Na verdade não se trata apenas de incoerência das crenças, mas se estende a um tipo de dissonância cognitiva em que acabamos sendo arrogantes e nos atribuindo qualidades divinas ou um lugar de destaque na ordem universal (assumindo que há uma) que certamente não temos.

Piadas como essa do Porta dos Fundos, ou melhor os comentários a ela nos dizem muita coisa sobre isso.

A piada naturalmente é com as pessoas que atribuem tudo que acontece – em geral somente as coisas boas – a divindades, como se um ser ou seres que criaram e mantém o Universo se preocupassem em cuidar individualmente dessas pessoas recompensando-as por serem especiais no Universo.

Quando olhamos os comentários vemos uma boa quantidade de críticas ao que seria um desrespeito contra a divindade em questão (muito embora eu concorde que outras divindades mereciam espaço nas obras de humor).

Até mesmo os críticos às críticas raramente observam que o alvo da piada não é a divindade, mais uma suposta incoerência de alguns seguidores daquela crença que deixam de ser gratos a quem claramente foi o ator principal do feito realizado.

Claro que não há qualquer mal em ser grato a uma divindade e achar que tudo que acontece de bom emana dela e que tudo que acontece de mal emana de outra divindade maligna (visão bem comum no cristianismo que perdeu contato com o monoteísmo passando a crer em duas divindades). No entanto é frequente a ingratidão.

Aliás vemos até a troca do “obrigado” que reflete um laço de gratidão com quem nos faz um bem por “gratidão” que move o foco para o “Cosmos” liberando-nos de obrigações com aqueles que nos ajudaram.

Outra dissonância cognitiva ou mera incoerência mesmo, está na necessidade de se colocar como porta-voz da divindade, declarando que ela está sendo desrespeitada.

Quase todos os sistemas de crenças tem divindades bem rígidas quanto aos castigos contra quem as desobedece ou incomoda. De Sodomas e Gomorras a dilúvios não faltam as demonstrações de ira divina. Por que então agora essas mesmas divindades teriam se tornado incapazes de agir precisando que auto-proclamados escolhidos façam seu trabalho defendendo-as?

Isso me lembra o caso de uma pessoa que admiro muito. Sempre defendeu uma abordagem mais humana para lidar com as injustiças sociais e sistema penal e de justiça. Ela foi baleada, quase morreu, teve que lidar com sequelas motoras… Continuou pensando como antes.

Enquanto isso há quem diga “Ah! Quero ver quando um bandido estuprar sua mãe, sua irmã, sua filha”. Como se a fraqueza de ceder ao ódio e desejar vingança tivesse qualquer relação com justiça ou com as medidas eficazes para reduzir a violência.

São seguidores do Coringa de “Piada Mortal”. Pessoas a um passo da loucura pelo ódio, mas não percebem isso, se olham no espelho e enxergam em sua ira um tipo de reflexo da ira divina…

Deuses irados não são bons deuses a seguir…

Infelizmente, seja qual for a realidade sobre a existência de Deuses e Deusas tudo indica que intervir em nossa civilização não está em suas agendas, por mais que nos coloquemos contra ou a favor delas.

É muito importante que nós passemos a reconhecer humildemente nossos lugares, os limites entre as nossas crenças e as crenças dos outros, que vivamos nossa religiosidade no foro íntimo das relações entre nós e o divino sem levar essas visões subjetivas para o mundo, a não ser de forma também subjetiva, através da nossa gratidão, bondade, razão, equilíbrio, união aos outros, compaixão, muita compaixão e empatia que é abrir mão do nosso próprio viés para tentar comungar com o viés dos outros.

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