Esse aí não é realmente o Bill Murray, é um perfil que faz paródia, mas a frase me agradou tanto que decidi fazer esse post.

Pense bem. Vou fazer uma versão em português para ficar mais fácil:

Minha memória favorita de infância é não ter que pagar contas…

As lembranças nostálgicas da infância são uma epidemia moderna. Colocamos nossas crianças em redomas de fantasia fadadas a serem destruídas com violência na transição da puberdade e no contato com a dura realidade de que o mundo não gira em torno dos nossos umbigos, ou melhor, ele gira em torno dos umbigos dos que tem poder para fazer com que isso aconteça, ou seja, bem poucos.

No entanto o mais interessante na frase não é a profecia auto-realizada dos adultos frustrados e sim a invenção de uma memória que não existe e, tenho certeza, passa desapercebida para muita gente. Eu demorei alguns momentos para notar enquanto retuitava simplesmente por achar engraçado e bom para inspirar reflexões.

A memória inventada é a do prazer de não ter que pagar contas.

Poucas crianças tem consciência de que contas são pagas e, quanto tem, dificilmente conseguem perceber como isso pode ser difícil e, logo, não tem qualquer prazer em não ter essa responsabilidade.

A propósito, poucas crianças devem sentir alívio por não ter responsabilidades até que se tornem adultas e sintam falta dos tempos da inconsequência.

Nunca tinha pensado nisso como um viés cognitivo, mas é um paradoxo temporal que certamente pode fazer parte de uma estrutura cognitiva interessante: a criança que vive em minhas lembranças tem consciência das minhas dificuldades e sente alívio por não ter que viver a minha vida, ou pelo menos os aspectos ruins da minha vida, mas ruins pelo meu próprio ponto de vista.

Isso me lembra da tag #QueridaEuMesma bem representada pela Vivi Maurey:

A forma como percebemos e nos comunicamos com aquele que lembramos que nós fomos cria um curioso laço de memória circular que resolvi associar à fita de Möbius.

Quando observamos qualquer coisa é a nossa consciência atual que observa e entende de acordo com os próprios vieses cognitivos, mas quando olhamos para o nosso próprio passado formamos esse paradoxo.

É como se a criança que fomos continuasse “sendo”. Ela continua vivendo em nós como um personagem eternamente criança, mas lidando com as nossas experiências, talvez presa dentro do adulto, se preferir e para dizer de uma forma mais comum.

No entanto ver as coisas com formas incomuns nos ajudam a entendê-las melhor, por isso insisto na ideia do personagem criança que habita em nós.

Na ausência de ritos de passagem modernos (bem abordado por Joseph Campbell em O Poder do Mito) temos adultos que não se sentem adultos, que não passaram por uma transição que transforme o personagem criança que vive em nós em um adolescente, em um adulto e finalmente num ancião.

Pode parecer que a sugestão é que a criança, o adolescente, o adulto sejam mortos no processo de amadurecimento, da mesma forma como Jung fala na morte dos pais.

No entanto os pais são uma representação externa de dependência, uma projeção da autoridade que devemos conquistar para nós e não consiste, claro, nem mesmo em ter raiva dos pais, mas apenas perceber que você tem seus “pais” interiores (correndo o risco de soar como autor de auto-ajuda).

Já no caso dos nossos eus passados (e futuros) parece haver um tipo de viés que os mantém vivos e independentes em nossa própra auto-percepção, mas não são externos então não há o que retomar, há o que conciliar.

Talvez seja por esse viés que vejamos os traumas de infância como nódulos indissolúveis apesar de, depois da puberdade, termos cada vez mais controle sobre nossa própria consciência (controle ou pelo menos poder que podemos decidir exercer ou não).

É claro que nossa mente é muito mais frágil e ao mesmo tempo mais vasta que isso e há muito mais em nós que a nossa consciência, logo, mudar nossa natureza apenas à partir da nossa mente consciente e sem pleno conhecimento da mente inconsciente é uma tarefa heróica.

Mas não impossível.

Como você se relaciona com seus outros eus? Cada um com suas expectativas, sonhos, desejos e projetos?

Esse relacionamento é mais difícil para os homens que, vitimas muitas vezes inconscientes do machismo, tem suas possibilidades de auto-análise reprimidas, mas nada deve nos impedir de mergulhar em #QueridaEuMesmas ou #QueridoEuMesmos diante do espelho ou entre os amigos mais próximos.

Esse é apenas um esboço da ideia do viés da memória da fita de Möbius. A ideia está no ar para se desenvolver.

 

Imagem: JDBaskin no Flickr

Pin It on Pinterest

Share This

Compartilhe!

Mande para suas redes sociais