de alguma reforma. A revolução das redes sociais, apesar de chamar mais atenção, talvez seja a menor delas.

Naturalmente estamos todos perplexos (quem não está é porque mantém os olhos bem fechados) e a perplexidade da medo e o medo faz ver tudo turvo e ameaçador.

De certa forma é turvo e ameaçador sim, afinal a transformação é a morte de algo para o renascimento de outra coisa.

E assim chegamos à cyberpáscoa ou ciber-páscoa, a palavra não existe então você escolhe como usar.

Vemos uma morte e renascimento ciber-orquestrados pois está claro que os nossos instintos já não são nossa principal influência. Somos mais dirigidos hoje pela síndrome de abstinência das nossas mentes sedentas por um fluxo de informação constante e cada vez maior.

Como se perguntou o Gil se aventurando pelo lado B do lado bom da Internet (e assusta ver essas palavras em um technootimista, mesmo que seja necessário):

…vimos desenvolvendo um autismo social-digital, que nos impede de lutar por nossos irmãos e a sobrevivência do nosso planeta, e e assim nos deparamos com a perda gradual de nossa ternura e pureza. Opções nossas claro, subreptícias, que revelam  extrema covardia e auto-alijamento humano…

Antes de seguir adiante coloco na equação as palavras de Leonardo Boff sobre o processo de renovação do planeta lembrando:

…estamos ainda na fase juvenil, com pouco aprendizado. Estamos ingressando na fase adulta, aprendendo melhor como manejar as energias da Terra e do cosmos. Então a Terra, através de nosso saber, deixará que seus mecanismos sejam destrutivos. Todos vamos ainda crescer, aprender e amadurecer.

Nesse ponto pare tudo. Livre seu coração do turbilhão de medos e inseguranças para poder raciocinar logicamente. Respire calmamente por uns 90 segundos colocando a História em perspectiva lembrando de como fomos mais selvagens no passado e quase nos auto-destruimos com falta de higiene (peste negra) e inúmeras guerras. Sobrevivemos a tempos muito mais irracionais que os modernos.

Evite também a absurda falácia das manchetes que nos fazem perder a esperança na humanidade porque um casal de psicopatas cometeu um crime sem alma. Olha para a humanidade como um todo e verá que essa é a melhor de todas que já esteve no planeta.

Se não fosse assim o presente seria melhor do que é. Se está ruim é porque as humanidades anteriores falharam.

A questão é: vamos cair no vício dos arcônidas fechando-nos em realidades virtuais digitais?

Pois eu pergunto… As gerações anteriores não estavam viciadas em realidades virtuais cinematográficas, morais, econômicas? Não se esqueça da sociedade do espetáculo brilhantemente analisada por Guy Debord.

Tenho certeza que as realidades virtuais da Internet são mais concretas e realistas do que a maioria das realidades virtuais anteriores.

Nossos relacionamentos estão se tornando mais superficiais? Eles eram profundos nas décadas de 50, 60?

Recentemente vi Batalha Real, um estranho filme japonês de 200 que se tornou cult e que, apesar de realmente se equilibrar entre o trash e o ruim, me perturbou profundamente.

Até que ponto somos capazes de ser amigos? E se nossa vida estiver em risco?

Em minha opinião a existência do filme e seu sucesso em nichos claramente ciberpunks reflete justamente o desejo do homo ciber de uma enorme profundidade de amizade. Talvez seja até uma demanda inevitável em decorrência dos fracos laços online.

A questão central e sobre a qual não estou pronto para discorrer detalhadamente é a diferença entre a evolução genética e a memética.

Sabemos  hoje que o gene é egoísta. Ele quer preservar apenas o indivíduo onde ele está. Não há no código genético a preocupação com a espécie, raça ou mesmo grupo social que se estabelecem apenas como artifício para garantir maior longevidade para o indivíduo que transporta os genes. Basta olhar para a história da nossa civilização para notar que a preservação da nossa espécie nunca foi uma prioridade.

Já o meme é muito diferente. Ele não tem portador físico. Ele pode transitar entre indivíduos livremente e por diversas formas (som, texto, imagem, bits). Memes precisam de indivíduos para evoluir pois é no fluxo de informações que ele se transforma e cada indivíduo transforma um meme de formas diferentes ao contrário que acontece no mundo atômico dos genes.

Memes precisam de uma humanidade numerosa. Memes precisam de uma humanidade com acesso à informação e, acima de tudo, memes precisam de uma humanidade que vá muito além da tolerância passando a admirar as diferenças. Eles precisam de uma humanidade fraterna e livre das misérias e impulsos genéticos destrutivos.

O homo Sapiens precisa dar um passo adiante. O Homo Cyber construirá cidades e templos do saber substituindo a adoração e culto ao corpo pelo cultivo da alma.

Esse é nosso caminho evolutivo.

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