Este post começa com a ansiedade provocada pela cobrança social pela mudança radical dos seus hábitos alimentares, mas aproveita esse ponto de partida para refletir sobre o futuro da alimentação e, principalmente, dissolver a ansiedade e pressão que nos paralisa e nos leva a simplesmente desistir e resistir ainda mais a mudanças.

Vamos começar logo por dissolver a ansiedade.

Este post foi estimulado por essa declaração, que é recorrente e quero comentar há um bom tempo:

Sugiro o seguinte: Se vc quer coisas sabor carne coma carne. Se quer comer plantas, coma plantas com gosto de plantas. E se quer parar o diminuir o consumo de carme o universo vegetal è gigantesco. Não se deixe enganar.

Paola Carosella no Twitter

Seguiu-se um flame no Twitter que se expandiu para alguns jornais e veículos de informação, mas o ponto principal é a pressão que isso coloca sobre cada pessoa interessada em tentar reduzir seu consumo de carne, seja por motivos ecológicos ou de saúde.

Essa postura adotada por muitos ativistas que chegam a chamar de hipócritas quem, por exemplo, reduz a carne, mas come soja, causa mais mal do que bem às causas tanto ecológicas quanto de saúde.

Também vejo frequentemente uma guerra contra as empresas que produzem tanto a carne quanto a soja (existe uma interseção como mostrarei mais abaixo) e contra o capitalismo como se a única forma de mudar o mundo fosse a ruptura radical com todas as estruturas econômicas e de poder.

Isso não vai acontecer. Não radicalmente.

Aliás vale aqui um colchete para falar de oportunismo.

Tanto no caso de empresas como o McDonalds lançando hambúrgueres sem carne quanto do Felipe Neto distribuindo livros LBBTQ+ geram comentários do tipo “São oportunistas, não quero! Não apoio”.

Duvido que a nossa preocupação com a alma de corporações ou mesmo de pessoas conhecidas seja mais importante que a preservação e restauração do meio ambiente, que a resistência aos ataques contra a diversidade humana. Bom para eles se não estiverem sendo oportunidas, mas o impacto disso para a humanidade é absolutamente zero.

É uma questão de prioridades: você quer colocar o mundo abaixo e criar uma nova sociedade utópica da noite para o dia?

O problema é que isso não vai acontecer, o que vai acontecer desse jeito é ansiedade, é a arrogância de se achar um ser de luz porque está tentando destruir o mal enquanto as outras pessoas não passam de hipócritas.

O que é viável acontecer é a gradativa migração de grandes corporações e o crescimento de iniciativas não governamentais ou mesmo do governo conforme ele se torne mais democrático ou seja pressionado a se mostrar mais democrático.

Resumindo a primeira parte, a Ansiedade!

Siga o seu ritmo. Qualquer pequena mudança que você faça, qualquer pequena atitude que você tome no sentido de uma alimentação e presença mais saudável e sustentável terá um impacto positivo.

Pense na situação hipotética em que as pessoas, na média, cortem 5% do seu consumo de carne. Isso já reduziria em mais de 2,5% toda a emissão de CO2 da humanidade já que 51% dela vem diretamente do gado, isso sem falar nos benefícios indiretos. Mesmo que você esteja trocando carne por soja, que também não é o ideal, mas é muito menos ruim para você e para o ambiente (mais sobre isso a seguir).

Além disso livre-se do peso de ter que causar a mudança no mundo. Somos 7 bilhões e aquele bife que você comeu ou deixou de comer não é o importante. Aquele dia que você deixou de tentar conscientizar alguém também não vai colocar tudo a perder. O que é ruim é você desistir pelo peso da responsabilidade que lhe é imposta e pela ansiedade e depressão.

Afinal de contas, o que realmente causará a mudança necessária é o movimento dos governos e das corporações investindo massivamente em substituições para a carne, campanhas de conscientização alimentar e de consumo, novas formas de produção de alimentos, fontes renováveis de energia.

E o nosso papel individual é sermos mais uma voz, como uma pequena vela acesa numa vasta escuridão! Não é o poder da sua voz, mas a soma das nossas vozes que produzirá as ondas capazes de pressionar o atual modelo de capitalismo para outro mais sustentável e menos “cancerígeno”.

Se você tem condições de mudar radicalmente, parabéns! Mas isso só é relevante mesmo para você, que colherá vantagens em sua saúde considerando que mudou radicalmente em um sentido saudável, claro.

O que realmente salvará o futuro?

Antes… O que estou dizendo não é que o impacto do que você faz individualmente é irrelevante, ele é importantíssimo, principalmente para você, mas as coisas mais preciosas que você pode fazer, mesmo enquanto não consegue ser uma dessas pessoas que se dizem superiores por só comer legumes crus (o que provavelmente nem será necessário), envolvem se informar sobre o que as corporações e governos precisam fazer, que tecnologias estão sendo desenvolvidas (geralmente em órgãos públicos, proteja as universidades sempre que puder) para garantir uma presença não apenas sustentável da humanidade, mas restauradora.

Alternativas à carne

O impacto da produção de carne bovina no meio ambiente é gigantesco!

Podemos até começar pela soja (e o milho), que é usada para criticar as alternativas à carne que a usam como base, mas a questão é que a maior parte da produção dela é para alimentar animais. Então a redução do consumo de carne gera uma redução do desmatamento para produzir soja.

O gado e as plantações para alimentar o gado ocupam 75% das terras aráveis do planeta (artigo acima também).

A emissão de gases que causam efeito estufa também são absurdas, 51% do COs e 65% do óxido nitroso produzidos no planeta todo (incluindo carros e indústrias) vem predominantemente da produção de gado.

Mais uma vez! Isso não é para você se desesperar, certo? Tem muitas outras coisas que podemos fazer além de reduzir o consumo de carne e, para sermos bem realistas, provavelmente elas serão mais rápidas eficientes para retardar e reverter a pressão ambiental causada pela agropecuária. Estou apenas colocando que, realmente, toda mudança que podermos fazer para reduzir o consumo de carne é importante.

Como a discussão que catalisou este post foi os hambúrgueres de vegetal decidi começar por este tópico.

Eles são feitos com soja, ervilha, grão de bico, beterraba, gordura vegetal, sal, açúcar e alguns ingredientes indefinidos como “tempero sabor carne”.

Podem ser considerados produtos ultra-processados que não são saudáveis? Provavelmente sim, mas é como eu disse antes: qualquer movimento no sentido de reduzir o consumo de carne tem um forte impacto.

O ideal é você consumir vegetais naturais, tanto para o meio ambiente quanto para a sua saúde? Com certeza! Mas a carne vegetal que te engana o bastante para reduzir a carne real pode ser um passo importante.

Talvez o principal fator seja a importância da sua flora intestinal na definição do que você gosta de comer.

Pessoas na verdade são quase como simbiontes: assim como o nosso sistema imunológico é composto principalmente por organismos que não são células nossas, também a nossa digestão é fortemente regida pela flora que habita nossos intestinos.

Ao passar a digerir alimentos baseados em vegetais você estará muito provavelmente reduzindo sua flora dedicada ao processamento de carne e aumentando sua flora especializada em vegetais.

Recaptura de carbono

Mesmo sem a redução da produção de gado, que permitirá o reflorestamento de florestas tropicais que tem uma enorme capacidade de recaptura de carbono (retirando Co2 da atmosfera) existem várias tecnologias em desenvolvimento usando tanto nanocomponentes quanto algas super captadoras de Co2.

Energia renovável

Uma planta energética que combine energia solar, eólica e até de fusão (e para essa precisa de forte investimento público em universidades), de maré entre outras pode aliviar significativamente e até eliminar fontes de energia menos sustentáveis como a hidrelétrica (precisa alagar grandes extensões de terra) e insustentáveis como fósseis e de carvão.

Fazendas verticais

Usei justamente a imagem de um projeto de fazenda vertical para ilustrar esse post porque vejo vários aspectos importantes nelas.

Além da vantagem óbvia da produção local eliminando a necessidade de transporte por longas distâncias que consomem combustível e exigem tratamentos especiais para os alimentos durarem mais, existe o impacto na urbanização.

Cidades povoadas por grandes edifícios fazenda podem desfrutar tanto das vantagens estéticas quanto do efeito positivo de uma presença maior de plantações.

Seria importante que as fazendas verticais fossem projetos feitos com recursos públicos e ocupados por pequenos agricultores em vez de grandes corporações que podem participar do projeto de outras formas como na construção dos edifícios.

Sou da opinião que a produção e preparação de alimentos deve ser feita com o mínimo objetivo de lucro possível focando no sustento dos seus produtores e não no acúmulo de recursos que levam a uma mercantilização do alimento que causa distorções como alimentos viciantes para forçar o consumo excessivo. Enfim, esse é outro assunto que não cabe aqui.

Esqueci alguma coisa?

Certamente esqueci várias coisas, desconheço outras tantas e omiti outras ainda por não considerar tão importantes quanto as que citei neste breve artigo.

Sinta-se à vontade para sugerir acréscimos, se você puder mandar também link para artigos expandindo o tema serão bem vindos e acrescentados ao post quando adequado e possível.

Todo artigo nesse blog deve ser visto como um projeto em andamento.

Imagem: projeto de fazenda vertical – Zaa Archi

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