Fazia tempo que não assistia um espetáculo de dança contemporânea, apesar de ser a forma de arte que mais amo depois da literatura.

Arte é uma metalinguagem que nos permite enxergar o que queremos ver ou aquilo em que estamos pensando.

Justamente por isso saí do espetáculo sem conversar com ninguém e vim pela rua repassando mentalmente cada movimento, frase e sentimento para me certificar se eu estava vendo o que queria e não o que o Carlos Laerte (coreógrafo) e o resto da Cia pretendiam passar.

O espetáculo de quase 1h começa com uma moça vestida de urbanidade, movimentando-se com uma aleatoriedade que surpreende (e uma consciência corporal fora de série à propósito) enquanto um vídeo mostra cenas urbanas.

À partir desse ponto o que vi foi o abandono gradativo das roupagens culturais que nos levam a viver em realidades virtuais, afinal a cultura, qualquer cultura, é uma realidade inventada por nossa consciência (ou pelos memes) e somente na pele, fronteira entre dentro e fora do nosso corpo, está nossa roupa real.

E o que nos move? Quando os bailarinos no palco encontram a harmonia dos movimentos?

O som durante a maior parte do espetáculo não é ritmado de forma clara e quando a música impõe uma batida marcante ela não é o suficiente para explicar o que nos move.

Somente no final, no encontro do ritmo no outro é que, finalmente, encontramos harmonia entre os seis bailarinos.

Como disse, posso estar enxergando apenas o que quero ver, afinal há uma infinidade de situações e relações que são representadas pelas coreografias, mas a espinha dorsal que vejo nesse belo espetáculo da Laso é a mesma que venho tentando explorar nos últimos tempos:

Não é nossa cultura que nos define, cada cultura tem seu tempo, sua posição geográfica. O que nos define é uma consciência comum que se manifesta através da diversidade de culturas que criamos.

O que nos move não é a fome, o medo, o poder ou o amor, o que nos move é o outro.

Se as mudanças que temos chamado de cibercultura são na verdade um movimento muito mais vasto realizado por toda cultura humana e a cibercultura é apenas um reflexo ou até protocultura do tipo de sociedade a que nos dirigimos é natural que aquilo que consideramos cultura digital esteja presente em todas as manifestações humanas, afinal a cultura digital não seria a causa da nova cultura, mas apenas uma região de experimentação onde os princípios da nova cultura são colocados à prova.

Bem, está faltando dizer que, embora não seja um espetáculo feito para quem nunca viu dança contemporânea, além de ser esteticamente belo e estimular áreas de prazer intelectual que muitas vezes estão adormecidas, há alguns textos recitados por uma das bailarinas que ajuda a juntar as pontas mesmo para os neófitos (e não incomoda quem se sente “iniciado”).

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