O experimento da prisão feito em Stanford na década de 70 do século passado é usado até hoje para confirmar um viés comum: humanos são maus se não forem pressionados a ser bons.

O canal Vsauce decidiu revisitar o experimento porque há um bom tempo o experimento vem sendo questionado e sua hipótese também.

Antes de você assistir o vídeo vou oferecer um resumo e algumas considerações.

O experimento consistiu em colocar alunos e jovens locais para viver os papéis de carcereiros e prisioneiros. Os carcereiros tinham um certo anonimato e os prisioneiros eram desumanizados usando as mesmas roupas e sendo identificados apenas por números.

O experimento começou a ficar violento já no segundo dia.

A conclusão na época (usada até hoje) é que:

  • Quando damos poder a um grupo sobre o outro e
  • Desumanizamos o segundo grupo
  • As pessoas se tornam naturalmente perversas.

Tem um certo conforto nessa conclusão, uma confirmação de um viés muito comum dado pela natureza religiosa da nossa civilização: o pecado original.

Já há algum tempo questiona-se que meramente a escolha de papéis (carcereiros e prisioneiros) já contamina o experimento com uma expectativa de violência, o que realmente faz muito sentido.

Além disso há diversos sinais de que os pesquisadores induziram os carcereiros a serem violentos.

Isso não invalida o experimento, mas pode mudar sua conclusão para algo como:

Se as pessoas acham que estão servindo a um bem maior ou a uma autoridade superior, elas podem ser levadas a cometer perversidades.

O canal decidiu, então, refazer o experimento, mas isolando fatores como os papéis de poder. É o que você verá no vídeo.

Basicamente grupos de quatro pessoas são levados para uma sala totalmente escura onde trabalham juntos para montar um quebra-cabeças. Em outra sala existiria outro grupo que eles podem sabotar ativando uma sirene que vai até o volume 12, mas que à partir do 7 pode causar dano físico ao grupo adversário. Assista o vídeo, vale a pena. Tem legendas em português.

A propósito eu mesmo vivi uma situação bem semelhante à do experimento de Stanford.

Meu primeiro curso superior foi em um curso militar, o de Formação de Oficiais da Marinha Mercante.

Vale observar que a minha turma é conhecida até hoje como a mais indisciplinada da história do curso… Posso contar sobre isso, mas acredite em mim, era uma turma muito rebelde.

Como em outros cursos superiores existia uma tradição de trote, mas lá eram seis meses de trote em que os veteranos escolhiam “escravos” entre os “feras”. Tudo culminava em dois “dias do foda-se”, um dos veteranos forçando os feras a fazer atividades físicas extenuantes (como mais de 100 flexões ou dar voltas agachados num campo de futebol) e outro dos próprios veteranos se juntando em grupos para percorrer os camarotes fazendo uma “curra” simbólica.

Como eu disse… Era uma turma indisciplinada.

Apesar de todos os fatores foram poucos os casos de abuso além dos limites dos feras. Os “escravos” inclusive eram poupados de trotes por outros veteranos além dos seus “donos”.

Parece pior do que era de fato e, talvez mais importante, veteranos naturalmente mais compassivos (entre os quais me incluo) não se tornavam perversos adotando “escravos”, pelo contrário, dentro dos seus limites de influência amenizavam os trotes.

O assunto é muito extenso para explorar em detalhes aqui, mas posso dizer que minha experiência similar à de Stanford confirma que dificilmente uma pessoa muda sua natureza se não existe a pressão de uma autoridade ou “causa maior” influenciando-as.

É importante percebermos que a natureza humana pode ser outra, seus gatilhos podem ser outros diferentes do que nossos vieses construídos por séculos de cultura indicam.

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