Imagem: Train Direction – muda de direção de acordo com sua percepção

Estava ouvindo o podcast das EpicGirls sobre feminismo na cultura pop e pensando nas dificuldades em observar o mundo procurando reduzir os efeitos da lente do nosso próprio viés.

Nós vivemos em uma cultura machista e sabemos disso com tanta certeza que já não pensamos no que significa.

Cultura machista é porque favorece o homem, não é?

Não.

A cultura machista favorece quem se enquadra em um estereótipo que foi associado aos humanos do sexo masculino: não chora, é fisicamente forte, líder, auto-suficiente, inteligente, rude (tanto no sentido de grosseiro quanto de violento). Quem não se enquadra é “mulherzinha” o que significa ser frágil, dependente, burra, sensível demais (física e emocionalmente), delicada (tanto no sentido de ser educada quanto de ser dócil).

Isso, naturalmente não favorece ninguém.

Os homens não podem se interessar por arte ou demonstrar que sofrem e as mulheres se tornam alvo de todo tipo de perversidade.

A menos que sejam “machas”.

É justamente o que acontece com a personagem da Sigourney Weaver em Aliens.

Casualmente vi vários comentários sobre ela ser uma grande personagem feminina, mas em vários deles é comparada ao grande personagem do Schwarzenegger em… Sei lá são sempre mais ou menos o mesmo personagem.

Você seria capaz de citar 5 personagens fortes feitos por atores homens, 5 feitos por atrizes mulheres e um por atriz ou ator transexual que não se reduza aos estereótipos do macho alfa?

O viés é como daltonismo: é um conjunto de lentes que moldam nossa visão de mundo de acordo com a cultura em que nascemos e necessidades que temos. Ele nos ajuda a ver o que precisamos ver e só nos mostra o mundo com precisão por fruto do acaso.

Foi fácil pensar em em 11 personagens fortes que não se enquadrem no viés do machismo?

Se foi difícil não quer dizer que você é machista, mas apenas que cresceu em uma sociedade machista.

Também é o viés que leva a cultura pop a reforçar a cultura vigente. Primeiro porque quem produz enxerga o mundo pelo mesmo viés, segundo porque é feito para ser comprado por quem vive em uma cultura machista.

Um exemplo interessante que podemos tirar também do podcast das EpicGirls é a Úrsula, vilã de A Pequena Sereia.

É uma mulher forte, determinada e independente.

Em primeiro lugar ela se enquadra perfeitamente no checklist do personagem poderoso sob um viés machista. Em segundo lugar, se a mulher não se enquadra em sua caixa então é uma vilã, gorda, feia, azul que quer roubar o poder dos homens.

A mesma visão reservada às feministas e que muitas mulheres acabam assumindo ao se tornarem feministas (um direito e um processo delas que não tem nada de ruim) o que é natural em uma cultura machista.

Uma forma de nos aproximarmos da realidade é através de uma equalização de todo viés que pudemos estudar. Infelizmente em geral nós entramos em conflito com quem tem um viés muito diferente do nosso.

Talvez seja mais eficiente estudarmos o nosso próprio viés, entender o que é produzido por nossa percepção, que tendências ela tem para então podermos fazer um tipo de amortecimento.

Por exemplo. Em uma multidão controlada, como no metrô, não me sinto ameaçado e as primeiras pessoas que vejo são minhas semelhantes culturais (transparecem uma cultura diferente, se encaixam no meu perfil de atração sexual, são jovens etc. – não sou jovem, mas observo jovens pois vejo neles o turbilhão das transformações sociais).

Somente depois de vários minutos começo a perceber pessoas que fogem desse perfil.

Pode parecer preconceituoso (e há uma dose de preconceito nos filtros, é claro) mas trata-se apenas da nossa atenção seletiva buscando o que é mais importante a cada momento.

Na rua, onde há mais riscos, rastreio espontaneamente pessoas mal vestidas, andando devagar, atléticas que podem me oferecer risco de assalto e só depois percebo um casal de idosos.

Para conhecer nosso próprio viés precisamos observar conscientemente o que nossa percepção escolhe inconscientemente. Esse é um dos primeiros passos.

Faça a experiência. Num próximo post vou explorar mais como podemos identificar nosso próprio viés.

Em tempo: não é fácil. Em geral não percebemos que o viés é apenas uma visão da realidade, nós precisamos sentir que ele É a realidade. É por isso que viés existe, para que não tenhamos que pensar o tempo todo no que é real e no que não é.

A jornada para ver o mundo como é envolve perceber que a nossa realidade é, de certa forma, uma ilusão a qual nos apegamos. Se você não precisa ter uma visão mais realista do mundo pense duas vezes antes de continuar.

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