Eureca! Creio que achei os fragmentos que faltavam para uma hipótese antiga!

Vivemos um momento único na história da humanidade.

A cada dia temos mais matéria disponível ao alcance dos nossos olhos para construir e reconstruir nosso conhecimento desde que a gente saiba fazer em nossas vidas o que a humanidade faz ao longo de história: colecionar dúvidas e hipóteses!

Há muito tempo me incomodo com a infância ser a melhor fase das nossas vidas, com criarmos nossas crianças assim: aproveite enquanto não se torna adulta porque depois é só ladeira abaixo.

Acabei criando a primeira parte da hipótese, a de que a maioria das pessoas morre aos 24 anos pois a essa altura já decidiu o que e quem é. Se torna um corpo estagnado, ou melhor, um corpo que se esforça para se manter estagnado. Nada fica no mesmo estado e é necessário um enorme esforço para causar a putrefação das nossas mudanças a fim de manter uma falsa estagnação.

Também questiono há décadas a criação de mundos de fantasia para as crianças, mundos que inevitavelmente entrarão em colapso como o Papai Noel ou mesmo o mimo que lhes dedicamos enquanto são jovens.

Aí vem o primeiro grande fragmento da minha hipótese sobre o fim da infância e a morte dos adultos:

Onde estão os adultos Índigo e Cristal?

Antes de mais nada tenho que dizer que não concordo com a ideia de crianças índigo ou cristal. Além de não ver qualquer argumento lógico a favor delas o que me parece é que toda a criança que teve uma certa liberdade para ser o que crianças são é cristal (ou índigo, não considero as diferenças importantes no escopo atual): colecionam dúvidas e hipóteses.

Talvez nós adultos saibamos que as crianças preservam algo que perdemos e por isso damos ouvidos a Severn Suzuki quando era criança:

Vinte anos depois ela continua sendo portadora de reflexões e convocações importantes, mas não tem sequer uma fração do eco que teve:

Severn Suzuki 20 anos depois – A sociedade precisa despertar

Será que que daremos ouvidos a Greta Thunberg em 10 anos?

Greta Thunberg em 2019 – A sociedade está despertando (que esteja certa!)

Mas a questão não é se Greta é um ser superior, se Severn é uma adulta mutante superior. A grande questão é que todos nós conhecemos crianças como elas, eu mesmo fui uma delas e tinha numerosos amigos iguais.

Em um ponto entre os 16 e os 30 anos essas pessoas que fomos se depara com um muro mortal e muitos de nós simplesmente morrem. São adultos em processo de putrefação.

O segundo fragmento: A sobrevivência das dúvidas e das hipóteses.

Pequeno Príncipe, o grande inutensílio

Essa obra tem dois pontos muito delicados, mas o Meteoro Brasil destacou a essência que faz dela uma história de valor universal. Assista!

A utilidade da vida é a vida…

Dá para resumir mais ou menos assim: O Pequeno Príncipe nos recoloca em contato com a capacidade de abstração. Nos alerta que os adultos tem perdido o sentido ficando obcecados por coisas, hierarquias e, acréscimo meu, meios de sobrevivência em uma cultura que está doente.

Na Unipaz, há muitos anos, entrei em contato com a ideia de normose, a patologia de ser normal (Roberto Crema, pode googlar).

Isso me leva ao terceiro e último fragmento (apenas por conveniência, pois há muitos outros), mas esse carrego comigo mesmo, não achei em algum post, podcast ou vídeo, muito embora com certeza esteja em vários: O amadurecimento e não o encrudescimento da criança.

O amadurecimento e não o encrudescimento da criança

É necessário alertar: A minha visão sempre se lança décadas a frente. Nunca me interessei muito no presente e sim nas eras, mas outras coisas precisam ser feitas IMEDIATAMENTE para que existam outras eras em que possamos construir mais essa mudança de paradigma.

Uma vez um amigo que estudava história observou que o pensamento ocidental era apocalíptico e o oriental era evolutivo. O primeiro via a história como colapsos e renascimentos e o segundo como crises e reconstruções ou adaptações.

Não sei se a visão é correta do ponto de vista histórico, mas certamente é como lidamos com nossa transição da infância para a adolescência e para a idade adulta.

Há poucos meses um parente mais velho me olhou condescendente porque eu, senhor de mais de 50 anos, jogava WoW.

Ora! Existe muito mais lúdico em mim do que isso! Frequentemente os amigos observam que tenho a idade mental dos seus filhos ou netos.

Assim como, quando criança, tive muitos amigos “índigo” ou “cristal” (e tenho certeza que você também foi ou teve), hoje ando com adultos que mantém o que deve ser mantido da nossa infância, apenas transformado pela maturidade, e maturidade não é absolutamente um tipo de seriedade ou endurecimento sisudo! Aliás… Boa parte dos adultos sérios e sisudos que conheço são extremamente infantilizados emocionalmente (egoístas, imediatistas) e perderam a capacidade de se deslumbrar com as mudanças por que todos passamos inevitavelmente.

O remédio para a normose, então, começa em permitir que nossas crianças amadureçam desenvolvendo suas capacidades naturais, preservando a empatia, curiosidade e desapego das certezas ao mesmo tempo que as ajudamos a ver além dos seus umbigos (é… crianças costumam ser meio egocentradas mesmo e desconfio que é da natureza da imaturidade delas).

A grande quebra de paradigma

Estou revisando meu antigo blog sobre cultura (o Galeria de Espelhos) e vendo que eu devia ter insistido muito mais em certos temas e alertas, então vou repetir:

Desde os anos 90 dizemos que o advento da Internet quebraria todos os paradigmas, que invertia a pirâmide do poder de comunicação (no lugar de poucos falando para muitos, temos muitos falando para todos) e que para saber o que a Internet mudaria bastava ver o que ela ainda não tinha mudado.

Bem… Ela não mudou a forma como educamos nossas crianças (mas mudou nossa percepção de gênero), não mudou nossa estrutura política (mas exterminou nossa mais antiga estrutura cognitiva: a classificação de tudo por estereótipos) e não mudou (ainda) a base do capitalismo, que continua sendo um monstro concentrador de capital (o que aliás, é anti-capitalista).

Aqui é o ponto em que volto meus olhos para perto e faço um exercício mais difícil para mim (sugiro acreditarem na minha visão de longa distância pois acerto há décadas): olhar para os desafios atuais.

É claro que o que desacelera a grande quebra de paradigma é a articulação consciente ou não (isso é assunto para quem vê bem de perto) de corporações que ainda vivem do paradigma que está em colapso, como Severn Suzuki adulta falou no vídeo mais acima, aliás, e seus esforços criam encadeamentos meméticos que tem sido chamados de necropolítica e congrega forças conservadoras, corporativas, burocráticas (para não deixar de citar Debord) e de comunicação entre outras no esforço de usar a única força capaz de influenciar toda uma civilização: A ignorância que leva ao medo, que leva ao ódio, que leva ao rompimento do tecido social e a polarização das vítimas que passam a entrar em conflito entre si.

Em 2010, no evento de marketing de um amigos, a pedido dele, eu mesmo dei essa fórmula para uma mulher que tinha perguntado “como manipular essas pessoas na Internet”. Me consolo dizendo para mim mesmo que eu não era o único a conhecer essa fórmula.

No entanto também avisei que o controle sempre acabava sendo descoberto e gerando reação violenta das pessoas.

Eu achava que ela queria manipular as pessoas para vender mais produtos, não pensei na época no uso político, afinal para esses grupos não importa a reação violenta já que 8 ou 12 anos a mais detendo a grande mudança de paradigma rende lucros astronômicos.

O grande problema…

O grande problema…

É que as mortes decorrentes de mais 8 ou 12 anos de atraso nas medidas de restauração dos ecossistemas podem ser astronômicas e causar o colapso do próprio capitalismo que, assim como as crianças, precisa amadurecer e não ser destruído para dar espaço a um novo sistema que surgirá do nada ou ressurgirá das sombras.

E aqui volto à minha zona de conforto para dizer que o capitalismo pode ser extremamente desagradável e até asqueroso, mas é inevitável. A única via possível que vejo é o surgimento de um capitalismo de esquerda, um capitalismo cognitivo, ecológico, planetário ou o nome que queiramos dar.

Imagem: O Pequeno Príncipe – 2015

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