Quando fiz observações sobre a manifestação convocada pelo governo a seu favor decidi que passaria a chamar os manifestantes de coelhinhos e chinchilas em uma adaptação da forma como se referem a zumbis na série Z Nation.

O que quero colocar com isso não é que sejamos hordas irracionais, é justo o contrário, muito embora cada “lado” veja o outro como bandos manipulados o que tenho visto são pessoas com os mesmos objetivos, mas separadas pela forma de atingir esses objetivos. Uns querem mudanças mais rápidas e intensas, outros temem que elas gerem o caos, mas todos que vejo nas ruas parecem estar em busca de uma sociedade mais civilizada.

Vou repetir a ideia nesse parágrafo: considero um erro estratégico e um erro de fato considerar que a sociedade está polarizada, que temos fascistas elitistas de um lado e comunistas baderneiros de outro.

Se quiser saber o que observei nas pessoas na manifestação pró-governo vá no link lá no primeiro parágrafo e agora vamos às manifestações de ontem.

O tamanho da manifestação

A última vez que vi algo parecido foi em 2013 e desde então nenhuma manifestação chegou perto.

Cheguei ainda na concentração, tinha muita gente chegando ainda, e fui caminhando perto do início da manifestação.

Quando ela estava quase chegando na Paulista eu tinha ficado um pouco para trás, então acelerei o passo para ver onde estava o início. Passei dele e observei que havia grupos bem à frente e, ao chegar na Paulista, vi que muita gente foi diretamente para lá.

Ou seja. Foi gigantesca.

Ela se torna ainda maior se considerarmos que teve bem menos eco na grande mídia que as de 2013 que foram comentadas na Globo em horário nobre poucos dias antes.

Quando a números mais precisos colocarei links no final do post conforme forem surgindo artigos.

Abrangência social – Quem estava lá?

Observando a diversidade étnica e social pode-se se dizer que era bem vertical apesar de ter notado poucas pessoas com mais de 50 anos.

No entanto vi uma homogeneidade memética, de enviesamento, um perfil acadêmico, progressista e humanista comum a quem tem sido rotulado de “esquerda”.

Isso quer dizer que, pela minha percepção, a grande maioria ali era de pessoas que já tinham uma posição contrária ao governo antes mesmo das eleições, o que não é um sinal ótimo.

Na manifestação a favor do governo notei uma diversidade de opiniões e de vieses maior apesar de, de acordo com uma pesquisa feita (também no link acima) apontar que 80% estavam lá com medo do PT, que interpreto como medo de mudanças pois ele acabou sendo transformado em um mnemônico do caos da mudança. Talvez possa dizer que 80% dos manifestantes do 30 de maio desejam mudanças sociais, econômicas, políticas etc.

Vejo um certo problema na falta de capilaridade do perfil dos manifestantes e na persistente “estanqueidade” entre os dois perfis, progressista e precavido.

É claro que a enorme quantidade de pessoas na rua representa uma pressão grande contra o governo que fica cada vez mais difícil de ser ignorada por ele, no entanto, sou da opinião de que é possível e necessário que os dois grupos se reencontrem ao longo dos próximos quatro anos e temo que seja pior para o desenvolvimento político da sociedade que esse processo seja interrompido caso o governo seja interrompido prematuramente.

Eu e Patrícia ainda na concentração no Largo da Batata

A reação das oposições

Percebi que é importante definir bem dois grupos de oposição.

Tenho visto a população se considerar inimiga, ou seja, os manifestantes que foram às ruas chamados pelo governo e os que foram agora mais espontaneamente (apesar de um forte protagonismo da UNE) se enxergam como inimigos. Fascistas moralistas de um lado, comunistas imorais do outro.

Considero isso incorreto. Nem um grupo é de fato fascista e o outro comunista, nem tem objetivos diferentes. Estão mais para grupos envenenados por outra oposição.

É natural em uma tribo que seja feita uma divisão em função dos líderes opositores, ou seja, um indivíduo apresenta uma posição, outro se opõe a ele e o restante da tribo se divide sob eles apesar de não concordarem de fato com nenhuma das duas posições.

Assim temos esforços de pequenas lideranças, com uso inclusive de máquina de marketing, alimentando as ideias de comunistas imorais e de fascistas moralistas que acabam dividindo as massas.

Essas pequenas lideranças são a segunda oposição.

Então o que temos visto por parte dessa oposição organizada ao #30M é o mesmo negacionismo dos fatos e mentiras que caracterizou a campanha para a presidência.

Tenho destacado sempre que esse comportamento imoral não é uma exclusividade do perfil reacionário, mas que prevalece nele por vivermos um momento social, tecnológica e cientificamente progressista o que torna muito difícil encontrar argumentos e fatos válidos a favor do refreamento das mudanças.

Um terceiro grupo gigantesco está fora da nossa visão: as pessoas que não vão a manifestações e que não se manifestam online.

Essa grande maioria tenderá para um lado ou para o outro em função do medo que sente, da insegurança física, moral e cognitiva que reflete pela sociedade.

Nesse sentido o sucesso das manifestações de “esquerda” podem aumentar o medo caso sejam eficientemente difamadas pela propaganda da oposição.

Nos últimos dias, entretanto, os esforços da oposição que vi foram apenas no sentido de tentar dizer que a manifestação foi pequena; uma mentira bem difícil de sustentar. Se continuar assim o governo perderá cada vez mais apoio da população e as manifestações a seu favor serão cada vez menores, o que não quer dizer que o viés defendido por ele perderia eleitores para o progressismo identificado com as esquerdas, como eu disse, a maioria votará no que for aparentemente menos progressista se estiver com medo de mudanças.

Ah! Sim, há uma linha de tentativa de desqualificação das manifestações usando uma suposta agressividade contra uma equipe de jornalistas da Jovem Pan (não confirmei se ocorreu de fato). Visto que ela se coloca muito claramente contra os ideais da manifestação isso pode ser visto até como uma provocação justamente para ter material para atacar a manifestação. Não me pareceu uma linha muito forte.

Como transcorreu? Teve violência?

Apesar do episódio acima, consegui percorrer boa parte da manifestação e não percebi qualquer espírito raivoso comum aos manifestantes.

Claro teve palavras de ordem enfáticas como “Bolsonaro, seu imbecil, eu quero livro, e não fuzil” ou até queima de judas, no entanto o campo de ataque é muito mais ideológico que pessoal, ao contrário do que se percebe entre os manifestantes reacionários.

Os Black Bloq estavam presentes bem à frente da manifestação, mas não havendo ataque aos manifestantes não acontece reação deles.

Patrícia e eu entre os Black Bloq

As pessoas incomodadas pela manifestação, como motoristas engarrafados, também não demonstraram agressividade ainda que eu não tenha notado uma adesão de quem estava em ônibus se juntando à manifestação como aconteceu em 2013.

Links e material de apoio

Já deixo a sessão aqui para lembrar aos visitantes que podem voltar aqui pois certamente surgirão artigos e pesquisas demográficas que valerá a pena reunir aqui e comentar se corrobora ou invalida alguma observação minha.

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