Photo by John Noonan on Unsplash (detalhe)

Esse post não terá imagens assustadoras. Não precisamos alimentar mais ainda os medos, certo?

Quando eu era criança na década de 70 e adolescente na década de 80 sempre ouvíamos os alertas sobre os perigos do mundo, do homem do saco ao roubo de cérebro em shoppings centers passando pela kombi preta que levava as pessoas que passavam por ruas escuras.

É… Vou seguir nesse post a estratégia moderna para cativar a audiência, ou seja, vou envolver o tema com minha história pessoal e uma boa dose de nostalgia e emoção.

Vou nada! Adoro os vídeos do TED, mas essa fórmula já deu. Pelo menos para alguns assuntos.

Estamos num momento em que a abordagem racional é mais do que preciosa, é essencial. Mas, veja bem, não se trata de achar que as emoções são ruins, elas simplesmente não são boas quando estamos em busca de uma visão mais precisa do mundo.

Há algum tempo eu vinha pensando “O que aconteceu com as lendas urbanas, tão divertidas, que não aparecem mais ao meu redor?”

Digo divertidas porque eram mais ou menos inócuas e até eram úteis, como os contos de fada, para manter crianças e adolescentes mais atentas para riscos que ainda não tinham maturidade para reconhecer. Elas renderam até franquias e filmes de terror B também divertidos.

O que eu não tinha notado, mas fui percebendo nos últimos anos, é que já não andamos mais tão soltas pelas ruas. As pessoas passaram a se concentrar mais em shopping centers por um lado, e por outro um mundo muito mais estranho que as ruas estreitas do centro da cidade começou a fazer parte das vidas de todos nós, a Internet.

Escrevo Internet com maiúscula porque acho que precisamos percebê-la como um espaço físico, uma dimensão da realidade que está para a cidade assim como a cidade está para a floresta.

Cada um desses aspectos da realidade tem seus mapas, segredos e métodos de sobrevivência.

Na mata temos que contar com os nossos instintos e com a experiência dos mais velhos, na cidade… Bem, a cidade já é bem caótica porque não temos bons instintos para ela e a diversidade de culturas, tribos e segmentos sociais ainda as tornam bem difíceis de entender objetivamente. Era até para ainda haver lendas urbanas.

Pode ser que eu não esteja vendo as fatias da sociedade onde elas ainda se propagam, ou podem estar sendo abafadas pelas lendas cibernéticas.

Ainda não vi usarem esse nome, mas a Internet não é urbana, logo talvez precisemos de uma designação nova para as lendas que se propagam entre suas vielas e praças virtuais. Digital seria um péssimo adjetivo, então ficarei com cibernéticas.

Lendas Cibernéticas

Em uma era em que as pessoas que não estão conectadas à Internet estão ao menos vivendo às suas margens – como a Chapeuzinho Vermelho morando ao lado da floresta – as lendas se tornam cibernéticas e provavelmente tem as mesmas causas e gêneses das lendas urbanas.

A Internet é uma nova dimensão que, mesmo os ditos nativos, ainda não compreendem bem.

Como pessoas desconhecidas nos mandam mensagens no WhatsApp? Como aparecem as propagandas no meio dos vídeos do YouTube? Que poderes um hacker tem? Como reconhecer um Lobo Mau da Internet?

Momo é uma das lendas cibernéticas mais recentes, no entanto já vimos a propagação da baleia azul e temos visto um festival de lendas urbanas na política além de uma infinidade de vídeos de fantasmas, anjos, demônios ou sons estranhos nos céus.

Por um bom tempo não percebi isso, mas “vote branco para anular as eleições”, mamadeiras eróticas, a suposta facada falsa contra o candidato à presidência também são formas de lendas cibernéticas (além de serem fakenews). Mitos que podem até se referir a acontecimentos da realidade offline, mas que se materializam apenas graças à realidade online.

Já chegamos ao ponto em que vemos o que circula pela Internet como uma parte da realidade e muitas vezes nem questionamos.

Há poucos dias recebi por WhatsApp o vídeo de uma criança de 8 anos que teria aparecido em uma apresentação da Filarmônica de Berlim e chocado a todos ao regê-la com perfeição provando que a reencarnação existe. Na verdade a orquestra é de estudantes no Uzbequistão e ele é um dos integrantes. Muito talentoso, mas fica o receio de estar sendo privado da sua infância.

Rimos da Chapeuzinho Vermelho acreditando que o Lobo de camisola e touca é sua avó, mas também acreditamos nas lendas urbanas ou cibernéticas que nos são apresentadas.

Por que acreditamos em lendas?

Claro que há diversas respostas para isso porque diversidade é uma das nossas riquezas, mas arrisco a causa mais comum: Não sei se é verdade, mas é mais seguro acreditar.

Esse argumento pode parecer culpa das religiões que já usaram essa linha “lógica” para justificar a fé: Se Deus não existe e você acredita nele não tem problema, mas se ele existe, você não acredita, e ele fica zangado você pode acabar no inferno.

No entanto tenho certeza que isso é muito mais antigo.

Se Gronk, Gronka e Gronkolino (os amigos humanos de 300 mil anos no passado que gosto de usar como exemplos) percebem um arbusto se mexendo e parece que é porque tem um predador ali eles saem correndo.

Se não saem correndo e não é um predador tudo bem, mas se não saem e é eles morrem. Ou pior, o Gronkolino sai correndo e os outros dois não. Ele sobrevive tanto para passar seus genes mais precavidos quanto para contar a história de que, se parece que vai dar merda é porque vai dar merda.

O problema é que os tempos mudaram. Não se trata mais de arbustos e de predadores que vão saltar sobre nós. Se trata de valor da atenção. O “monstro” é o medo do arbusto.

Momo somos nós e o valor da atenção

Vivemos uma civilização cada vez mais memética, ou seja, cada vez mais nós somos máquinas que produzem, modificam e replicam informação, comportamento, cultura, enfim, memes. Exatamente como também somos máquinas que replicam, modificam e produzem genes. Aliás, é daí que vem o nome desse blog. Somos memes de carbono.

Em uma civilização memética o predador quer nossa atenção e o arbusto balançando são notícias e ideias.

Tenho usado o terraplanismo (a ideia de que a Terra é plana) como exemplo por ser uma ideia realmente bem delirante que, ainda assim, consegue se instalar em pessoas que deveriam ser menos crédulas como governantes, artistas e esportistas que tiveram acesso a boas escolas. Se o terraplanismo consegue seduzir mentes porque uma ameaça contra crianças não seduziria?

Você pode dizer, claro, que as pessoas também se apressam a colocar em culpa da própria desestruturação familiar e social em jogos ou filmes violentos ou em um “fantasma online” que manda desafios para as crianças se infiltrando em vídeos do YouTube (essa é a “encarnação” atual da lenda cibernética Momo), mas ainda fico com a forte influência do instinto de sobrevivência, afinal primatas sobrevivem há milhões de anos se assustando facilmente.

No final das contas, Momo somos nós. O monstro somos nós quando o compartilhamos.

Roneyb 2019 😉

Já tive essa conversa várias vezes e sempre encontro resistência. A pessoa não aceita que é a nossa preocupação em avisar sobre o monstro que planta nas outras pessoas a mensagem dele: vá se ferir. Fira alguém.

Mas quais são as medidas necessárias contra uma ameaça que não existe?

As próprias lendas urbanas felizmente apontam para um caminho: observe o que as pessoas mais vulneráveis fazem online, principalmente as crianças. Avise dos perigos e crie novas sabedorias populares: além do “não fale com estranhos” o “não compartilhe sua posição ou o nome do seu colégio”. Aliás o “não fale com estranhos” pode se transformar em duas:

  • Se não é seu contato e quer falar com você mostre para seu responsável
  • Se é repassado por uma pessoa conhecida, então veio de um estranho, desconfie.

Crie seus guias, sua experiência online e a compartilhe.

Monstros como a Momo e a Baleia Azul não existem, mas existem outros que os pais em geral não estão preparados para reconhecer da mesma forma que a Chapeuzinho Vermelho não está preparada para identificar o homem que a estuprará, então aprende a desconfiar que todo homem pode esconder um lobo sob sua pele.

No entanto o medo também leva à ignorância. Leva a não aprender a reconhecer quando se esbarra em um perigo real como a criança que brinca com um pedaço de metal saindo do chão no Vietnã e nem chegará a ter consciência que se tratava de uma mina explosiva.

Guia da floresta

O que realmente precisamos é reconhecer que a Internet é um novo território que todos nós devemos aprender a conhecer, que precisamos criar nossos guias de exploração com dicas sobre perigos e pontos seguros de cada planície, vale, estreito ou caverna online.

Uma região sem lei como um 4Chan se assemelha a uma caverna, o YouTube talvez pareça com um oceano onde podemos encontrar ilhas e animais que nadam sobre suas águas, mas não criaturas mais perigosas que nadam em águas profundas, o WhatsApp talvez pareça com a casa da vovó, dos vizinhos e nossa própria casa, mas com algumas outras casas feitas de pão de ló quase escondidas no fundo da floresta, mas quase sempre rastreáveis.

Enfim, escolha suas metáforas, elas ajudam, mas crie seus mapas e guias!

Para se aprofundar na lenda urbana Momo:

Só acho uma grande sacanagem esse nome Momo quando existe Momo e o Senhor do Tempo, do Michael Ende, o mesmo de História Sem Fim.

Ah! Vale a pena observar as tentativas de transformar o monstro Momo em metáfora para a desconstrução dos estereótipos de beleza. Já existe até história em quadrinhos em que Momo é uma boa pessoa.

Share This

Compartilhe!

Mande para suas redes sociais